Braskem pede recuperação extrajudicial de US$ 10,9 bi

Pedido foca em reestruturar dívida, dias após empresa reportar alavancagem de 6,74x e CEO alertar para cenário global volátil e incerto.

Braskem pede recuperação extrajudicial de US$ 10,9 bi

Crédito: Divulgação

Pressionada por um nível crítico de endividamento, a petroquímica Braskem anunciou nesta segunda-feira (24) que seu Conselho de Administração aprovou e formalizou o ajuizamento de um pedido de Recuperação Extrajudicial (RE). A medida tem como objetivo assegurar um ambiente jurídico protegido para reestruturar aproximadamente US$ 10,9 bilhões em dívidas comuns, que não possuem garantias específicas de bens da empresa. 

A companhia ressaltou, em comunicado de fato relevante, que o escopo da ação é estritamente financeiro, não afetando compromissos operacionais com fornecedores, clientes e demais stakeholders.

Resultados do 2T26 da Braskem indicavam cenário desafiador

A drástica decisão de recorrer à Justiça ocorre apenas dez dias após a divulgação dos resultados operacionais e financeiros do segundo trimestre de 2026. Em 14 de agosto, a Braskem reportou uma alavancagem corporativa de 6,74 vezes (relação entre dívida líquida e EBITDA), patamar considerado insustentável pelo mercado, e uma dívida bruta de US$ 10,4 bilhões. 

Apesar de a empresa ter registrado lucro líquido de US$ 664 milhões e EBITDA de US$ 1 bilhão no período, os resultados foram impulsionados por fatores conjunturais, como a restrição de matérias-primas devido ao conflito no Oriente Médio, o que não impediu um consumo líquido de caixa de US$ 15 milhões no trimestre.

CEO da Braskem projeta futuro incerto para a indústria

Braskem
(Divulgação/Braskem)

O ambiente de negócios desafiador e a necessidade de preservar liquidez já haviam sido sinalizados pelo CEO da Braskem, Hélcio Tokeshi, durante a coletiva de imprensa sobre o balanço. 

Questionado sobre as perspectivas para o futuro, o executivo evitou o otimismo e adotou um tom de extrema cautela diante da imprevisibilidade global. “O mundo está muito, muito complicado. Temos volatilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade. Esse é o novo normal“, afirmou.

Tokeshi destacou que a companhia enfrenta não apenas tensões geopolíticas, mas também obstáculos estruturais severos que limitam a recuperação orgânica das margens:

Temos um desafio que já está dado, que vem se prolongando e é estrutural, que é a capacidade da China de fazer investimentos e aumentar sua capacidade de produção em petroquímicos. Isso é algo que eles vêm fazendo de maneira consistente há 35 anos, e continuarão fazendo por mais algum tempo“, alertou o CEO.

Diante do esmagamento estrutural das margens, provocado pela superoferta asiática e por pesados passivos em curso, incluindo o saldo de R$ 3,2 bilhões provisionados até o fim do semestre para o caso geológico de Maceió (AL) durante a extração de sal-gema, a blindagem da Recuperação Extrajudicial tornou-se o caminho inevitável para garantir a continuidade das operações no curso normal dos negócios.

Pedido formalizado com apoio da Petrobras e acionistas

Poucas horas após anunciar a decisão do Conselho, a Braskem confirmou o protocolo do pedido na 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo. A ação já deu entrada com a adesão prévia de credores que representam 39,6% da dívida, quórum suficiente para o ajuizamento. A medida tem efeito imediato e suspende a exigibilidade de cobrança desses passivos financeiros.

A petroquímica tem agora um prazo de 90 dias para obter o percentual mínimo necessário à homologação judicial, o que vinculará 100% dos credores quirografários. O plano de reestruturação conta com o apoio expresso dos acionistas controladores da companhia, Petrobras e o fundo Shine I FIP.

Entre as condições negociadas estão um período de carência com alongamento de prazos e capitalização de juros, o compromisso dos acionistas de aportar novos recursos caso metas não sejam atingidas e a possível conversão de parte da dívida em participação acionária.

O peso da Braskem na economia global

Para dimensionar o impacto do processo de reestruturação, vale lembrar o peso da petroquímica. A Braskem é considerada a maior produtora de resinas termoplásticas das Américas e uma peça central da estrutura industrial brasileira. Com operações no Brasil, Estados Unidos, México e Alemanha, a companhia atende a setores essenciais, fornecendo matéria-prima para a construção civil, agronegócio, saúde, embalagens e mobilidade, e exportando seus produtos para mais de 70 países. A descontinuidade de suas operações pode acarretar no desabastecimento de diversas cadeias produtivas globais.

  • Publicado: 24/08/2026 15:56
  • Alterado: 24/08/2026 17:50
  • Autor: Thiago Quirino
  • Fonte: ABCdoABC