Tuco, jovem autista de 16 anos, lança primeiro livro
Arthur Akel Ferraz transforma cores e sentimentos em textos e desenhos no primeiro livro e participou de sessão de autógrafos na Bienal do Livro de São Paulo
- Publicado: 15/09/2026 17:28
- Alterado: 15/09/2026 17:29
- Autor: Edvaldo Barone
Se o azul pudesse conversar, talvez pedisse alguns minutos de calma. O vermelho teria histórias de amor para contar, enquanto o amarelo dificilmente esconderia a alegria. Foi imaginando diálogos como esses que Arthur Akel Ferraz, de 16 anos, começou a construir seu primeiro livro. Conhecido pela família e pelos amigos como Tuco, o adolescente encontrou nas cores uma maneira de escrever sobre sentimentos que fazem parte de sua própria experiência.
O resultado está nas 24 páginas de “Arthur no Mundo das Cores que Falam”, publicado pela Editora Pé de Letra. Texto e ilustrações nasceram das mãos do próprio autor, que passou cerca de seis meses desenvolvendo a obra. Em vez de utilizar as cores somente para preencher os desenhos, Tuco atribuiu a cada uma delas um significado. O azul se aproxima da calma e da paz, o amarelo da alegria, o verde da esperança, o vermelho do amor e o cinza da tristeza.
O trabalho começou no início de 2026 e encontrou matéria-prima em uma atividade que já fazia parte da rotina do adolescente. Tuco gosta de desenhar e consegue permanecer durante horas diante do papel, especialmente quando decide retratar animais. Para o livro, usou lápis de madeira coloridos, e os desenhos chegaram à edição preservando os traços originais que havia colocado no papel.
Um adolescente atento aos detalhes
Antes de se tornar livro, esse olhar já aparecia na maneira como Tuco se relacionava com aquilo que estava ao redor. Sons, cheiros, formas, animais e elementos da natureza despertam sua atenção. Ao escrever, parte dessas observações encontrou um caminho para chegar ao leitor por meio das associações entre cores e emoções.
Tuco está no espectro autista, nível 1 de suporte, e recebeu o diagnóstico aos sete anos. Já havia sido alfabetizado aos quatro e seguiu os estudos em escola regular. O autismo faz parte de sua história, mas não precisa funcionar como explicação para cada página que produziu. O ponto de partida do livro está em sua capacidade de observar, desenhar e criar uma linguagem própria para aquilo que sente.
Essa distinção também ajuda a retirar a publicação de um lugar frequentemente reservado a obras produzidas por pessoas com deficiência, no qual o diagnóstico acaba se tornando maior do que o próprio trabalho. Em “Arthur no Mundo das Cores que Falam”, é a criação de Tuco que conduz a leitura. Seu percurso pessoal acrescenta uma camada importante à obra, sem substituir aquilo que efetivamente existe nas páginas.
Do desenho em casa ao encontro com leitores

O trabalho desenvolvido durante meses ganhou uma dimensão especial. Tuco esteve na Bienal do Livro de São Paulo, onde participou, no dia 8, de uma sessão de autógrafos no estande da Editora Pé de Letra. Para a mãe, Ana Carolina Akel, esse momento teve um significado particular, ela enxerga uma possibilidade de ampliar as referências disponíveis a outras famílias que convivem com o autismo, principalmente aquelas que ainda estão nos primeiros anos depois do diagnóstico. “O que mais desejamos é a inclusão. O fato de Tuco se expor em uma tarde de autógrafos já significa muito, principalmente para os pais de crianças que receberam o diagnóstico recentemente. Eles passam a enxergar uma possibilidade concreta: ‘Olha o que ele conseguiu’”, afirma.
Para muitas famílias, o diagnóstico recebido ainda na infância vem acompanhado de dúvidas sobre autonomia, formação e futuro, questões que só encontram respostas ao longo do desenvolvimento. Aos 16 anos, Tuco constrói seu próprio percurso a partir dos interesses que cultiva desde pequeno, como o desenho e a observação atenta do mundo. A publicação do primeiro livro passa a integrar essa história ao lado da escola, da família e das experiências que continuam abrindo novos caminhos para o adolescente.
As próximas páginas já começaram
A passagem pela Bienal poderia funcionar como ponto de chegada para uma história iniciada no começo do ano, mas Tuco já deslocou a atenção para outro projeto. O adolescente prepara uma nova publicação e escolheu como tema justamente uma de suas paixões mais antigas, os animais. Se no primeiro livro Tuco imaginou o que as cores teriam a dizer sobre amor, tristeza, esperança e alegria, o próximo trabalho deverá nascer de algo que ele observa há muito mais tempo.
Aos 16 anos, Tuco não precisou procurar muito longe pelo assunto de seu primeiro livro. Olhou para as cores, pensou no que cada uma despertava e começou a desenhar. Quando decidiu fazê-las falar, encontrou também uma maneira própria de ser ouvido.