Gilmar acusa Mendonça de viés eleitoral no caso Master

Gilmar Mendes: decano do STF chama atuação de Mendonça de "vil", aponta interferência na eleição e pede adiamento para 23/09

Gilmar acusa Mendonça de viés eleitoral no caso Master

Crédito: ABC do ABC

Em uma das manifestações mais contundentes e duras da história do Supremo Tribunal Federal (STF), o decano da Corte, ministro Gilmar Mendes, acusou abertamente o colega André Mendonça de utilizar a relatoria das apurações do caso Banco Master para interferir no processo eleitoral da eleição presidencial marcada para 4 de outubro. O confronto ocorreu na manhã desta terça-feira (15), durante a sessão plenária extraordinária convocada para decidir sobre a abertura de inquérito formal contra o ministro Alexandre de Moraes.

Dirigindo-se de maneira enfática ao presidente do tribunal, ministro Edson Fachin, Gilmar sustentou que a condução processual de Mendonça foi calculada com propósitos políticos externos.

“Com todas as vênias e toda sinceridade, presidente, é evidente e até as pedras sabem que há um inequívoco viés político-eleitoral na forma como o tema foi conduzido. Isso não se faz, pessoas decentes não fazem isso”, disparou Gilmar.

Bate-boca e Troca Direta de Ofensas

André Mendonça. Gilmar
Carlos Moura/SCO/STF

A fala do decano provocou reação imediata e exaltada de Mendonça em plenário. O magistrado interrompeu o voto do colega para refutar a acusação:

“Vossa Excelência está sendo leviano, ministro”, retrucou Mendonça.

“Vossa Excelência não tem a palavra. Vai escutar com tranquilidade. Evidente condução político-eleitoral a escolha do 7 de Setembro”, prosseguiu Gilmar.

“Não aponte o dedo para mim, ministro Gilmar. Não está falando com qualquer um”, rebateu de pronto o relator.

“Só merece respeito quem se dá ao respeito”, devolveu Gilmar Mendes.

Diante do grau de conflagração, o presidente Edson Fachin interveio para garantir que André Mendonça terá oportunidade regimental para responder a todas as imputações apresentadas pelo decano assim que a palavra for concedida.

Acusação de “Pixuleco Eleitoral” e Assimetria de Tratamento

Gilmar Mendes classificou a metodologia de trabalho adotada por Mendonça como um “pixuleco eleitoral” e considerou a postura institucional do relator como “digna de máfia, covarde, vil”.

Gilmar Mendes
Reprodução

Na fundamentação de sua crítica, o decano apontou tratamento seletivo e desproporcional em relação ao acervo probatório extraído do telefone celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Segundo Gilmar, houve esforço para investigar Moraes de ofício, enquanto menções nominais a outro integrante do colegiado, o ministro Kassio Nunes Marques, teriam sido ignoradas.

“De um lado, centenas de páginas produzidas de ofício à margem da competência do plenário e sem oitiva do titular da ação penal para reunir referências a um ministro. De outro, elementos que vêm a público que dizem respeito a outro ministro, que constam de dados oficiais do Coaf, que aparecem com nome e sobrenome no aparelho do principal investigado da operação, sem que se tenha visto o mesmo rigor ou qualquer tipo de impulso de ofício”, denunciou Gilmar.

O decano ressaltou que a retenção dessas peças sem o conhecimento do Ministério Público gerou instabilidade sem precedentes: “Quando um único integrante do tribunal reúne, de ofício e sob sigilo, elementos que julga serem capazes de abalar a honra de outros ministros e os retém sem submetê-los ao órgão a quem competiria conhecê-los (a PGR), o que se produz não é apenas uma investigação irregular. Uma assimetria se produz (…) é uma atitude digna de máfia, covarde, vil”, afirmou.

Questão de Ordem e Pedido de Adiamento

Gilmar Mendes rebate Kassio Nunes que votou contra suspeição de Moro
Fellipe Sampaio/SCO-STF

Ao concluir seu pronunciamento, Gilmar Mendes suscitou uma questão de ordem formal perante o colegiado. O decano solicitou que o plenário suspenda a deliberação e unifique a análise da situação de Moraes ao julgamento de um pedido protocolado contra o próprio André Mendonça por suposto abuso de autoridade.

A proposta de Mendes é adiar a deliberação conjunta para o dia 23 de setembro de 2026, data em que a pauta formulada por Fachin já prevê a análise do procedimento conexo.

Após a sustentação, a sessão foi temporariamente suspensa por Fachin perto das 13h, em razão da pausa para almoço e da interrupção de sinal da TV Justiça decorrente da veiculação obrigatória da propaganda eleitoral gratuita. A retomada presencial foi confirmada para as 14h, quando os ministros votarão a questão de ordem levantada pelo decano.

Daniela Ferreira

  • Publicado: 15/09/2026 14:20
  • Alterado: 15/09/2026 14:20
  • Autor: Daniela Ferreira