Autoestima feminina passa por autonomia econômica, acesso à informação e condições concretas para que mulheres possam decidir os rumos do próprio futuro
Uma mulher pode saber exatamente o que quer e, ainda assim, não ter condições de escolher. Dependência financeira, falta de informação e violência reduzem o espaço de decisão e tornam a liberdade menos concreta.
É nesse contexto que o Dia Florescer da Autoestima da Mulher, celebrado em 21 de setembro, ganha outro significado. Criada pelo Conselho da Mulher Empreendedora e da Cultura (CMEC), a iniciativa propõe olhar para a autoestimapara além da aparência: como parte da autonomia e da capacidade de conduzir a própria vida.
Violência também restringe a liberdade de escolha
O debate é urgente. Pesquisa realizada pelo Instituto Patrícia Galvão e pelo Instituto Locomotiva mostra que 54% das brasileiras que já tiveram relacionamentos com homens afirmam ter sofrido algum tipo de violência. Nem sempre ela começa com uma agressão física. Controle, humilhação, isolamento e dependência também podem restringir escolhas.
Há ainda um paradoxo que merece atenção. O Censo 2022 do IBGE mostra que as mulheres são 51,5% da população brasileira, enquanto o Tribunal Superior Eleitoral aponta que elas representam 52,84% do eleitorado nas eleições de 2026. Somos maioria na população e nas urnas, mas ainda temos pouca presença nos espaços de decisão. É um espelho distorcido do país real.
Autonomia econômica amplia possibilidades de escolha
(Imagem/Magnific)
A autonomia econômica também precisa fazer parte dessa conversa. Renda, trabalho, educação, acesso a crédito e informação não eliminam situações de violência, mas podem ampliar as possibilidades de escolha e fortalecer a capacidade de recomeçar.
Isso não significa atribuir à mulher a responsabilidade por romper uma relação abusiva. A violência exige políticas públicas, proteção e responsabilização dos agressores. Significa, sim, reconhecer que a liberdade depende de condições concretas para existir.
É aí que a autoestima deixa de ser um assunto privado. Reconhecer o próprio valor pode significar identificar um limite, recusar uma situação de controle, pedir ajuda ou acreditar que é possível recomeçar.
Autoestima também depende de condições para escolher
Por isso, não basta dizer às mulheres que tenham autoestima e sejam fortes. É preciso ampliar as condições para que possam exercer essa força. O 21 de setembro não deve ser apenas uma data comemorativa. Deve ser uma oportunidade para discutir que sociedade queremos construir e quais condições estamos oferecendo para que as mulheres possam escolher seu próprio caminho.
Porque autonomia não é apenas poder sonhar com uma vida diferente. É ter condições reais de escolhê-la.
Ana Cláudia Badra Cotait
(Foto: Edu Guimarães/ACSP)
Ana Cláudia é presidente do Conselho Nacional da Mulher Empreendedora e da Cultura (CMEC) e líder do Instituto Liberdade Para Empreender (ILPE), coordena uma rede de mais de 950 conselhos no Brasil, onde atua diretamente na elaboração de ações para o fomento da mentalidade empreendedora de mulheres. É especialista em Governança Corporativa pelo Insper, diretora da Câmara de Comércio Brasil-Líbano e membro do Fórum da Mulher Empresária da CNI.