Daniela Dib transforma o banho em marca autoral

No ABC Cast Conexões, Daniela Dib, da Habibah Home Spa, fala de varejo, e-commerce, viagens e autocuidado para mostrar como o banho virou ritual possível

Daniela Dib transforma o banho em marca autoral

Crédito: Daniela Dib, fundadora da Habibah Home Spa (Divulgação)

No fim do dia, quando a Região Metropolitana de São Paulo ainda pulsa em buzinas, trens cheios, ônibus atrasados, telas acesas e corpos cansados, muita gente chega em casa carregando mais do que a bolsa, a mochila ou o peso do expediente. Chega com a cabeça acelerada, com o trânsito ainda vibrando no corpo, com mensagens por responder e uma sensação difusa de que a rotina ocupou todos os espaços. Para boa parte dessas pessoas, o banho é menos um detalhe do dia e mais uma fronteira. É ali, por alguns minutos, que a rua fica do lado de fora.

Daniela Dib olha para esse instante com a atenção de quem aprendeu a observar hábitos, gestos e sensações antes de transformá-los em produto. Fundadora da Habibah Home Spa, comunicadora e empreendedora formada também pelo varejo, ela parte de uma ideia simples, mas pouco explorada na correria cotidiana, a de que o banho não precisa ser apenas higiene. Pode ser pausa, reorganização, respiro e presença. Em vez de vender uma ruptura com a vida real, a marca criada por Daniela tenta ocupar um intervalo que já existe na rotina de quase todo mundo.

No ABC Cast Conexões, ela associa esse momento íntimo ao impacto do aroma, da textura e da água sobre o corpo depois de um dia pesado. A proposta aparece especialmente conectada à vida urbana, onde a busca por bem-estar nem sempre cabe em agendas longas, deslocamentos ou experiências inacessíveis. O ritual, para Daniela Dib, pode começar no próprio chuveiro, dentro de casa, sem exigir que a pessoa abandone sua rotina para encontrar algum tipo de alívio. “No meio do caos é difícil, a cabeça está a milhão. Mas acho que a gente pode sair de casa já melhor armado emocionalmente para isso e, principalmente, saber que, chegando em casa, no próprio espaço, no seu cantinho, existe a oportunidade de encontrar paz e relaxamento praticamente instantâneo em um banho. O fator olfativo dos produtos, e não só dos produtos da Habibah, mas da aromaterapia e da aromacologia, pode ter uma influência ativa e eficaz no estresse como um todo”, afirma Daniela.

A Habibah nasce dessa tentativa de dar intenção a um gesto repetido todos os dias. Limpar a pele, hidratar o corpo e sentir uma fragrância deixam de ser etapas isoladas e passam a compor uma experiência sensorial ligada ao estado mental de quem se cuida. A inspiração vem dos hammams, os banhos turcos, e de referências mediterrâneas que atravessam a trajetória da empreendedora, mas a adaptação é doméstica.“Já ouvi relatos de clientes que não veem a hora de chegar em casa depois de um dia superestressante, porque sabem que têm lá seu esfoliante esperando para um banho no chuveiro e toda essa higiene mental que o produto proporciona muito em função do fator olfativo. Acho que é possível, sim, dar uma relaxada no meio do caos e focar que daqui a pouco você pode ter um relaxamento ainda mais completo no seu próprio ambiente, em casa”, diz.

O banho, nessa leitura, ganha uma dimensão de cuidado que não depende apenas do produto aplicado na pele. Ele envolve tempo, privacidade, silêncio, temperatura, cheiro e a possibilidade de interromper por alguns minutos a lógica da pressa. Daniela Dib não trata esse gesto como solução mágica para o cansaço da vida urbana, mas como uma prática acessível de reconexão em uma rotina que muitas vezes empurra o corpo para o modo automático.

