IA ajuda a criar novos remédios em apenas poucos dias
Inteligência Artificial (IA), prevê combinações que facilitam a absorção de medicamentos pelo corpo, reduzindo o tempo de pesquisa
- Publicado: 17/06/2026 15:30
- Alterado: 17/06/2026 15:30
- Autor: Daniela Ferreira
- Fonte: ABC do ABC
A descoberta de novas fórmulas que facilitem a absorção de medicamentos pelo corpo foi o tema de destaque no encerramento do 7ª Merck Regulatory Summit LATAM, nos dias 16 e 17 de junho de 2026. Em sua apresentação, o especialista Gustavo Posadas-Rangel revelou como a Inteligência Artificial (IA) está revolucionando a ciência dos medicamentos, reduzindo o tempo de pesquisa de novas estruturas farmacêuticas de um ano e meio para menos de cinco dias.
O foco da inovação está na previsão de cocristais, uma técnica que promete salvar projetos de remédios que hoje enfrentam grandes barreiras para fazer efeito no organismo.
O Desafio da Absorção dos Remédios

Atualmente, a indústria farmacêutica enfrenta um grande problema: a maioria das novas moléculas descobertas para tratar doenças não se dissolve bem na água. Estima-se que, entre as patentes de remédios que vão vencer até 2030, em tratamentos críticos como diabetes, câncer e problemas cardíacos, cerca de 70% a 80% tenham enorme dificuldade de dissolução.
Se o remédio não se dissolve direito no estômago ou no intestino, o corpo não consegue absorvê-lo, e ele perde o efeito terapêutico. Para resolver isso, os cientistas precisam modificar a estrutura física do medicamento sem alterar as suas propriedades curativas. É aí que entram os cocristais.
O que são Cocristais?
Para entender de forma simples, imagine que o princípio ativo do remédio seja um cristal. Um cocristal é a união desse cristal com um “parceiro” (chamado coformador), que pode ser uma substância comum e totalmente segura, como o ácido cítrico do limão ou até mesmo outro remédio.
Eles passam a viver juntos na mesma estrutura, como se fossem vizinhos de porta. Essa união traz grandes vantagens:
- Super dissolução: O parceiro ajuda o remédio a se dissolver muito mais rápido no corpo.
- Mais durabilidade: Evita que o comprimido absorva a umidade do ar e estrague ou mude de formato na prateleira.
Historicamente, fazer isso em laboratório era um processo de “tentativa e erro” que demorava até 18 meses de testes exaustivos, muitas vezes sem chegar a resultado nenhum.
A Solução da Inteligência Artificial: M-Predict

Para acabar com essa demora, a Merck apresentou o M-Predict, um sistema de Inteligência Artificial. Em vez de testar fisicamente centenas de combinações no laboratório por meses, os cientistas colocam a receita da molécula no computador.
Em um prazo de 3 a 5 dias, o algoritmo analisa as possibilidades e diz exatamente quais combinações vão funcionar e dar origem a um remédio estável.
O sistema tem 88% de taxa de acerto. Além da velocidade, a IA revelou que 27% das combinações descobertas por ela nunca tinham sido vistas antes na história da ciência, abrindo caminho para a criação de remédios genéricos mais eficientes e baratos para a população.
O que muda na Lei e nos Países?
Para a sorte dos pacientes, as agências regulatórias do mundo (como o FDA nos EUA e a EMA na Europa) concordam que os cocristais não são remédios totalmente novos, mas sim melhorias de medicamentos que já existem. Isso é excelente porque o processo para aprovar um genérico é muito mais rápido e barato do que criar um remédio do zero.
- No Brasil (Anvisa): A regra divide os projetos pelo risco. Se o remédio for misturado a uma substância simples (como o ácido do limão), ele pode virar genérico rapidamente, precisando apenas de testes simples para provar que funciona igual ao original. Se misturar dois remédios diferentes no mesmo cristal, a exigência é um pouco maior para garantir a segurança.
Ao usar a inteligência artificial para cortar o tempo de pesquisa de anos para dias, a indústria farmacêutica ganha um fôlego inédito na América Latina para garantir que os remédios do futuro cheguem mais rápido, mais baratos e mais eficientes às farmácias.