São Paulo Segurança

Tarcísio rebaixa chefes da PM, revolta oficiais e abre crise com a corporação

As trocas foram interpretadas pelo grupo descontente como uma tentativa de interferência política

  • Data: 21/02/2024 22:02
  • Alterado: 21/02/2024 22:02
  • Autor: Redação
  • Fonte: Estadão Conteúdo
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Crédito:Reprodução

A decisão do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) de mudar quase toda a cúpula da Polícia Militar de São Paulo causou insatisfação e revolta nos oficiais, abrindo uma crise na instituição. A principal mudança foi a troca, nesta quarta-feira 21, do número 2 da corporação, o coronel José Alexander de Albuquerque Freixo, rebaixado como outros coronéis que ocupavam os principais cargos da instituição. Eles foram substituídos por coronéis mais “modernos” – com menos tempo de serviço e promovidos mais recentemente.

O governo de São Paulo afirmou, em nota, que reconhece o trabalho dos policiais e que várias promoções por mérito já foram feitas anteriormente.

As trocas foram interpretadas pelo grupo descontente como uma tentativa de interferência política do secretário de Segurança Pública, Guilherme Derrite (PL-SP), na corporação. Os coronéis que ascenderam seriam ligados ao secretário, que foi capitão da PM e membro da Rota. A estratégia de Tarcísio e de Derrite seria para eles, uma forma de forçar a passagem para a reserva dos coronéis das turmas de oficiais formadas na Academia da PM em 1993 e em 1994, às quais pertencem o coronel Freixo e o comandante-geral da PM, Cássio Araújo de Freitas.

Mobilidade

Um integrante do governo negou essa avaliação e afirmou ao Estadão que as trocas foram definidas pelo próprio governador e não pelo secretário. Segundo ele, Tarcísio apenas antecipou um movimento que fará ao longo deste ano para dar fluxo à mobilidade de carreira na Polícia Militar. O governador vai enviar um projeto de lei à Assembleia Legislativa no qual proporá igualar as regras de promoção da PM às do Exército.

Quando um general é promovido ao cargo de comandante do Exército os generais das turmas mais antigas que a dele vão automaticamente para a reserva. O mesmo não ocorre na PM, o que acaba travando as promoções nos níveis inferiores e, na visão do governo, desmotivando os oficiais. Mas, ao mudar os coronéis, Tarcísio não mexeu no comandante-geral, que permanece sendo Freitas.

O novo subcomandante da corporação será José Augusto Coutinho, homem de confiança de Derrite. Ele substituirá o coronel Freixo, que estava no cargo desde o início da atual gestão, em 2023. Freixo foi mandado para a Escola de Sargentos da PM. Já o comandante do Policiamento da Capital, coronel Reges Meira Peres um dos cargos mais importantes da corporação, foi enviado para o Comando de Policiamento de Área-12, em Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo.

Além disso, o comandante do Policiamento Metropolitano, Victor Alessandro Ferreira Fridizzi, deixou o comando de todos os batalhões dos municípios da Grande São Paulo (exceto capital) para ocupar uma escrivaninha no Departamento de Ensino e Cultura (DEC).

Atos

Ao todo, 34 coronéis foram transferidos de funções ontem. Metade dos atos representa a ascensão dos coronéis formados em turmas mais recentes da academia ou promovidos mais recentemente. A outra metade, ligada ao atual comandante da PM, Cássio de Freitas, foi rebaixada.

Há relatos de que alguns coronéis não foram avisados previamente e descobriram as mudanças pelo Diário Oficial, o que foi interpretado como uma “humilhação”. Há a avaliação entre eles de que a mudança causou uma crise na polícia em dimensões que não eram vistas desde 1997, durante o primeiro mandato de Mário Covas (PSDB).

Ao Estadão, um coronel disse lembrar de caso semelhante somente em 1995, quando Claudionor Lisboa, da turma de 1966 da Academia do Barro Branco, foi nomeado comandante-geral. Na época, uma série de coronéis da turma de 1965 passou para a reserva.

