Flávio Bolsonaro destinou emenda a miliciano do caso Marielle
Polícia Federal interceptou mensagens entre assessora parlamentar e ex-policial negociando verba pública para projeto suspeito.
- Publicado: 22/09/2026 07:53
- Alterado: 22/09/2026 07:53
- Autor: Thiago Antunes
O senador e candidato à presidência Flávio Bolsonaro destinou uma emenda parlamentar de quase R$ 200 mil para um projeto esportivo após pedido de Robson Calixto, conhecido como Peixe. O ex-policial militar é um miliciano condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por envolvimento no assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes em 2018.
A negociação ocorreu em 2023 através de mensagens de WhatsApp interceptadas pela Polícia Federal. O diálogo envolvia Peixe e Maria de Fátima Bezerra Castro, secretária no gabinete do senador em Brasília. Os portais g1, O Estado de S. Paulo e a revista piauí noticiaram as apurações iniciais sobre os desvios.
Relação direta no Congresso Nacional

A corporação identificou a assessora como interlocutora direta do miliciano no gabinete de Flávio Bolsonaro. No dia 24 de outubro de 2023, Peixe iniciou o contato em busca de verba de custeio. “Amiga vê com o nosso Senador se consegue nos ajudar”, pediu o ex-policial. A funcionária respondeu solicitando o envio imediato de um ofício formal.
Dois dias depois, a funcionária questionou sobre o paradeiro do ex-deputado federal Chiquinho Brazão, também preso sob a acusação de ser um dos mandantes do crime. Ao receber a confirmação de que Peixe o acompanhava, ela enviou um convite para uma cerimônia para entrega de 396 coletes balísticos para a Polícia Militar do Rio de Janeiro.
“Temos um evento. Vc vai tbm e já reforça o pedido com o senador”, instruiu a secretária, complementando a ordem para levar Brazão ao encontro. Os relatórios investigativos indicam que esse evento serviria para consolidar o pedido financeiro de forma presencial.
Liberação dos recursos e suspeitas do TCU

As cobranças surtiram efeito em novembro de 2023, quando a equipe de Flávio Bolsonaro formalizou o repasse orçamentário. A investigação confirmou o envio de R$ 199.999,79 para o Ministério do Esporte, que assinou o fomento com o Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio (IFOP). O montante deveria financiar o projeto para atender crianças em Taquara, na região de Jacarepaguá.
Um levantamento técnico realizado pelo Tribunal de Contas da União (TCU) apontou indícios severos de desvio do dinheiro público. O órgão fiscalizador destacou que a empresa contratada para coordenar o treinamento esportivo atuava com serviços advocatícios, sem qualquer relação com esportes.
“Ademais, verificou-se que o responsável pela empresa […] é o próprio presidente do IFOP, entidade contratante”, registrou o documento do tribunal sobre as supostas fraudes.
Troca de favores no carnaval
As mensagens apreendidas expuseram solicitações particulares meses após a liberação da emenda por Flávio Bolsonaro. “Já estou te perturbando rsrsrs será que consegue 4 ingressos pro desfile das campeãs no camarote Arpoador?”, cobrou a assessora em janeiro de 2024. O miliciano procurou terceiros para atender ao pedido.
Em março, Peixe retomou o contato para cobrar novos repasses financeiros. O ex-policial ressaltou que verificou o sistema de destinações parlamentares e não encontrou novos cadastros do senador.
Defesa de Flávio Bolsoanro nega irregularidades
A equipe de comunicação de Flávio Bolsonaro enviou nota oficial justificando a operação orçamentária e negando qualquer ato ilícito. “A emenda foi destinada dentro da legislação vigente e dos critérios técnicos do Ministério do Esporte. A entidade executora apresentou notas fiscais dos materiais adquiridos e devolveu os valores não utilizados”, declarou a assessoria.
O comunicado enfatizou que a responsabilidade pela execução do recurso cabe exclusivamente à entidade beneficiária. As investigações tramitam sob sigilo no Supremo para rastrear possíveis esquemas nos repasses liberados por Flávio Bolsonaro e outros deputados federais listados no inquérito policial.