Unesp revela tráfico de pepinos-do-mar em Guarulhos

Análise genética de cientistas da Unesp comprova contrabando de pepinos-do-mar coletados na costa brasileira

Crédito: Crédito: Fabio Porto-Foresti

Uma investigação genética conduzida por pesquisadores do Laboratório de Genômica e Conservação de Peixes (Lagenpe) da Universidade Estadual Paulista (Unesp), câmpus de Bauru, comprovou a existência de uma rota de tráfico ilegal de pepinos-do-mar partindo do Aeroporto Internacional de Guarulhos (GRU), em São Paulo, com destino ao mercado asiático.

Publicado na prestigiada revista científica Scientific Reports, o estudo utilizou técnicas de análise molecular (“código de barras” do DNA) em animais apreendidos pela fiscalização do Ibama. Os resultados confirmaram que os espécimes pertencem às espécies Holothuria grisea e Isostichopus badionotus, com coleta realizada diretamente no litoral do Sudeste brasileiro.

Iguaria Lucrativa e Ameaça à Biodiversidade

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Crédito: Fabio Porto-Foresti

Os pepinos-do-mar são invertebrados marinhos com papel ecológico fundamental na reciclagem de matéria orgânica no fundo dos oceanos. Altamente valorizados na gastronomia e na medicina tradicional chinesa, esses animais chegam a alcançar cotações de até 400 euros por quilo no mercado internacional, com espécies raras atingindo US$ 5 mil.

Ao passarem por um processo de secagem, os espécimes perdem até 90% do seu peso e ficam descaracterizados, o que facilita o transporte clandestino em malas e caixas, misturados a componentes eletrônicos.

O coordenador do Lagenpe e professor da Unesp, Fabio Porto-Foresti, alerta para o risco de um colapso populacional semelhante ao que ocorreu na Ásia e no comércio global de barbatanas de tubarão:

“O comércio ilegal de qualquer espécie é extremamente danoso, porque é uma ameaça invisível. O pepino seco, forma que é transportado, permite que seja levada uma grande quantidade nas bagagens. Se muitos indivíduos forem retirados na mesma região, isso pode reduzir a população, acabando com o potencial evolutivo da espécie”, alerta o pesquisador.

O docente Ricardo Utsunomia, também coordenador do laboratório, reforça o impacto ecológico da retirada predatória:

“O pepino-do-mar fica no fundo do oceano extraindo e ingerindo matéria orgânica. A retirada deles de forma intensiva e em tão pouco tempo causa um desequilíbrio ecológico muito grande”, pontua.

Identificação pelo “Código de Barras” do DNA

Unesp
Crédito: Fabio Porto-Foresti

O trabalho é fruto de uma parceria firmada em 2015 entre a Unesp e o Ibama. Como os animais chegam cortados e desidratados aos terminais aeroportuários, a identificação visual rápida torna-se impossível para os agentes de fiscalização.

Para superar esse obstáculo, os cientistas extraem o DNA das amostras e realizam a amplificação por PCR para identificar marcadores moleculares específicos. Em seguida, os dados são cruzados com a plataforma internacional Barcode of Life Data System (BOLDSystems).

Diante da ausência do sequenciamento genético da espécie H. grisea no banco de dados global, a equipe contou com o apoio do professor e zoólogo Rogério Caetano da Costa. O pesquisador disponibilizou exemplares frescos coletados no litoral de Ubatuba (SP) para servir de contraprova científica.

A comparação genética confirmou que os animais apreendidos em Guarulhos eram idênticos aos encontrados na costa paulista, descartando a hipótese de o Brasil figurar apenas como entreposto de passagem do tráfico internacional.

Regulamentação e Fiscalização

No Brasil, a apanha e a comercialização de pepinos-do-mar são regulamentadas pela Portaria Ibama nº 93/1998, exigindo autorização ambiental e comprovante de origem legal.

Os pesquisadores destacam que a metodologia de identificação por DNA desenvolvida no Lagenpe pode ser aplicada para combater o contrabando de diversas outras espécies marinhas exploradas ilegalmente nos aeroportos do país, como nadadeiras de tubarão, bexigas natatórias, estrelas e ouriços-do-mar.

  • Publicado: 21/07/2026 12:21
  • Alterado: 21/07/2026 12:21
  • Autor: Daniela Ferreira
  • Fonte: Unesp