“A atual gestão da Secretaria da Segurança Pública reconhece e valoriza o trabalho dos policiais paulistas e informa que, desde o início do ano, uma série de promoções por mérito e movimentações de rotina foi efetivada junto às polícias Civil, Militar e Técnico-Científica do Estado”, disse a pasta por meio de nota.

Câmeras e operações

Os coronéis que perderam prestígio se reuniriam ainda ontem para discutir se iriam para a reserva ou continuariam nos cargos para os quais foram designados. O grupo resiste à atual política de segurança instituída por Derrite, que é contrário ao aumento das câmeras nos uniformes dos policiais e adepto de operações ostensivas como as que têm sido realizadas na Baixada Santista.

Um ex-integrante da cúpula da PM paulista escreveu em um grupo de coronéis da reserva que a instituição “está de ponta-cabeça”. Reservadamente, coronéis criticaram Derrite, afirmando que são atropelados em seus comandos pelo atual secretário.

Existem hoje 10 mil câmeras corporais na PM. Entre as unidades que as utilizam estão a Rota e os Batalhões de Ações Especiais (Baeps). Trata-se de política criada pela PM e abraçada pelo antigo secretário de Segurança, general João Camilo Pires de Campos.

Uma autoridade do governo paulista ouvida pelo Estadão negou que o pano de fundo das trocas seja esse. O integrante do Palácio dos Bandeirantes indicou que o programa das câmeras será ampliado em um futuro próximo, quando for associado com o Muralha Paulista – projeto estadual que tem como objetivo interligar as câmeras de vigilância do governo com as das prefeituras.

Gaecos

O tamanho da crise na PM pode ser medido ainda por outra mudança importante: Tarcísio e Derrite trocaram de posto o comandante do Centro de Inteligência da PM, o coronel João Luis Minghetti Costa, que foi despachado para a Assessoria da PM na Prefeitura de São Paulo – um cargo longínquo do dia a dia da corporação.

Minghetti era um dos responsáveis pela parceria do Centro de Inteligência da corporação com os Grupos de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaecos), do Ministério Público de São Paulo, responsável pelo enfrentamento do Primeiro Comando da Capital (PCC).

A queda de Minghetti ocorre depois que o procurador-geral de Justiça, Mário Luiz Sarrubbo, foi nomeado secretário nacional de Segurança Pública do Ministério da Justiça. Sarrubbo era um dos artífices dessa política.

Segundo coronéis ouvidos pela reportagem, nos quatro últimos anos os Gaecos, em associação com os policiais militares, fizeram mais de 500 operações: cerca de 3 mil buscas, 70 toneladas de drogas apreendida e mais de 1,3 mil prisões – deste total, aproximadamente 600 pessoas foram condenadas. Para o lugar de Minghetti foi nomeado o coronel Pedro Luis de Souza Lopes, alinhado a Derrite.

Sob pressão

Derrite enfrenta problemas na segurança pública e sofre pressão para apresentar resultados diante do aumento do número de policiais mortos, do fracasso do combate ao tráfico na Cracolândia e dos roubos de celulares, além do aumento de casos de estupros no Estado. No horizonte político do secretário estadual estaria uma candidatura ao Senado pelo PL em 2026.

O número de homicídios caiu 10,4% e chegou ao menor patamar da série histórica iniciada em 2001, enquanto as ocorrências de roubos recuaram 6,2% no Estado. Os dados são referentes ao ano de 2023, primeiro da gestão do secretário, na comparação com 2022. Por outro lado, os casos de estupros e feminicídios bateram recorde, com aumento de 9,5% e 13,4%, respectivamente.

Os roubos (-6,1%) e homicídios (-11,49%) caíram na capital paulista na comparação ano a ano, enquanto os furtos subiram 6 5%. Foram 250.825 ocorrências do tipo em 2023. Os dados são da própria Secretaria de Segurança Pública.

Em um intervalo de 16 dias entre o fim de janeiro e o início de fevereiro, quatro policiais militares foram mortos no Estado, número que supera os três óbitos contabilizados nos três primeiros meses do ano passado.

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