Do Cavalo Nada Sabemos estreia no Sesc Ipiranga em SP

Do Cavalo Nada Sabemos estreia no Sesc Ipiranga após passagem pelo Festival de Avignon e aborda violência, filosofia e a relação entre humanos e animais

Do Cavalo Nada Sabemos estreia no Sesc Ipiranga em SP

Crédito: Divulgação

O espetáculo Do Cavalo Nada Sabemos, protagonizado por João Paulo Lorenzon, estreia em São Paulo nesta sexta-feira (18), no Sesc Ipiranga, após ser apresentado no Festival de Avignon, na França, em julho. A montagem terá temporada até 11 de outubro, com sessões às sextas-feiras, às 21h, e aos sábados e domingos, às 18h30.

Durante sua passagem por Avignon, Lorenzon se tornou o primeiro artista brasileiro a protagonizar um espetáculo e dirigir outro na mesma edição do festival. Além de atuar em Do Cavalo Nada Sabemos, ele dirigiu Nunca se tem tanta força como quando não se tem força nenhuma, com Julia Setubal.

A peça parte de um episódio envolvendo Friedrich Nietzsche para discutir violência, culpa, reparação e a relação entre seres humanos e outras espécies.

Do Cavalo Nada Sabemos parte de episódio ligado a Nietzsche

A dramaturgia de Do Cavalo Nada Sabemos toma como ponto de partida um episódio ocorrido em 3 de janeiro de 1889, na Piazza Carlo Alberto, em Turim.

Segundo o relato histórico que inspira a montagem, Nietzsche teria presenciado um cocheiro espancando um cavalo e corrido para abraçar o animal. Depois do episódio, o filósofo entrou em colapso mental definitivo.

O espetáculo utiliza essa cena como ponto de partida para discutir a violência e a separação entre natureza e cultura. A montagem também propõe uma reflexão sobre o desejo de reparação e sobre os efeitos da dominação humana.

A construção dramatúrgica contou com a colaboração da psicanalista Renata Zambonelli, que relacionou o episódio histórico a questões contemporâneas, como o Antropoceno e a ansiedade climática.

“Transpusemos essa cena para o presente para abordar a travessia do niilismo. Atualmente, muitos jovens vivenciam uma completa impotência diante da ameaça de extinção”, explica Renata Zambonelli.

Montagem utiliza conceito de corpo cindido

No palco, Lorenzon trabalha com a técnica que chama de “corpo cindido”, construída a partir do conflito entre quem pratica a violência e quem tenta interrompê-la.

Um braço bate enquanto o outro implora que pare. Um lado executa a força, o outro se horroriza com essa ação”, explica o ator.

A proposta transforma o corpo do intérprete em espaço de disputa entre força e consciência. O movimento também acompanha a investigação da peça sobre a violência e a tentativa de interromper ciclos de dominação.

A montagem tem direção de Denise Stoklos e Alessandra Maestrini, que contribuíram para diferentes dimensões do trabalho corporal e vocal do espetáculo.

Espetáculo foi apresentado em Avignon

Antes da estreia em São Paulo, Do Cavalo Nada Sabemos integrou a programação do Festival de Avignon, um dos principais eventos internacionais dedicados às artes cênicas.

A imprensa francesa destacou a atuação física de João Paulo Lorenzon e a relação estabelecida pela montagem entre o corpo humano e o animal.

O portal Classique en Provence descreveu o trabalho como uma performance marcada pela entrega física e pela dissolução da distinção entre homem e cavalo. Já o Journal La Terrasse destacou a investigação sobre loucura, violência e a relação entre humano e animal.

Para Lorenzon, a experiência de atuar e dirigir parte de um mesmo processo criativo.

É a mesma conversa conduzida dos dois lados ao mesmo tempo: aquele que recebe e aquele que estende a mão”, define o artista.

Donna Haraway inspira a montagem

A principal referência teórica de Do Cavalo Nada Sabemos é a bióloga e filósofa norte-americana Donna Haraway, autora de reflexões sobre a convivência entre humanos e não humanos.

A influência aparece na tentativa de questionar as fronteiras estabelecidas entre espécies e repensar a forma como os seres humanos ocupam um planeta marcado por impactos ambientais.

A influência de Donna Haraway acentua a dimensão política do trabalho, convidando a habitar as zonas de fronteira entre as espécies”, afirma Renata Zambonelli.

Essa perspectiva também influenciou a cenografia. Dominic Kiessling criou uma estrutura inflável e amorfa, próxima de formas orgânicas e águas-vivas, usada para criar uma relação de fusão e separação entre o corpo do ator e o espaço.

Denise Stoklos e Alessandra Maestrini dirigem espetáculo

A encenação combina elementos do Teatro Essencial, associado ao trabalho de Denise Stoklos, com a pesquisa vocal e interpretativa de Alessandra Maestrini.

O espetáculo também conta com desenho de luz de Wagner Freire, figurino de Leandro Castro, preparação corporal de Toshiko Oiwa e provocação corporal de Lu Favoreto.

João Paulo Lorenzon assina a concepção, dramaturgia e atuação, enquanto a codramaturgia é de Renata Zambonelli. A produção é da Companhia Espaço Mágico, com realização do Sesc São Paulo.

Do Cavalo Nada Sabemos chega ao Sesc Ipiranga

A temporada de Do Cavalo Nada Sabemos começa em 18 de setembro e segue até 11 de outubro no Sesc Ipiranga. Não haverá apresentação em 4 de outubro, e está prevista uma sessão extra em 1º de outubro, quinta-feira, às 21h.

Serviço

Do Cavalo Nada Sabemos
Temporada: 18 de setembro a 11 de outubro de 2026
Sessões: sextas, às 21h; sábados e domingos, às 18h30
Sessão extra: 1º de outubro, às 21h
Local: Sesc Ipiranga – Auditório
Endereço: Rua Bom Pastor, 822 – Ipiranga – São Paulo/SP
Duração: 50 minutos
Classificação: 16 anos
Informações: sescsp.org.br/ipiranga

A temporada de Do Cavalo Nada Sabemos leva ao público brasileiro uma montagem construída a partir de Nietzsche, filosofia, questões ambientais e uma investigação sobre violência e convivência entre espécies.

Carlos Enriki

  • Publicado: 14/09/2026 12:55
  • Alterado: 14/09/2026 12:55
  • Autor: Carlos Enriki