A força da Habibah Home Spa está justamente em transformar essa percepção em linguagem de marca. A experiência de Daniela no comércio, seu repertório de viagens, o contato com rituais de cuidado pelo mundo e a atenção ao comportamento do consumidor se encontram na tentativa de ressignificar o banho. O produto entra como meio, mas o ponto de chegada é fazer com que um momento comum deixe de passar despercebido.

Da 25 de Março ao e-commerce pioneiro

Daniela Dib - Habibah Home Spa - ABC Cast Conexões
(Divulgação)

Antes de criar uma marca ligada ao banho, à textura e ao autocuidado, Daniela Dib aprendeu a observar gente no balcão. A formação mais decisiva veio do comércio popular da 25 de Março, no centro de São Paulo, onde a família construiu uma trajetória no segmento têxtil. Era um varejo de corpo presente, feito de estoque, grade de tamanho, cor, preço, fornecedor, cliente fiel, revendedor e rua cheia.

A loja familiar, segundo Daniela, completou 70 anos de história no comércio físico. O endereço, antes muito associado à distribuição atacadista, passou a ganhar força também como espaço de varejo direto. “Nasci e cresci no comércio, na região popular da 25 de Março, dentro de um segmento têxtil de linha íntima, com roupas, pijamas, malharia, meias e roupa íntima. Entramos como segunda geração de uma loja que completou 70 anos de história no comércio físico, atendendo atacado e varejo. Acompanhamos um pouco do que aconteceu no comércio. A 25 tem muito esse feeling por concentrar segmentos de base, de distribuição e de apoio para o desenvolvimento de outros produtos. Antes, 80%, 70% do que acontecia ali era voltado ao atacado, e o perfil de varejo na rua era muito pequeno. A gente foi assistindo à transformação disso, da 25 se tornando também uma rua de varejo”, conta.

Daniela Dib lembra que o pai, sem a mesma oportunidade de estudo dos filhos, defendia que eles aprendessem em dois lugares ao mesmo tempo, na faculdade e no trabalho. A escola formal se somava à escola do balcão. O resultado foi uma formação pouco linear, mas muito conectada à prática. Enquanto estudava Comunicação, ela também acompanhava estoque, venda, atendimento, mudança de público e adaptação de uma operação tradicional às novas tecnologias.

A virada digital não chegou como modismo. Antes do e-commerce, a loja precisou se informatizar. Controle de estoque, entrada de produtos, variação por cor e tamanho, tudo aquilo que antes era feito manualmente passou a ser organizado em sistema. “Acompanhando a transição da rua, a gente entrou na faculdade e começou a trabalhar com meu pai. Ele dizia que nós teríamos a chance de estudar na academia, mas também aprenderíamos com ele a escola que o fez, que foi o trabalho. Tivemos a oportunidade de acompanhar diversas etapas de evolução e transição de gerações. Primeiro, informatizamos a loja, então toda a parte de controle de estoque, entrada de produtos, controle por cor e tamanho, que era feita à mão, passou a ser informatizada. Depois subimos para o online em 2001. Se a gente não tivesse se estruturado do ponto de vista da informática, também não conseguiria cruzar a grade de produto para performar online”, afirma.

A história do e-commerce começa, curiosamente, longe da 25 de Março. Daniela estudava nos Estados Unidos e precisava construir histórico de crédito. Ao comprar um carro parcelado, ouviu na concessionária que teria mil dólares de desconto se finalizasse a compra pelo site. A experiência, ainda na virada dos anos 2000, acendeu uma ideia imediata. Se era possível comprar um carro pela internet, também seria possível vender meia e cueca. “Fui para casa, entrei na internet discada e comprei o carro online. Liguei para o meu irmão e falei que tinha acabado de comprar um carro pela internet e que a gente precisava vender meia e cueca online. No ano seguinte, em 2001, já estávamos vendendo ativamente para atacado e varejo”, relembra.

A operação foi pensada inicialmente para facilitar a vida do lojista, que não precisaria ir a São Paulo nem depender apenas de telefone ou fax para comprar. Perto do lançamento, a equipe técnica indicou que seria possível diferenciar acessos para atacado e varejo. A venda ao consumidor final entrou quase como adaptação de última hora, mas foi justamente o varejo que cresceu primeiro.

