Após estiagem, SP amplia monitoramento e cria curva exclusiva para o Cantareira
Nova metodologia amplia base de dados, considera eventos climáticos dos últimos 15 anos e cria acompanhamento específico para o Cantareira, principal sistema de abastecimento da Grande São Paulo
- Publicado: 19/06/2026 12:54
- Alterado: 19/06/2026 12:54
- Autor: Suzana Rezende
- Fonte: ABCdoABC
O Governo de São Paulo anunciou nesta sexta-feira (19) mudanças na metodologia de monitoramento da segurança hídrica da Região Metropolitana de São Paulo (RMSP). A atualização, desenvolvida pela Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil), em conjunto com a Arsesp e a SP Águas, amplia a base de dados utilizada nas projeções, cria uma curva específica para o Sistema Cantareira e altera a forma de definição das faixas de contingência.
A medida busca fortalecer a capacidade de prevenção diante de cenários de estiagem e eventos climáticos extremos, ampliando a segurança do abastecimento para milhões de pessoas que dependem dos sistemas produtores da região metropolitana.
Segundo a Semil, a nova metodologia será oficializada por meio de deliberação da Arsesp e incorpora contribuições recebidas durante consulta pública realizada ao longo dos últimos meses.
Série histórica maior amplia capacidade de previsão

Uma das principais mudanças anunciadas é a ampliação da base de dados utilizada para as projeções hidrológicas. A partir de agora, o monitoramento passará a considerar o comportamento dos reservatórios ao longo dos últimos 15 anos, período que inclui fenômenos climáticos relevantes, como El Niño e La Niña.
De acordo com a secretária de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística do Estado, Natália Resende, a medida fortalece a capacidade de antecipação diante das mudanças climáticas.
“Estamos apresentando aqui hoje uma evolução importante a partir de todo um trabalho de gestão hídrica planejado, transparente e estruturado, que está inserido na estratégia climática do Estado estabelecida desde 2023. Agora teremos uma base de dados ainda mais robusta, com um olhar especial sobre o Cantareira por causa do comportamento particular que temos observado nesse sistema, e esses aprimoramentos vêm para ampliar ainda mais a nossa capacidade de prevenção e resposta rápida às mudanças climáticas, conferindo mais resiliência hídrica aos paulistas”, afirmou Natália Resende.
A ampliação da série histórica substitui a metodologia anterior, que utilizava um período mais curto de referência para a elaboração das curvas de contingência.
Sistema Cantareira passa a ter curva própria
Outra mudança considerada estratégica pelo governo estadual é a criação de uma curva específica para o Sistema Cantareira, responsável por cerca de metade do abastecimento do Sistema Integrado Metropolitano (SIM).
Até então, o Cantareira era monitorado dentro do conjunto dos sete sistemas produtores que abastecem a Região Metropolitana de São Paulo. Com a atualização, o reservatório passa a contar com acompanhamento individualizado.
A diretora-presidente da SP Águas, Camila Viana, explicou que o comportamento hidrológico do Cantareira difere dos demais sistemas, justificando a mudança.
“O Sistema Cantareira tem um comportamento diferente do restante do Sistema Integrado, com um período chuvoso que começa depois do restante do SIM e vai até o final de maio. Além disso, em 2025/2026, o Cantareira apresentou um volume de chuvas muito abaixo da média, o que justifica a necessidade de um acompanhamento mais individualizado”, destacou.
Segundo a SP Águas, enquanto o Sistema Integrado Metropolitano registrou precipitações equivalentes a aproximadamente 83% da média histórica durante o período analisado, o Cantareira recebeu apenas 62% da média esperada.
Com a nova metodologia, a definição das medidas de contingência passará a considerar simultaneamente o desempenho do SIM e do Cantareira, prevalecendo sempre a condição mais restritiva entre os dois sistemas.
Faixas de contingência permanecem as mesmas
Apesar das mudanças metodológicas, as faixas de atuação que orientam as medidas de contingência permanecem inalteradas.
