Um Tempo Chamado Yayá volta à Funarte SP em outubro
A vida reclusa da aristocrata paulista Sebastiana de Mello Freire inspira reflexões profundas sobre gênero e manicômios nesta nova temporada teatral
- Publicado: 02/10/2026 19:25
- Alterado: 02/10/2026 19:30
- Autor: Leonardo Nogueira
O palco transforma-se em um espaço de denúncia histórica. A montagem Um Tempo Chamado Yayá reestreia no dia 9 de outubro na Funarte SP. O texto explora a trajetória real da herdeira de uma imensa fortuna que viveu confinada em um casarão paulistano devido a severos diagnósticos psiquiátricos.
O resgate dessa biografia expõe as fraturas do passado. O espetáculo utiliza o drama pessoal da protagonista para dissecar o papel subjugado da mulher no início do século XX. O projeto cênico relaciona o isolamento forçado com os rígidos mecanismos de controle social impostos às figuras femininas daquela época.
A relevância histórica de Um Tempo Chamado Yayá

A órfã aristocrata enfrentou tragédias precoces. Sebastiana de Mello Freire, conhecida popularmente como Dona Yayá, perdeu os pais aos 13 anos e passou a ser tutelada pelo senador Manuel Joaquim de Albuquerque Lins. A herdeira sofreu sua primeira internação psiquiátrica oficial em 1919 e viveu reclusa sob vigilância intensa até sua morte, em 1961.
A diretora e dramaturga Patrícia Teixeira conduz uma investigação sensível sobre a cruel institucionalização feminina no país.
“Explorar o patrimônio cultural é resistir. Por meio do teatro, mediamos e compartilhamos questões relacionadas à história e memória da institucionalização, considerando como as questões de gênero se articulam com a loucura e sem esquecermos que o manicômio é a forma na qual o Estado se relaciona com a sociedade.”
A discussão central de Um Tempo Chamado Yayá transcende o ambiente clínico. A luta antimanicomial converte-se em um amplo debate sobre direitos humanos. A obra alerta para os perigos de uma sociedade que historicamente desqualifica, diminui e segrega mulheres fora dos padrões normativos.
A imersão do elenco e a estética cênica

Nove atrizes dão corpo e voz aos fragmentos desta complexa linha do tempo. A Cia. Coexistir de Teatro estrutura a dramaturgia da peça por meio de um processo colaborativo intenso. O coletivo teatral explora a saúde mental sob a perspectiva interseccional de classe, gênero e raça.
O elenco de Um Tempo Chamado Yayá retrata figuras centrais do longo período de confinamento:
- A protagonista nas variadas fases de sua vida reclusa.
- A madrinha e figura matriarcal do ambiente familiar.
- Os enfermeiros e cuidadores designados para a vigilância constante.
- O professor particular responsável pela instrução da herdeira.
Programe-se para Um Tempo Chamado Yayá
A companhia artística celebra mais de duas décadas de pesquisa ininterrupta. O grupo paulistano alia psique, mito e rito para propor experiências imersivas em espaços dedicados à memória da cultura brasileira.
Detalhes da nova temporada na capital paulista:
- Reestreia: 9 de outubro, às 20h.
- Temporada: Sextas e sábados às 20h; domingos às 19h (até 1º de novembro).
- Local: Funarte SP.
- Classificação indicativa: 14 anos.
- Duração: 1h30.
- Ingressos: R$ 80 (inteira) e R$ 40 (meia-entrada).
O teatro cumpre sua missão documental e incita a transformação social. Compreender as estruturas opressivas de um passado recente ajuda a combater o apagamento feminino no presente. Garanta seu ingresso e prestigie a reflexiva montagem Um Tempo Chamado Yayá, uma obra imprescindível para pensar a humanidade nos palcos de São Paulo.