Quem você está autorizando com o seu voto?

Votar exige conhecer trajetórias, propostas e interesses de quem pede confiança e acompanhar como o mandato será exercido após a escolha feita nas urnas

Quem você está autorizando com o seu voto?

Crédito: (Imagem/Freepik)

Na semana passada, falamos sobre responsabilidade. Hoje, precisamos dar um passo adiante e pensar no que ela significa quando estamos diante da urna. Votar é entregar uma procuração temporária. É autorizar outra pessoa a tomar decisões que afetarão a nossa vida e a de milhões de brasileiros, inclusive daqueles que não votaram nela. Se dificilmente entregaríamos uma procuração sem conhecer quem está do outro lado, por que deveríamos agir de maneira diferente na hora de escolher nossos representantes?

É por isso que escolher um candidato deveria exigir mais do que simpatia, identificação ou uma boa campanha. Deveria exigir curiosidade suficiente para conhecer quem pede nossa confiança: qual é sua trajetória, o que fez antes de pedir nosso voto, quais posições já defendeu, quais propostas apresenta, com quem construiu alianças e que interesses representa. Mais importante ainda é procurar razões concretas para acreditar que aquilo que está sendo prometido possui alguma possibilidade de se transformar em ação.

São perguntas relativamente simples, mas que parecem perder espaço à medida que a eleição se aproxima. Slogans, vídeos de poucos segundos e certezas construídas para caber na tela do celular disputam nossa atenção enquanto informações muito mais relevantes permanecem disponíveis para quem estiver disposto a procurá-las. Não há problema em ter preferência política. Isso faz parte da democracia. O problema começa quando a preferência substitui a informação.

Conhecer antes de votar

Políticos - Corrupção
(Imagem/Freepik)

Imagine uma empresa escolhendo seu próximo diretor sem verificar currículo, experiência, trajetória profissional ou resultados anteriores. A decisão pareceria, no mínimo, irresponsável. Quando escolhemos representantes públicos, porém, nem sempre aplicamos o mesmo cuidado, embora estejamos autorizando pessoas a participar de decisões sobre recursos públicos, políticas de Estado e questões capazes de alcançar milhões de vidas.

O cidadão não precisa se transformar em especialista em política para votar. Precisa, no entanto, dedicar algum tempo a conhecer aquilo que está autorizando. Hoje existem ferramentas públicas que permitem consultar informações sobre candidaturas, propostas, patrimônio declarado, situação do registro e dados das campanhas. O acesso à informação não elimina divergências políticas, nem deveria fazê-lo. Ele apenas oferece condições melhores para que cada pessoa forme sua própria decisão.

Esse cuidado também ajuda a romper uma lógica na qual a política é consumida apenas como identificação. Gostar de um candidato não torna desnecessário conhecer sua trajetória, assim como discordar de outro não dispensa o esforço de compreender suas propostas. Democracia pressupõe divergência, mas ganha qualidade quando nossas escolhas conseguem sobreviver ao contato com os fatos.

A responsabilidade continua depois da urna

Talvez o maior equívoco seja imaginar que essa responsabilidade termina quando confirmamos o voto. Se uma empresa afirma defender responsabilidade social, devemos observar suas práticas e não apenas sua publicidade. Se um governo promete resultados, precisamos acompanhar o que efetivamente entrega. Da mesma forma, quando um candidato pede confiança, devemos observar o que fará com ela caso receba o mandato.

Cobrar, fiscalizar e participar fazem parte do exercício da cidadania. Democracia não acontece somente quando somos chamados às urnas. Ela também aparece quando perguntamos como o dinheiro público está sendo utilizado, acompanhamos uma promessa feita durante a campanha, procuramos compreender uma decisão tomada por nossos representantes ou verificamos uma informação antes de compartilhá-la.

Esse último ponto tornou-se especialmente importante em uma eleição atravessada pela velocidade das redes sociais. Uma informação não se torna verdadeira porque confirma aquilo em que já acreditamos, assim como uma mentira não deixa de ser mentira porque prejudica alguém de quem discordamos. A responsabilidade que exigimos de quem disputa nosso voto também precisa existir na maneira como participamos do debate público.

O eleitor, portanto, não pode ocupar apenas o papel de consumidor de política. Precisa exercer o de cidadão. Toda escolha produz consequências e, quando entregamos uma procuração sem conhecer minimamente quem a recebe, não estamos apenas abrindo mão de informação. Estamos transferindo uma parcela da nossa responsabilidade sem sequer acompanhar o que será feito com ela.

Do voto à construção do país

Bandeira do Brasil
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Conhecer antes de votar e fiscalizar depois da eleição são partes de uma mesma responsabilidade. A primeira procura reduzir a distância entre aquilo que uma candidatura promete e aquilo que sabemos sobre sua trajetória. A segunda impede que a confiança depositada nas urnas seja tratada como um cheque em branco durante os anos seguintes.

Talvez seja justamente essa a diferença entre apenas participar de uma eleição e participar de uma democracia. O voto entrega poder por um período determinado, mas não retira do cidadão o direito nem a responsabilidade de acompanhar como esse poder será exercido.

Na próxima sexta-feira, chegaremos à última provocação desta trilogia. Depois de refletirmos sobre responsabilidade e sobre quem autorizamos a tomar decisões em nosso nome, resta uma pergunta ainda mais pessoal: depois de escolher quem governará, o que cada um de nós fará para ajudar a construir o país que espera?

Dom Veiga

Dom Veiga - Adote um Cidadão - Responsabilidade Social
(Divulgação)

Dom Veiga é empreendedor social, peregrino e fundador do projeto Adote um Cidadão, organização da sociedade civil que há 27 anos promove a inclusão de pessoas com deficiência e o acolhimento de cidadãos em situação de vulnerabilidade social. À frente da iniciativa, desenvolve ações socioeducativas, esportivas e culturais que impactam comunidades em diferentes regiões do Brasil, unindo propósito, solidariedade e transformação social.

  • Publicado: 25/09/2026 17:30
  • Alterado: 25/09/2026 17:30
  • Autor: Dom Veiga