A violência contra a mulher é uma ferida de todos
A realidade enfrentada por milhões de mulheres exige reconhecer agressões silenciosas, combater a omissão e fortalecer redes de proteção
- Publicado: 24/08/2026 19:35
- Alterado: 24/08/2026 19:35
- Autor: Dr. Fabricio Ferreira de Araújo Tavares
Existe uma frase frequentemente compartilhada no debate público que diz: “50% da população é mulher; os outros 50% são filhos delas”. A matemática simples dessa constatação esconde um paradoxo profundo e cruel. Se todos somos gerados, nutridos e, em grande parte, criados por mulheres, como podemos aceitar que a violência contra a mulher ainda faça com que a realidade de tantas delas seja marcada pelo medo e pela insegurança?
Engana-se quem trata a violência contra a mulher como um problema restrito ao ambiente doméstico ou como uma pauta que diz respeito apenas a elas. Trata-se de uma falha moral crônica que atravessa toda a sociedade. Quando uma mulher é agredida, cerceada ou desrespeitada, as consequências não terminam nela. Atingem famílias, filhos, relações de trabalho, comunidades e a própria estrutura de uma sociedade que ainda convive com a violência como parte do cotidiano de milhões de mulheres.
A violência contra a mulher nem sempre deixa marcas visíveis

Para enfrentar esse cenário, precisamos ampliar o entendimento coletivo sobre aquilo que, de fato, constitui uma agressão. A violência não se manifesta exclusivamente nos hematomas físicos, que chocam justamente porque podem ser vistos. Muitas vezes, ela começa de maneira silenciosa e insidiosa, escondida em comportamentos cotidianos que foram normalizados ao longo do tempo.
Está nas palavras usadas repetidamente para diminuir, humilhar e destruir a autoestima de uma mulher, caracterizando a violência psicológica. Também aparece no controle abusivo do dinheiro, dos documentos e dos bens materiais, configurando a violência patrimonial. Pode surgir ainda nas proibições sobre amizades, roupas, lugares que ela pode frequentar e até sobre seu direito de ir e vir. Quando esses comportamentos são tratados apenas como ciúme, preocupação ou problemas particulares de um casal, a violência encontra espaço para crescer sem ser reconhecida.
Essa compreensão é fundamental porque esperar pela agressão física para reconhecer que existe violência significa ignorar tudo aquilo que pode ter acontecido antes dela. O enfrentamento começa também pela capacidade de identificar os sinais e recusar a normalização de relações construídas sobre controle, medo e submissão.
Romper o silêncio é uma responsabilidade coletiva
O silêncio historicamente imposto às mulheres sempre funcionou como um dos maiores escudos do agressor e um dos piores inimigos da vítima. Romper esse ciclo exige uma coragem imensurável de quem sofre a agressão, mas também exige uma sociedade capaz de oferecer uma rede de apoio presente, responsável e livre de julgamentos.
Não basta perguntar por que uma mulher permaneceu em determinada relação ou por que demorou a denunciar. É preciso compreender o medo, a dependência financeira, os vínculos familiares, as ameaças e os mecanismos de controle que podem dificultar sua saída. Uma rede de proteção começa justamente quando a cobrança dirigida à vítima dá lugar ao acolhimento e à disposição de ajudá-la a encontrar caminhos seguros.
O combate ao machismo enraizado, portanto, não é uma tarefa exclusiva das mulheres. Os homens têm uma responsabilidade fundamental nesse processo, seja recusando comportamentos violentos, questionando atitudes naturalizadas em seus próprios círculos ou deixando de silenciar diante da violência praticada por outros homens. Não ser o agressor é apenas o ponto de partida. Uma mudança efetiva exige também não ser cúmplice.
Quando a omissão também produz consequências

A violência contra a mulher não pode continuar sendo tratada como um problema que termina na porta de uma casa. Quando vizinhos ignoram sinais, familiares desacreditam relatos, amigos relativizam comportamentos abusivos ou a sociedade transforma agressões em assuntos privados, cria-se um ambiente em que o agressor encontra espaço para continuar agindo.
A omissão pode custar vidas, enquanto uma atitude de apoio pode contribuir para interromper um ciclo de violência. Para quem vivencia essa realidade ou reconhece sinais em alguém próximo, existe a Central de Atendimento à Mulher, pelo Ligue 180, serviço gratuito destinado à orientação e ao encaminhamento de denúncias e situações de violência.
Enfrentar essa realidade exige leis, políticas públicas e estruturas de proteção, mas exige também uma mudança que começa nas relações cotidianas. O respeito às mulheres não pode existir apenas nos discursos, nas campanhas ou nas datas de conscientização. Precisa aparecer na maneira como educamos, convivemos, reagimos diante de uma agressão e nos posicionamos quando a violência tenta se esconder atrás do silêncio.
Se a violência contra uma mulher produz consequências que alcançam famílias e comunidades inteiras, combatê-la também precisa ser entendido como uma responsabilidade coletiva. Afinal, uma sociedade que deseja proteger todos os seus integrantes não pode aceitar que metade deles ainda precise aprender a conviver com o medo.
Dr. Fabricio Ferreira de Araújo Tavares

Fabrício Ferreira de Araújo Tavares, advogado à frente do Tavares Advocacia e Assessoria Jurídica, tem atuação consolidada na área do Direito Público, com foco em Direito Administrativo, Direito Constitucional e gestão governamental. Sua trajetória é marcada pela combinação entre prática jurídica e sólida formação acadêmica voltada às relações entre Estado, políticas públicas e administração pública. Bacharel em Direito pela Universidade de Mogi das Cruzes (UMC), Tavares possui mestrados e pós-graduações em Direito Administrativo, Direito Constitucional, Diversidade e Inclusão Social, além de MBA em Política e Gestão Governamental e Análise de Políticas Públicas, com passagens por instituições como a Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo e a Escola Paulista de Direito.