Essa experiência é fundamental para entender a criação da Habibah anos depois. Daniela Dib não chega ao autocuidado apenas pelo repertório sensorial das viagens ou pela relação pessoal com a pele. Ela chega também com a cabeça de quem entende canal, cliente, operação e mudança de hábito. Do balcão físico ao comércio eletrônico, da grade de produtos à experiência de compra, sua trajetória é a prova de que uma marca só se sustenta quando consegue traduzir desejo em uso real.

Na Habibah Home Spa, essa herança reaparece de outra forma. O produto é sensorial, ligado ao toque e ao cheiro, mas a operação nasce com estratégia digital. A diferença é que, desta vez, Daniela carrega também o aprendizado de que nem tudo cabe na tela. O online pode vender, organizar e escalar, mas certas experiências precisam passar pela pele, pelo olfato e pela presença. A empreendedora que ajudou a levar uma loja tradicional para o e-commerce agora tenta resolver outro desafio, fazer uma marca autoral de autocuidado ser entendida antes mesmo de chegar ao chuveiro.

O mundo como repertório sensorial

Daniela Dib - Habibah Home Spa - ABC Cast Conexões
(Divulgação)

A Habibah Home Spa carrega uma geografia íntima. Antes de existir como marca, ela foi sendo formada por paisagens, deslocamentos, cheiros, temperaturas, rituais e imagens que Daniela Dib acumulou ao longo da vida. O Mediterrâneo, o Norte da África, a Ásia, a Patagônia e o deserto do Saara entram nessa história como camadas de uma sensibilidade construída aos poucos. Daniela fala desse repertório sem separar estética de experiência. “Acho que tudo se cruzou muito, meio por acaso e, ao mesmo tempo, Maktoub, uma palavra em árabe que significa que estava escrito, como um destino traçado. Para além da minha formação em Comunicação, eu gosto de fotografia. Descobri a arte na faculdade, em História da Arte, e numa dessas disciplinas veio a fotografia. Era uma época em que você precisava fazer o processo completo, revelar o filme, passar pela sala escura. Ali descobri essa paixão. Viajar, registrar viagens, elementos e aspectos das viagens, para mim, sempre foi um prazer enorme. Isso enriqueceu o meu olhar”, conta.

Esse olhar se abre para elementos que nem sempre cabem em uma explicação racional de produto. Daniela Dib cita texturas, aromas, paladares, comidas, degustações e experimentações que foram se somando ao seu modo de perceber o mundo. Nem tudo foi agradável, como ela mesma reconhece. O valor estava também no estranhamento, no contato com o diferente, no que desafia o repertório já conhecido.

O deserto do Saara ocupa um lugar especial nesse percurso. O calor do dia, o frio da noite, o vento, o silêncio, os cheiros e a textura da areia aparecem nos materiais da marca como lembranças que atravessaram a memória e chegaram à estética da Habibah. A imagem do deserto ajuda a compor uma ideia de pausa, ancestralidade, pele, corpo e ambiente, todos elementos que depois seriam reorganizados no banho doméstico.

A fotografia costura essa passagem entre viagem e marca. Daniela conta que o manual de identidade da Habibah utiliza fotos feitas por ela, incluindo registros de viagens, do acampamento no Saara, de portas, janelas e outras paisagens. Até a paleta de cores da marca foi selecionada a partir dessas imagens. “O manual de identidade da marca é todo com fotos minhas. São fotos minhas de viagem, uma colagem de registros, tem acampamento do Saara, tem portas, janelas, está cheio de portas. Onde você me jogar no mundo, acho que vou fotografar com prazer. Sempre é um olhar muito particular meu, porque a foto traz isso, o olhar de quem está atrás da câmera. Nossos pantones de cor também foram selecionados a partir de fotos minhas para a identidade visual da marca”, afirma.

