Você permanece? Uma conversa sobre perseverança

Perseverança na liderança exige sustentar objetivos, rever caminhos e distinguir o cansaço do momento de encerrar aquilo que já não faz mais sentido hoje

Você permanece? Uma conversa sobre perseverança

Crédito: (Imagem/Magnific)

Quero começar esta coluna sobre perseverança com uma confissão. Já escrevi, falei e aplaudi a palavra resiliência mais vezes do que consigo contar. Ela funciona bem em palestras, rende curtidas e combina com qualquer apresentação sobre cultura organizacional. O que demorei a perceber é que a virtude que celebramos nos palcos pouco se parece com a virtude que precisamos exercer no dia a dia.

Pense na cena comigo. Segunda-feira, oito da manhã, sala fechada. O resultado que você esperava não veio. O cliente disse não. Sua equipe está ali, olhando para você, aguardando o próximo passo. Nesse momento, ninguém quer saber se você é resiliente. A pergunta que paira no ar é outra, bem mais simples e bem mais dura: você permanece?

Por que confundimos perseverança com teimosia

Problemas - Empresas - Perseverança - Liderança
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Se você é executivo há alguns anos, provavelmente já ouviu alguém dizer, com certo incômodo, que determinado líder “não larga o osso”. E talvez você mesmo já tenha se perguntado, em algum momento, se a sua persistência era virtude ou apenas resistência a admitir que o plano falhou.

Essa dúvida é legítima, e quero convidar você a levá-la a sério. Vistas de longe, perseverança e teimosia se parecem muito, porque nas duas o líder continua. A diferença está no que ele protege enquanto continua. A teimosia protege a decisão original, o orgulho de quem a tomou e a narrativa que já foi apresentada ao conselho. A perseverança protege o objetivo, e por isso aceita rever a rota quantas vezes for necessário.

Pesquisas sobre o conceito de grit, popularizado pela psicóloga Angela Duckworth, seguem uma linha parecida ao tratar perseverança como esforço sustentado somado à consistência de propósito, e não como repetição da mesma tática. Se essa ideia faz sentido para você, vale se perguntar: nos projetos que você sustenta hoje, o que exatamente está protegendo, o plano ou o resultado que ele deveria entregar?

A pausa que parece desistência

Existe uma armadilha que vejo com frequência e que talvez você reconheça. É a de confundir pausa com desistência. Muitos líderes, por medo de parecerem frágeis, mantêm um ritmo insustentável e chamam isso de perseverança. Outros interrompem um esforço legítimo e se convencem de que estão apenas sendo realistas.

Perseverar não significa correr sem parar. Às vezes significa parar, respirar, reorganizar o mapa e voltar com outra abordagem, mantendo intacto aquilo que importa. Dizer à equipe “essa estratégia não funcionou, vamos tentar de outro jeito, mas o objetivo continua de pé” é um gesto de perseverança sofisticado. Exige mais coragem do que insistir no caminho antigo, e transmite ao time algo precioso: errar faz parte do processo e o rumo não muda ao primeiro obstáculo.

O líder que cansa e continua

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Há uma imagem idealizada do líder perseverante que precisa ser desfeita. Ela mostra alguém que nunca vacila, nunca se cansa, nunca duvida. Convido você a olhar para a sua própria experiência. Quando conduziu uma transformação difícil, quando sustentou uma meta que parecia grande demais, quando adiou por semanas aquela conversa desconfortável, você estava cansado e cheio de dúvidas. E continuou.

O líder perseverante cansa, duvida e mesmo assim mantém a direção até ter clareza suficiente para ajustá-la. Ele sabe que o resultado raramente aparece na primeira tentativa. Nasce do ajuste, do dia seguinte, da conversa que alguém teve a coragem de refazer, do feedback dado sem todas as palavras perfeitas. A qualidade de uma liderança costuma se decidir na terceira ou na quarta tentativa, quando o entusiasmo inicial já passou e ninguém está prestando atenção.

O que o seu time realmente observa

Gosto de lembrar que equipes não avaliam seus líderes pelo que eles dizem sobre resiliência. Avaliam pelo que eles fazem quando o resultado não vem. É nesse intervalo, entre a expectativa e a entrega, que a confiança é construída ou corroída.

Uma equipe que vê o líder sustentar a direção sob pressão, ajustar o plano sem drama e assumir publicamente o que precisa mudar, aprende que a dúvida pode ser dita em voz alta e que o objetivo não será abandonado ao primeiro sinal de dificuldade. Esse aprendizado se multiplica e vira comportamento coletivo. É ele que sustenta empresas em ciclos longos, muito mais do que uma nova planilha, um novo curso ou uma nova ferramenta.

Uma pergunta para levar com você

Termino esta coluna com um convite. Reserve alguns minutos ainda hoje e pense com honestidade: qual é a entrega, a conversa ou a meta que você está quase abandonando porque ficou difícil? Repare que raramente desistimos do que não vale a pena. Costumamos desistir do que vale tanto que sustentar começa a doer.

Nem tudo merece ser mantido, e parte da maturidade de um líder está em distinguir o que deve ser encerrado do que deve ser reajustado. Mas essa decisão só é confiável quando nasce da análise, e não do cansaço. Se o projeto ainda faz sentido e o que mudou foi apenas o nível de desconforto, talvez a sua liderança não precise, neste momento, de uma nova estratégia. Talvez precise apenas da sua disposição de continuar.

Times que confiam, empresas que crescem e líderes que deixam legado costumam ter algo em comum: a perseverança diante das dificuldades. Seus líderes não são lembrados por nunca terem caído, mas por terem sustentado a direção quando ninguém aplaudia, um passo de cada vez, mesmo cansados, mesmo sem reconhecimento imediato.

Então fica a pergunta, e deixo com você: o que você vai escolher sustentar esta semana?

Leandro Roberto de Oliveira

Leandro Roberto de Oliveira
(Divulgação)

Leandro Roberto é especialista em gestão estratégica de projetos, portfólio e riscos, com mais de 25 anos de experiência em consultoria, auditoria e transformação organizacional, incluindo atuação em empresas como Allianz, KPMG e Ernst & Young. Reconhecido por sua expertise em PMO, governança corporativa e metodologias ágeis, destaca-se na conexão entre estratégia e execução, priorização de portfólio e gestão de riscos baseada em padrões internacionais. É graduado em Administração de Empresas e possui MBA em Gestão de Negócios pelo IBMEC/SP.

  • Publicado: 08/10/2026 12:07
  • Alterado: 08/10/2026 12:08
  • Autor: Leandro Roberto de Oliveira

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