USP cria ‘termômetro’ de empregos para prever crises

Criada por pesquisadores da USP, nova ferramenta alerta sobre recessão antes do PIB; país vive maior período sem crise desde 1980

USP cria ‘termômetro’ de empregos para prever crises

Crédito: Divulgação

Pesquisadores do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (MADE), vinculado à Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA-USP) e à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), desenvolveram uma nova ferramenta métrica para detectar sinais de crise econômica no Brasil com maior agilidade. Batizado de “Indicador MADE”, o modelo é uma adaptação nacional da “Regra de Sahm”, metodologia originária dos Estados Unidos e utiliza dados mensais de emprego e desemprego como um sistema de alerta antecipado para formulação de políticas públicas.

Enquanto a decretação oficial de uma recessão pelo Produto Interno Bruto (PIB) demanda a retração da atividade por dois trimestres consecutivos, o novo indicador baseia-se em dados de alta frequência do mercado de trabalho para oferecer um diagnóstico quase em tempo real da economia.

Como Funciona o Cálculo e a Adaptação ao Brasil

A Regra de Sahm original sinaliza o início de uma recessão quando a média móvel trimestral da taxa de desemprego sobe 0,5 ponto percentual em relação ao nível mais baixo dos últimos 12 meses. No Brasil, o MADE-USP optou por utilizar a taxa de emprego e promoveu um ajuste fundamental devido às características estruturais do mercado de trabalho nacional.

Carteira de trabalho - emprego - desemprego. USP
Marcelo Camargo/Agência Brasil

Como mais de um terço da população ocupada no país encontra-se na informalidade, o limite de disparo do alerta foi reduzido para 0,3 ponto percentual. Quando a diferença entre a média da taxa de emprego dos últimos três meses e o pior nível registrado nos 12 meses anteriores ultrapassa esse patamar, o indicador acende o sinal vermelho de retração econômica.

O pesquisador do MADE e docente da UFRJ, Guilherme Klein, um dos autores do estudo, explica que a ferramenta não substitui o PIB, mas atua como um termômetro social:

“O PIB pode levar mais tempo para confirmar uma recessão, enquanto o MADE funciona como um mecanismo de alerta, capaz de captar mudanças no mercado de trabalho que afetam diretamente o bem-estar da população. A proposta é oferecer uma ferramenta complementar de alerta, capaz de ajudar na identificação mais rápida de possíveis períodos de recessão”, detalha o pesquisador.

Dados Históricos: 14 Recessões e o Período Atual

Emprego - Desemprego. USP
José Cruz/Agência Brasil

Ao aplicar a fórmula retroativamente a bases de dados desde o ano de 1980, os pesquisadores constataram que o Indicador MADE identificou com precisão as 14 recessões vivenciadas pelo Brasil ao longo das últimas quatro décadas. O mecanismo registrou ainda dois alertas curtos que não se converteram em recessões técnicas plenas (2005/2006 e 2013), mas que marcaram momentos de forte inflexão produtiva.

Durante a crise sanitária da Covid-19, a ferramenta captou a rápida deterioração do mercado de trabalho, sinalizando período recessivo entre maio de 2020 e agosto de 2021.

A pesquisa revela ainda um dado otimista sobre o atual cenário econômico: desde a superação da crise pandêmica em meados de 2021, o Indicador MADE não voltou a disparar o alerta de recessão. Trata-se do período mais longo da história recente (desde 1980) em que a economia brasileira se mantém sem sinais recessivos pelo monitoramento de emprego.

Daniela Ferreira

  • Publicado: 30/08/2026 18:00
  • Alterado: 30/08/2026 18:00
  • Autor: Daniela Ferreira
  • Fonte: Agência SP