A inspiração nos hammams, os banhos turcos, aproxima esse repertório de uma prática concreta. Daniela Dib observa que o ambiente do banho turco, com vapor mais baixo que o da sauna, se parece com o que acontece dentro do box de casa. Na leitura da empreendedora, o banho pode ser entendido como um solo preparado. “Pouco a pouco, fui percebendo isso somado às minhas viagens. O hammam, ou o ambiente do banho turco, é muito similar, se não praticamente idêntico, ao que acontece dentro do nosso box. É um vapor mais baixo que a sauna. Para mim, é superagradável e totalmente tolerável ao ambiente de chuveiro. A gente está como se estivesse arando o próprio solo. A cada banho, você está abrindo os poros de dentro para fora. Aí vem um produto de fora para dentro, com os mesmos ativos que você já tem na pele, que ajudam a nutrir, proteger, criar barreiras de proteção e manter a água dentro da pele”, explica.

A trajetória de Daniela Dib foi sendo traduzida em produto sem perder sua origem emocional. A Habibah nasce quando esse repertório deixa de ser apenas arquivo pessoal e passa a organizar uma experiência de marca. Esse caminho também diferencia a proposta de Daniela de uma simples adesão ao discurso do bem-estar. A marca surge de uma coleção de referências vividas, observadas e fotografadas. O banho, concentra tudo aquilo que Daniela aprendeu a enxergar pelo mundo, corpo, tempo, textura, memória e presença.

Quando a necessidade pessoal vira produto

Daniela Dib - Habibah Home Spa - ABC Cast Conexões
(Divulgação)

A criação da Habibah Home Spa também nasce de uma relação concreta de Daniela Dib com a própria pele. O impulso para desenvolver os produtos veio de uma experiência menos romântica e bastante cotidiana, as alergias, ressecamento, incômodo físico e dificuldade de manter uma rotina de hidratação que coubesse na vida real.

Daniela conta que convive desde a infância com pele atópica, muito ressecada e sensível. “Eu sou uma pessoa de pele, mas é uma característica. Sou superalérgica, tenho muitas alergias desde a infância e uma pele que, na dermatologia, é classificada como atópica. É uma pele bastante ressecada. Eu nunca consegui me hidratar contente, a vida inteira buscava cremes e acabei, sem saber, preferindo óleos. Aos poucos, na minha vida, carente de hidratação de pele, fui percebendo que achava o óleo mais prático. No banho, o corpo já está ali, você já se hidrata no próprio banho. Sem saber ainda, eu fui entendendo que, nesse ambiente, tudo que se aplica na pele penetra de forma mais profunda”, afirma.

A formulação dos produtos parte dessa necessidade. Daniela não vinha da indústria cosmética e não apresenta a Habibah como resultado de uma estratégia fria de entrada em um novo segmento. O projeto é resultado de uma vivência pessoal que encontrou repertório, pesquisa e apoio técnico.

O caminho até a marca exigiu tempo. Foram um ano e sete meses de pesquisa e desenvolvimento, passando por fragrâncias, embalagens, testes, escolhas técnicas e ajustes de experiência. “As fórmulas são bastante inovadoras para o mercado nacional, assim como para o estrangeiro. Os produtos têm um grau de naturalidade bastante elevado, são baseados em óleo e perfumados em óleo também”, explica.

A inspiração nos rituais do banho turco ganhou uma tradução própria dentro desse processo. Daniela Dib queria substituir a agressividade da bucha por produtos naturais capazes de cumprir uma função sensorial e cosmética. “A proposta na minha cabeça era substituir a brutalidade da bucha, que acontece num ritual de banho turco, por produtos naturais que pudessem fazer essa função. O ritual de banho turco primeiro esfolia e depois hidrata. Eu prefiro lavar o corpo, me higienizar e depois me hidratar, esfoliando ou não, sem tirar isso do corpo, porque eu já estaria com a pele lavada e limpa, do ponto de vista da limpeza e da pureza”, diz.

