O ponto cego que a arrogância cria
A arrogância compromete a liderança ao distorcer a autopercepção, reduzir o espaço para feedback e afastar informações essenciais para decisões melhores
- Publicado: 17/09/2026 13:40
- Alterado: 17/09/2026 13:40
- Autor: Leandro Roberto de Oliveira
Já se perguntou por que os líderes que você mais admira costumam falar de si mesmos com um distanciamento quase desconfortável, enquanto aqueles que menos admira parecem ter sempre uma resposta pronta, uma vitória para lembrar e um conselho a oferecer? Há uma frase que ouvi há pouco tempo e que não saiu da minha cabeça: “a arrogância vai até onde a realidade ou a humildade forçada decidem impor um limite”. Achei a formulação precisa porque ela descreve uma barreira que pode cegar alguém para as próprias limitações até que a vida prática imponha uma fronteira impossível de ignorar.
A frase também me levou diretamente a pesquisas que tentam medir essa distância entre aquilo que um líder acredita ser e aquilo que as pessoas ao redor efetivamente enxergam. É justamente nessa diferença que aparece um dos problemas mais silenciosos da arrogância na liderança: quanto menos alguém reconhece seus próprios pontos cegos, maior pode ser sua dificuldade para perceber que eles existem.
Dados reunidos pela Zenger Folkman a partir de avaliações 360 graus apontam uma diferença relevante entre a forma como gestores enxergam suas próprias capacidades e a maneira como são percebidos por colegas, subordinados e superiores. Levantamentos baseados nesse tipo de avaliação também chamam atenção para uma realidade desconfortável: a percepção que um profissional possui sobre a própria eficácia pode estar bastante distante daquela construída pelas pessoas que convivem diariamente com sua liderança.
O que o líder enxerga e o que a equipe percebe

Mais interessante do que a existência dessa distância é observar a direção que ela costuma assumir. Ao comparar autoavaliações de gestores com avaliações anônimas feitas pelas pessoas ao redor, pesquisadores encontraram um padrão particularmente provocador: líderes considerados mais eficazes por suas equipes tendiam a avaliar suas próprias capacidades com maior moderação, enquanto gestores pior avaliados por terceiros demonstravam uma percepção mais positiva sobre si mesmos.
Isso coloca em perspectiva uma característica frequentemente confundida com competência: a confiança demonstrada em público. A segurança com que um líder fala sobre suas decisões, resultados e capacidades, quando não encontra o contraponto de quem trabalha ao seu redor, diz pouco sobre sua eficácia real. Em determinadas situações, a distância entre confiança e competência pode ser justamente o ponto cego que ninguém se sente confortável para apontar.
E é aí que a arrogância deixa de ser apenas um traço desagradável de personalidade para se tornar um problema de gestão. Pesquisas sobre ambientes de trabalho indicam que subordinados de líderes percebidos como arrogantes encontram condições menos favoráveis para a troca de feedback. Aos poucos, as pessoas deixam de dizer aquilo que pensam, evitam questionamentos e aprendem quais assuntos podem ou não ser levados à liderança.
Quando o problema deixa de chegar ao líder
Esse mecanismo ajuda a compreender por que a arrogância consegue sobreviver durante tanto tempo dentro das organizações. Ela não apenas interfere na capacidade de quem lidera de reconhecer as próprias limitações. Também modifica o comportamento de quem está ao redor. Quando uma pessoa percebe que discordar gera hostilidade, constrangimento ou simplesmente não produz qualquer efeito, a tendência é que passe a selecionar aquilo que diz.
O resultado é um paradoxo perigoso. Quanto mais um líder precisa de informações capazes de corrigir sua percepção, menos essas informações chegam até ele. A equipe pode até continuar executando suas funções, participando de reuniões e respondendo às demandas, mas a circulação de opiniões sinceras começa a diminuir. O afastamento não acontece apenas porque conviver com alguém arrogante é desconfortável. Ele ocorre porque a própria relação deixa de oferecer espaço seguro para a verdade.
Essa ausência de contrapontos também interfere diretamente na qualidade das decisões. Estudos sobre excesso de confiança executiva mostram que dirigentes muito seguros da própria capacidade podem superestimar suas habilidades e as probabilidades de sucesso de determinadas escolhas, especialmente em decisões de maior risco, como aquisições e grandes investimentos.
O problema passa a se retroalimentar. Quanto mais um líder acredita que já possui as respostas necessárias, menor pode ser sua disposição para buscar informações externas. Quanto menos informação entra, maior se torna a dependência da própria percepção. E justamente essa percepção é aquela que precisaria ser confrontada por colegas, subordinados e superiores para revelar aquilo que o líder sozinho não consegue enxergar.
A arrogância como um problema de informação

O que mais me interpela nessa combinação de estudos não é descobrir que a arrogância pode prejudicar uma liderança. Isso provavelmente todos já suspeitávamos. O ponto mais interessante é perceber que ela também funciona como um problema de informação. Um líder arrogante não precisa necessariamente estar mentindo para si mesmo ou conscientemente ignorando a realidade. Em algum momento, ele pode simplesmente ter deixado de receber os dados capazes de corrigir sua percepção porque sua própria postura afastou quem poderia fornecê-los.
É essa constatação que muda a pergunta que considero mais útil depois de olhar para o tema. Perguntar “sou arrogante?” provavelmente não resolve muita coisa. A própria autopercepção que está sendo colocada em dúvida pode oferecer uma resposta confortável antes que qualquer reflexão mais profunda aconteça.
Talvez exista uma pergunta mais difícil e, justamente por isso, mais reveladora: quando foi a última vez que alguém da minha equipe me disse algo que eu não queria ouvir e como eu reagi quando isso aconteceu?
A resposta pode dizer mais sobre uma liderança do que qualquer discurso sobre humildade, abertura ou capacidade de ouvir. Se ninguém discorda, ninguém aponta falhas e nenhuma informação desconfortável chega há muito tempo, talvez o problema não seja a ausência de erros. Pode ser apenas que as pessoas tenham aprendido a não mostrá-los.
No fim, a realidade sempre encontra uma maneira de impor o limite mencionado naquela frase que abriu esta reflexão. A diferença é que líderes dispostos a ouvir não precisam esperar que ela faça isso da maneira mais dura. O feedback pode revelar o ponto cego antes que ele se transforme em erro, e talvez essa seja uma das avaliações de desempenho que realmente importam, justamente porque a arrogância dificilmente consegue controlá-la por completo.
Leandro Roberto de Oliveira

Leandro Roberto é especialista em gestão estratégica de projetos, portfólio e riscos, com mais de 25 anos de experiência em consultoria, auditoria e transformação organizacional, incluindo atuação em empresas como Allianz, KPMG e Ernst & Young. Reconhecido por sua expertise em PMO, governança corporativa e metodologias ágeis, destaca-se na conexão entre estratégia e execução, priorização de portfólio e gestão de riscos baseada em padrões internacionais. É graduado em Administração de Empresas e possui MBA em Gestão de Negócios pelo IBMEC/SP.