Lula busca apoio de Alcolumbre para conter pautas de desgaste

Palácio do Planalto tenta evitar avanço de propostas sobre maioridade penal e benefícios tributários a igrejas em meio ao cenário pré-eleitoral

Crédito: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) intensificou as articulações junto ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), para evitar a votação de propostas consideradas politicamente sensíveis às vésperas das eleições de 2026. Entre os temas que preocupam o Palácio do Planalto estão a redução da maioridade penal e a ampliação de benefícios tributários para instituições religiosas.

A estratégia busca impedir que pautas com forte apelo popular avancem no Congresso e gerem desgastes para o governo em áreas onde o PT tradicionalmente enfrenta dificuldades, como segurança pública e relacionamento com o eleitorado evangélico.

PEC das Igrejas preocupa governo por alcance entre evangélicos

Uma das propostas monitoradas pelo Executivo é a chamada PEC das Igrejas, que amplia a imunidade tributária para entidades religiosas. O texto impede a cobrança de tributos sobre bens, serviços e consumo relacionados aos templos, abrangendo desde veículos e equipamentos até despesas operacionais.

Embora partidos de esquerda tenham se posicionado contra a proposta na Câmara dos Deputados, o governo optou por liberar sua base durante a votação. Nos bastidores, integrantes do Planalto avaliam que uma postura contrária poderia ser explorada politicamente por adversários junto ao eleitorado religioso.

O tema ganha relevância em um momento em que Lula busca estreitar laços com os evangélicos, segmento que representa cerca de 27% da população brasileira, segundo dados do Censo de 2022. Nos últimos meses, o governo e o PT adotaram medidas para ampliar o diálogo com esse público, incluindo a divulgação de documentos voltados à defesa da liberdade religiosa.

Redução da maioridade penal volta ao radar político

Outra preocupação do governo envolve propostas que tratam da redução da maioridade penal. Atualmente, há pelo menos duas Propostas de Emenda à Constituição (PECs) em tramitação sobre o tema.

Uma delas já avançou na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados, enquanto outra aguarda análise no Senado. Integrantes da base governista avaliam que o tema possui forte apoio popular e pode ganhar impulso durante o período eleitoral.

O governo federal mantém posição contrária à redução da maioridade penal e defende alternativas voltadas à prevenção da violência e à inclusão social de adolescentes. No entanto, aliados de Lula reconhecem que a discussão costuma mobilizar a opinião pública e pode gerar pressão política sobre o Executivo.

Segurança pública segue como desafio para o governo

Nos bastidores do Planalto, a avaliação é que a segurança pública continua sendo uma das áreas mais sensíveis para o governo. O tema voltou ao centro do debate político após a classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas pelos Estados Unidos, movimento explorado por adversários políticos do presidente.

A preocupação do governo é que o debate sobre maioridade penal e combate ao crime organizado ganhe espaço e ofusque iniciativas próprias da gestão federal. Entre elas estão a PEC da Segurança Pública, que aguarda tramitação no Senado, e um novo programa nacional de combate ao roubo de celulares anunciado recentemente por Lula.

Relação com Alcolumbre é considerada estratégica

A condução dessas pautas passa diretamente pela presidência do Senado. Por isso, o governo trabalha para fortalecer o diálogo com Davi Alcolumbre e evitar que temas considerados prejudiciais avancem na Casa.

A aproximação ganhou força após conversas entre integrantes do governo e o senador sobre propostas com elevado impacto fiscal, conhecidas como “pautas-bomba”. Segundo relatos de interlocutores, Alcolumbre demonstrou disposição para evitar a votação de medidas que possam comprometer as contas públicas neste ano.

A sinalização foi vista pelo Planalto como um gesto importante para reconstruir a relação política entre Lula e o presidente do Senado, que enfrentou momentos de desgaste nos últimos meses.

Governo tenta avançar em projetos prioritários

Enquanto busca conter pautas consideradas problemáticas, o governo também tenta abrir espaço para projetos considerados estratégicos. Entre eles estão a PEC que propõe o fim da escala de trabalho 6×1, a PEC da Segurança Pública e o marco legal para exploração de minerais críticos e terras raras.

A expectativa é que uma reunião entre Lula e Alcolumbre nos próximos dias contribua para destravar essas matérias e alinhar a agenda legislativa até o fim do ano.

Pautas fiscais também estão no centro das negociações

Além dos temas ligados à segurança e às questões religiosas, o governo acompanha de perto propostas que podem gerar impacto fiscal significativo.

Recentemente, ministros da área econômica e da articulação política se reuniram com Alcolumbre para defender cautela na análise de projetos que criem novas despesas para a União. Entre os assuntos debatidos estão reajustes de pisos salariais e aposentadorias especiais.

Apesar do entendimento entre governo e Senado, algumas propostas continuam avançando no Congresso. É o caso da renegociação de dívidas rurais, do reajuste do piso de médicos e cirurgiões-dentistas e de medidas relacionadas aos agentes comunitários de saúde.

O Planalto avalia, entretanto, que ainda há espaço para negociar alterações ou retardar a tramitação dessas matérias, evitando impactos nas contas públicas e novos focos de tensão política em ano eleitoral.

  • Publicado: 12/06/2026 07:35
  • Alterado: 12/06/2026 07:35
  • Autor: Suzana Rezende
  • Fonte: FolhaPress