Ultraprocessados do pai afetam peso do bebê, mostra USP
Estudo da USP de Ribeirão Preto vincula consumo de ultraprocessados pelos pais ao maior peso e acúmulo de gordura do recém-nascido
- Publicado: 02/08/2026 09:47
- Alterado: 02/08/2026 09:47
- Autor: Daniela Ferreira
O hábito alimentar do pai antes da concepção pode impactar diretamente o desenvolvimento e a composição corporal do filho ao nascer. É o que revela um estudo pioneiro realizado por pesquisadoras da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP) com 43 grupos de pais, mães e recém-nascidos atendidos na rede pública de Ribeirão Preto.
Publicado na revista científica Nutrition Research, o levantamento aponta que quanto maior o consumo de alimentos ultraprocessados pelos homens, maior o peso do bebê ao nascer e maior o acúmulo de gordura em regiões específicas do corpo do recém-nascido, como a coxa e a área suprailíaca.
O acúmulo elevado de gordura e o alto peso no início da vida são fatores de risco reconhecidos pela medicina para o desenvolvimento de complicações cardiovasculares e metabólicas na vida adulta.
Epigenética e o Impacto no Espermatozoide

A pesquisa é a primeira a demonstrar em humanos a relação entre a dieta paterna rica em ultraprocessados, tais como refrigerantes, biscoitos recheados, embutidos e salgadinhos de pacote e a adiposidade neonatal. Na amostra analisada, os ultraprocessados responderam por 30% da energia total consumida pelos homens.
A principal hipótese científica apresentada pelas autoras é de que o consumo contínuo desses produtos gere um estado pró-inflamatório no organismo masculino, alterando a qualidade do esperma antes da fecundação.
Esse processo ocorre por meio de alterações epigenéticas, onde fatores ambientais e alimentares ativam ou desativam a expressão de genes sem alterar a sequência do DNA. Uma das médicas e pesquisadoras do projeto, Mariana Rinaldi Carvalho, destaca a modificação no gene IGF-II:
“Estudos anteriores já haviam demonstrado que hábitos alimentar paternos podem modificar bioquimicamente o gene IGF-II no esperma, num processo conhecido como metilação, influenciando diretamente o crescimento e o desenvolvimento do feto”, explica Mariana.
Contraste entre Dieta Paterna e Materna

Um dos achados mais intrigantes do estudo foi a divergência de efeitos entre o consumo paterno e o materno de ultraprocessados durante a fase pré-gestacional e gestacional:
- Dieta Paterna: O alto consumo de ultraprocessados pelos homens esteve associado ao maior peso ao nascer e à maior gordura localizada no bebê;
- Dieta Materna: A ingestão desses alimentos pelas mães até a 16ª semana de gestação esteve associada ao menor peso, menor altura e menor circunferência cefálica do recém-nascido.
As pesquisadoras avaliam que a pobreza nutricional dos ultraprocessados afeta negativamente a formação e a eficiência da placenta materna, restringindo o aporte de nutrientes essenciais para o feto durante o desenvolvimento intrauterino.
Inclusão do Homem no Planejamento Familiar
A coordenadora do estudo e professora da FMRP-USP, Daniela Sartorelli, enfatiza que os dados reforçam a necessidade de mudar o foco tradicional da orientação de saúde, que historicamente recai de forma exclusiva sobre as mulheres.
“A alimentação e a saúde materna antes, durante e após o nascimento do bebê sempre receberam atenção, mas pouco se fala sobre o papel da alimentação paterna. Nosso estudo mostra que ela também importa muito para a saúde do bebê”, reforça a professora.
A equipe destaca que a qualidade da dieta independe do pai estar ou não acima do peso, demonstrando que os nutrientes e aditivos consumidos possuem papel isolado e determinante na programação metabólica da futura criança.