A escolha por fórmulas mais naturais também aparece ligada à biografia da fundadora. Daniela afirma ter 14 alergias já identificadas e acredita que ainda possa reagir a outros componentes. Por isso, a demanda apresentada à engenheira química responsável pelo desenvolvimento precisava responder a uma necessidade concreta. Não bastava criar um cosmético agradável. Era preciso formular algo que fizesse sentido para uma pele sensível, para o uso no banho e para uma proposta de prazer sem desconforto. “Como continuo tendo reações alérgicas, provavelmente tenho outras coisas. Então, desde a adolescência, eu comecei usando óleos sem saber que estava me hidratando melhor por estar com os poros abertos e por permitir que as aplicações penetrassem mais profundamente na pele”, conta.

A Habibah, não se apoia apenas na estética do autocuidado. Há uma tentativa de resolver a fricção diária de que o corpo precisa de cuidado, mas a rotina nem sempre permite rituais longos. Daniela fala como alguém acelerada, que se incomodava com a sequência de lavar, secar, passar creme, esperar absorver e só então se vestir. A multifuncionalidade dos produtos aparece como resposta a esse impasse.

Esse ponto é decisivo para afastar a marca de uma promessa vaga de bem-estar. O produto nasce de uma vida concreta, com alergias, pressa, filhos, trabalho, memória familiar, viagens e uma relação íntima com a pele. A beleza emocional defendida por Daniela não ignora a função. Ela depende dela. O cuidado precisa entregar resultado, ter textura agradável, perfume possível, naturalidade elevada e uso simples. Sem isso, a narrativa não se sustenta no corpo de quem compra.

Vender sensação exige presença

Daniela Dib - Habibah Home Spa - ABC Cast Conexões
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O digital organiza, apresenta, informa e vende, mas ainda não alcança o nariz nem as mãos. Para uma marca construída sobre perfume, hidratação, esfoliação e memória sensorial, esse limite muda a estratégia. A venda precisa começar antes do carrinho de compras. “Esse é o maior desafio, porque é um produto sensorial. Como é que você comunica que o cheiro é bom? Vou ter que te mandar. Você vai ter que tomar banho para entender o que estou falando. A operação eu desenhei toda para ser online. Como você já sabe, tenho 25 anos de história online na São Jorge, então não tenho medo do canal. Acho bastante conveniente de todas as formas, mas ele não consegue chegar no nariz e nem nas mãos. O toque e a percepção olfativa precisam estar perto”, afirma.

A resposta encontrada por ela combina comércio eletrônico e presença física. A Habibah possuí uma operação digital, mas busca pontos de contato capazes de levar o produto ao corpo do consumidor. Um dos caminhos foi criar experiências de hand spa, com uma mesa desenvolvida para que as pessoas sintam fragrância, textura e aplicação nas mãos antes de decidir pela compra. Daniela Dib também adaptou um mini trailer, desses usados em camping, para circular com pias de hand spa em espaços públicos e ações de aproximação. A ideia não é transformar a rua em ponto de venda convencional, e sim usar a cidade como espaço de experimentação. A pessoa toca, sente, cheira, recebe uma amostra e, depois, pode concluir a compra pelo ambiente digital

Esse modelo revela uma ponte interessante entre a Daniela do varejo e a Daniela da marca autoral. A primeira aprendeu a ler consumidor no contato direto, no fluxo da rua, no balcão e na negociação cotidiana. A segunda tenta levar esse aprendizado para um produto premium, sensorial e mais difícil de explicar. O que muda é a categoria. O princípio permanece o mesmo, antes de convencer alguém, é preciso permitir que essa pessoa entenda o valor daquilo que está diante dela.

