Veículos elétricos ampliam risco de atropelamentos
Com a expansão dos Veículos elétricos, o baixo ruído em baixas velocidades amplia o debate sobre atropelamentos, alertas sonoros e segurança nas cidades
- Publicado: 14/08/2026 14:18
- Alterado: 14/08/2026 14:18
- Autor: Luiz Vicente Figueira de Mello Filho
Os veículos elétricos estão conquistando rapidamente espaço nas ruas brasileiras. Menor emissão de poluentes pelos locais que circulam, maior eficiência energética e redução do ruído são algumas das principais vantagens associadas à eletrificação da frota. Entretanto, justamente uma dessas qualidades, o baixo nível de ruído, começa a chamar a atenção de pesquisadores e autoridades de segurança viária em diferentes países.
O problema aparece principalmente nas cidades. Em baixas velocidades, o motor elétrico produz muito menos ruído do que um motor convencional de combustão interna. Para o pedestre, isso significa a redução de uma informação importante utilizada, muitas vezes de maneira quase inconsciente, para identificar a aproximação de um veículo.
Estudos comprovam maior risco de atropelamentos

Um dos estudos mais relevantes sobre o assunto foi publicado em 2024 no Journal of Epidemiology & Community Health, por pesquisadores da London School of Hygiene & Tropical Medicine. Os pesquisadores analisaram acidentes envolvendo pedestres na Grã-Bretanha e compararam veículos elétricos e híbridos com automóveis equipados com motores de combustão interna.
O resultado merece atenção. Entre 2013 e 2017, foram registradas 5,16 vítimas de atropelamentos para cada 160 milhões de quilômetros percorridos por veículos elétricos e híbridos, contra 2,40 nos veículos convencionais. Considerando a distância percorrida, a probabilidade de envolvimento em uma colisão com pedestre foi 2,15 vezes maior nos elétricos e híbridos.
Nas áreas urbanas, a diferença foi ainda mais significativa. O estudo encontrou um risco aproximadamente três vezes maior para os veículos elétricos e híbridos em comparação aos automóveis com motores de convencionais. Nas áreas rurais, entretanto, essa diferença não foi observada.
Isso ajuda a entender a importância do ruído no trânsito. Em velocidades maiores, o som produzido pelo contato dos pneus com o pavimento e pelo deslocamento do ar reduz a diferença acústica entre um elétrico e um veículo convencional. É justamente nas baixas velocidades, como nos estacionamentos, cruzamentos, conversões, áreas comerciais e ruas locais, que o silêncio do sistema de propulsão elétrica se torna mais relevante.
A preocupação não é recente. A agência norte-americana de segurança viária, a NHTSA, já havia identificado maior envolvimento de veículos híbridos e elétricos em determinadas colisões com pedestres e ciclistas. Os estudos contribuíram para que os Estados Unidos estabelecessem requisitos mínimos de emissão sonora para esses veículos.
Hoje, a regulamentação norte-americana FMVSS 141 determina requisitos de alerta sonoro para veículos híbridos e elétricos em baixas velocidades. O objetivo não é transformar o carro elétrico em um veículo barulhento, mas produzir uma assinatura sonora suficiente para que os pedestres, principalmente pessoas com deficiência visual, consigam perceber sua aproximação.
Brasil começa a se tornar um país com relevância em veículos eletrificados
A questão ganha importância no Brasil porque a eletrificação está ocorrendo em velocidade impressionante. Segundo dados divulgados pela Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE), 215.023 veículos leves eletrificados foram comercializados apenas no primeiro semestre de 2026, considerando elétricos a bateria, híbridos plug-in e híbridos com tração elétrica.
No primeiro semestre de 2025 haviam sido 95.493 unidades. Portanto, em apenas doze meses, o mercado brasileiro registrou crescimento de aproximadamente 125%. Enquanto o mercado automotivo como um todo cresceu cerca de 20% no mesmo período, os eletrificados avançaram em ritmo aproximadamente seis vezes maior. Atualmente, 16 de cada 100 veículos leves vendidos no país já são eletrificados.
A transformação fica ainda mais evidente quando observamos os diferentes tipos de motorização. Entre as principais motorizações, os eletrificados passaram a ficar atrás somente dos veículos flex.
A transformação da frota de veículos merece cuidado

Portanto, estamos diante de uma transformação da frota que ocorrerá também nas ruas do Grande ABC. A tendência é encontrarmos cada vez mais automóveis elétricos e híbridos circulando em Santo André, São Bernardo do Campo, São Caetano do Sul, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra.
E há uma característica importante das cidades do ABC: pedestres e veículos convivem intensamente em áreas comerciais, centros urbanos, terminais de transporte, estações ferroviárias, escolas, hospitais e bairros densamente ocupados. São justamente ambientes onde os veículos circulam em velocidades menores e onde a percepção sonora pode contribuir para a identificação de um automóvel se aproximando.
Não significa, evidentemente, que devemos considerar o veículo elétrico inseguro. A eletrificação apresenta benefícios ambientais e energéticos importantes e representa uma das principais transformações tecnológicas da indústria automobilística mundial.
O ponto é outro: uma nova tecnologia também modifica a maneira como as pessoas interagem com o trânsito.
Durante mais de um século, aprendemos a reconhecer intuitivamente a aproximação de um automóvel pelo ruído do motor. Agora, gradativamente, esse componente da percepção está diminuindo. Para idosos, crianças e, principalmente, pessoas com deficiência visual, essa mudança pode ser ainda mais significativa.
Eletrificação e segurança viária precisam estar em pauta
Por isso, a eletrificação da frota precisa vir acompanhada de uma discussão sobre segurança viária. Sistemas externos de alerta sonoro, conhecidos internacionalmente como AVAS (Acoustic Vehicle Alerting System), devem fazer parte desse debate, assim como sua padronização e fiscalização. O alerta deve ser perceptível sem representar um retorno à poluição sonora que justamente queremos reduzir nas cidades.
Há ainda uma responsabilidade importante do planejamento urbano. Travessias mais curtas, calçadas acessíveis, redução das velocidades em áreas de grande circulação de pessoas, melhor iluminação, faixas de pedestres bem posicionadas e desenho viário, que obrigue fisicamente o motorista a reduzir a velocidade, continuam sendo medidas fundamentais, independentemente do tipo de motorização.
A transição para a mobilidade elétrica é necessária e já ocorre em velocidade frenética. Mas trocar o motor de combustão interna pelo elétrico-híbrido, não resolvem, sozinhos, os problemas de mobilidade e segurança das cidades. Em alguns aspectos, inclusive, criam novos desafios.
Os veículos a partir de agora serão mais limpos e silenciosos no quesito ambiental. Precisamos garantir que eles também sejam mais seguros nas áreas urbanas. E, diante do crescimento acelerado da frota eletrificada brasileira, talvez seja o momento de começarmos a prestar mais atenção não apenas no que ouvimos no trânsito, mas também naquilo que deixamos de ouvir.
Luiz Vicente Figueira de Mello Filho

Agente transformador da mobilidade urbana. Luiz é colunista de mobilidade do portal ABCdoABC. Pesquisador do Programa de Pós-doutorado em Engenharia de Transportes e Professor Credenciado da Unicamp – Faculdade de Tecnologia. É doutor em Engenharia Elétrica no Departamento de Comunicação – DECOM – FEEC da Unicamp (2020), mestre em Engenharia Automotiva pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (2009), pós-graduado em Comunicação e Marketing pela Faculdade Cásper Líbero (2005), possui graduação em Administração de Empresas (2002) e em Engenharia Mecânica (1999), ambas pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.