O sistema continua dividido em sete níveis, que vão desde situações de normalidade até cenários de maior restrição de abastecimento. Entre as medidas previstas estão o Regime Diferenciado de Abastecimento (RDA), a Gestão de Demanda Noturna (GDN) e, em situações extremas, rodízios entre regiões.
Atualmente, de acordo com os dados apresentados durante a coletiva, o Sistema Cantareira encontra-se na Faixa 3, correspondente à Gestão de Demanda Noturna de 10 horas.
As projeções oficiais indicam a permanência nessa faixa ao longo dos próximos meses, sem necessidade de ampliação imediata das restrições.
Avaliação passa a ser mensal
Outra alteração relevante envolve os critérios de transição entre as faixas de contingência.
Pela metodologia anterior, era necessário permanecer sete dias em uma condição mais restritiva para que houvesse recomendação de avanço de faixa. Já o retorno para uma condição menos restritiva exigia permanência de 14 dias em cenário favorável.
Agora, a avaliação passará a ocorrer mensalmente.
Segundo o diretor-presidente da Arsesp, Diego Domingues, a mudança busca aumentar a estabilidade do sistema e alinhar os procedimentos adotados em São Paulo aos critérios já utilizados pelos órgãos responsáveis pelo acompanhamento do Sistema Cantareira.
“Agora, esses tempos são substituídos por uma avaliação mensal, que é feita até o final do último dia do mês. Ao final do mês, o Comitê Integrado vai emitir uma nota técnica informando, avaliando várias condições hidrológicas, quais as projeções que eles têm nas mãos, a faixa de atuação e a projeção das faixas”, explicou.
A metodologia também prevê reuniões extraordinárias em caso de eventos considerados excepcionais ou mudanças abruptas nas condições dos reservatórios.
Consulta pública resultou em aperfeiçoamentos
O processo de atualização contou com participação da sociedade por meio de consulta pública.
Ao todo, foram registradas 192 manifestações apresentadas por concessionárias, órgãos públicos, entidades da sociedade civil, representantes de consumidores e cidadãos interessados.
Segundo a Arsesp, 89 contribuições foram incorporadas total ou parcialmente à versão final da metodologia.
Entre os aperfeiçoamentos estão ajustes nos critérios de monitoramento, reforço dos requisitos para planos de contingência, fortalecimento das medidas de proteção a usuários vulneráveis e ampliação das exigências de transparência e comunicação.
Investimentos em obras complementam estratégia
Durante a apresentação, o Governo de São Paulo também reforçou que a nova metodologia faz parte de uma estratégia mais ampla de resiliência hídrica.
Segundo a Semil, o Estado reúne atualmente mais de R$ 25 bilhões em investimentos voltados à ampliação da oferta de água, redução de perdas, recuperação ambiental e fortalecimento da infraestrutura de abastecimento.
Entre as principais intervenções estão a Transferência Itapanhaú, que acrescentou capacidade de captação de água para o sistema metropolitano, a ampliação da Transferência Guaratuba, a construção de novos reservatórios, a ampliação de estações de tratamento de água e a futura Transposição Billings-Taiaçupeba.
O governo também destacou ações ambientais, como a recuperação de 41 mil hectares desde 2023, incluindo 10 mil hectares em áreas de mananciais, além do avanço de programas de desassoreamento e recuperação de cursos d’água.
Segurança hídrica é foco da estratégia climática estadual
A atualização da metodologia integra a estratégia climática implantada pelo Governo de São Paulo desde 2023 e reforça a política de prevenção adotada para enfrentar períodos de estiagem e eventos climáticos extremos.
Além do monitoramento permanente dos reservatórios, o Estado afirma manter reuniões semanais entre os órgãos responsáveis pela gestão hídrica para acompanhar indicadores, avaliar cenários e definir medidas preventivas quando necessário.
A expectativa é que a combinação entre monitoramento preventivo, planejamento de longo prazo e investimentos estruturantes amplie a capacidade de resposta diante de períodos de estiagem e reduza os riscos de desabastecimento na Região Metropolitana de São Paulo nos próximos anos.