A escolha das fragrâncias reforça esse cuidado. Daniela Dib conta que quase desistiu do projeto por não encontrar um parceiro capaz de traduzir o briefing olfativo que tinha em mente. “Eu precisava encontrar um parceiro de fragrância que conseguisse me entender e respeitasse com muita seriedade o briefing do projeto. Eu não queria um produto de prateleira, um cheiro feito para um spa qualquer. Tinha toda uma pauta, porque isso hoje é um campo de ciência bastante estudado, neurociência olfativa, aromaterapia. Quase desisti do projeto por não conseguir encontrar um parceiro que chegasse no cheiro conforme o briefing que eu passava. Tinha que ter uma nota do universo oriental. Quando encontrei, falei: agora vai”, relembra.

A embalagem também entrou como parte desse processo. Com fórmulas muito naturais, Daniela precisava proteger o conteúdo da luz e do calor, sem abandonar a estética de farmácia antiga e de boutique ancestral que imaginava para a marca. Os frascos em âmbar, com camada interna de proteção UV, foram pensados para preservar a composição e sustentar a narrativa visual da Habibah. A aparência, portanto, carrega função, não é só beleza de prateleira, é também cuidado técnico com o produto.

Na Habibah, a presença física não substitui o digital. Ela dá ao digital o que a tela ainda não consegue entregar. A estratégia de Daniela mostra que marcas autorais precisam criar seus próprios caminhos de convencimento, especialmente quando vendem algo que depende da pele para ser compreendido. O consumidor pode até finalizar a compra online, mas o encantamento começa no contato direto, quando a fragrância chega ao nariz, a textura encontra a mão e a promessa deixa de ser discurso para virar sensação.

Autocuidado sem promessa vazia

Daniela Dib - Habibah Home Spa - ABC Cast Conexões
(Divulgação)

A palavra autocuidado circula com facilidade no vocabulário das marcas. Está em embalagens, campanhas, vitrines, influenciadores e discursos sobre bem-estar. Justamente por isso, também corre o risco de perder força quando se aproxima demais da promessa pronta. No caso da Habibah Home Spa, Daniela Dib tenta sustentar o conceito de beleza emocional por um caminho mais concreto, ligado ao uso, à função e à experiência real de quem chega em casa sem tempo para grandes rituais.

O contraponto mais direto veio da própria rotina da Região Metropolitana de São Paulo. Falar em transformar o banho em um ritual pode soar distante para quem enfrenta transporte cheio, jornada longa, filhos, casa, trabalho e pouco dinheiro sobrando no fim do mês. Daniela Dib não nega essa tensão. “Acho que vai da pessoa entender e fazer no seu tempo. Existe uma curva de aprendizagem. Eu não inventei nada novo, na verdade estou resgatando algo que o ser humano já fazia. Fechados no chuveiro, estamos no nosso momento mais particular e íntimo. A pessoa está despida, sem acesso a eletrônico e, normalmente, com privacidade total. Não tem momento mais ideal para essa conexão com o corpo e com a mente. A higiene mental também é um ato de limpeza e purificação das ideias, de clarificar um dia estressante ou se preparar para um dia corrido”, afirma.

A defesa da empreendedora passa pela simplicidade do banho. Não há necessidade de reservar horário, atravessar a cidade ou transformar o cuidado em compromisso. O ritual possível está no banheiro de casa, no contato da água com a pele, no silêncio breve sem celular e na decisão de não tratar aquele momento apenas como passagem rápida. A Habibah tenta ocupar esse intervalo com produtos que entreguem hidratação, perfume e sensorialidade, sem exigir uma rotina paralela de cuidados.

Daniela Dib também recusa uma visão única de beleza. Ao falar sobre o tema, ela associa bem-estar a escolhas pessoais e à forma como cada pessoa decide se relacionar com o próprio corpo. O nome Habibah reforça essa ideia. A raiz árabe da palavra, segundo ela, carrega um sentido de bem-querer, afeto e cuidado dirigido ao outro. Ao acrescentar o H final, a empresária transformou o nome em um palíndromo, criando uma ideia de ciclo, continuidade e retorno ao próprio corpo. “Eu prefiro entender a beleza como um recurso natural do que veio para mim e procurar o mínimo de interferência possível. Entendo e respeito que outras pessoas prefiram outros caminhos, mas acho que é muito uma coisa do olhar para si, do que cada um entende como bem-estar e bem-querer. A raiz da palavra Habib é uma saudação em árabe, um bem querer, um desejar bem ao próximo. Coloquei o H no final, transformando Habibah em um palíndromo, que você lê de frente para trás e de trás para frente, criando um ciclo como o cuidado consigo mesmo. Seu corpo está na sua mão. Quem vai carregá-lo é você pelo resto da vida”, diz.

Quando questionada se produtos que reúnem funções poderiam comprometer a eficácia de cada etapa do cuidado corporal, Daniela Dib respondeu que a proposta nasceu justamente da falta de tempo. “Não compromete. Eu sou agitadinha, como vocês perceberam. Nos últimos dois anos passei trabalhando em dois jobs, com três filhos, duas gerações, mãe idosa e um irmão cadeirante, faço parte de todas as agendas. Só ajuda, é muito prático. Eu não tenho tempo de lavar tudo, secar tudo, passar creme, esperar secar e me vestir. Não dava quando eu era jovem, imagina com três filhos, dois jobs e mãe idosa. Você sai do banho minimamente perfumado, hidratado e, quando esfoliado, com a pele renovada. É hiper multifuncional”, afirma.

O preço dos produtos abre outra camada da conversa. Daniela reconhece que fazer o consumidor perceber a diferença entre preço e valor é difícil, sobretudo para uma marca autoral ainda jovem. A resposta dela não tenta competir com opções mais baratas. “É muito difícil fazer o consumidor entender essa diferença, mas eu não tenho medo disso porque os produtos foram construídos pensando numa engenharia de valor, não de custo. Hidratantes, cremes ou óleos acessíveis que façam uma função similar existem em abundância por aí, mas com esse padrão de qualidade é outra coisa. A cama de óleo que recebe todos os produtos é de palmiste, um óleo de palmeira brasileiro, seis vezes mais potente e rico em nutrição do que o óleo de uva. Eu poderia ter barateado os produtos usando óleo de uva ou diluindo a fórmula com água para ganhar mais, mas não foi esse o caminho que busquei”, explica.

O desafio da Habibah, portanto, não está apenas em vender cosméticos. Está em educar o consumidor para perceber o banho como experiência, o aroma como memória, a textura como linguagem e a formulação como parte do valor. Para Daniela Dib, a marca ainda precisa ensinar uma forma diferente de tomar banho, que ela define como antiga, não nova.

A comunicadora que veio do varejo, atravessou a digitalização, construiu repertório em viagens e transformou uma necessidade pessoal em produto chega ao autocuidado sem abandonar a lógica do mercado. A Habibah Home Spa nasce autoral, sensorial e emocional, mas também precisa convencer, explicar valor, criar presença e disputar atenção. Entre o banho rápido e o ritual possível, Daniela Dib encontrou o espaço onde sua marca precisa existir.

Equipe e convidados do ABC Cast Conexões

Daniela Dib - Habibah Home Spa - ABC Cast Conexões
Daniela Dib, Thiago Quirino e Thiago Rodrigues (Reprodução/ABCdoABC)

A entrevista com Daniela Dib, fundadora da Habibah Home Spa, foi conduzida por Thiago Quirino e contou com a participação do jornalista e assessor de imprensa Thiago Rodrigues. A produção e checagem de dados ficaram a cargo de Edvaldo Barone, editor-chefe do ABCdoABC. A direção geral é de Alex Faria, fundador do portal, e a edição do episódio leva a assinatura de Rodrigo Rodrigues.

Confira a entrevista completa com Daniela Dib:

Além do canal no YouTube, o episódio com Daniela Dib pode ser acessado pelo Amazon MusicSpotifyDeezer e também no Apple Podcasts.

Edvaldo Barone

  • Publicado: 05/09/2026 09:07
  • Alterado: 05/09/2026 09:08
  • Autor: Edvaldo Barone