Software de IA não resolve uma operação complexa
Investir em software e IA pode ampliar a produtividade, mas processos complexos e estruturas pesadas ainda limitam a velocidade e o impacto nas empresas
- Publicado: 27/08/2026 12:35
- Alterado: 27/08/2026 12:35
- Autor: Leandro Roberto de Oliveira
Empresas de todos os portes vivem uma situação cada vez mais familiar. Uma nova tecnologia chega ao mercado, a concorrência anuncia investimentos, o Conselho quer respostas e a liderança começa a discutir inteligência artificial, automação e produtividade. Em pouco tempo surgem pilotos, plataformas, fornecedores e planos de implementação. A agenda avança, os investimentos também, mas uma pergunta fundamental nem sempre acompanha esse movimento: estamos preparando a empresa para acelerar ou apenas colocando um motor mais potente em uma estrutura que continua excessivamente pesada?
Essa pergunta ganhou ainda mais importância em 2026, quando a inteligência artificial se consolidou como uma das principais prioridades de investimento das empresas. Ao mesmo tempo, organizações em busca de maior desempenho passaram a direcionar esforços para simplificar fluxos, acelerar decisões e redesenhar a forma como o trabalho acontece. Os dois movimentos não estão separados. A capacidade de extrair valor da tecnologia depende, em grande medida, da estrutura que a recebe.
Durante muitos anos, produtividade foi tratada como uma questão de capacidade. Mais demanda pedia mais recursos, processos lentos ganhavam novas ferramentas e o crescimento exigia novas estruturas de coordenação. Esse modelo funcionou por bastante tempo, mas o ambiente atual exige outra competência: crescer sem transferir toda a complexidade desse crescimento para dentro da própria organização. É nesse ponto que a simplificação deixa de ser apenas um assunto de processos ou eficiência operacional e passa a representar uma escolha de gestão.
Quando crescer também significa acumular complexidade

A complexidade possui uma característica particularmente traiçoeira: quase sempre nasce de boas decisões. Uma empresa cresce, novas áreas surgem, o número de clientes aumenta e as exigências regulatórias se multiplicam. A organização responde, com razão, criando mecanismos de coordenação, controles e aprovações para lidar com essa nova realidade.
O problema aparece quando o conjunto dessas decisões deixa de ser observado como um sistema. Uma etapa nasce para resolver uma situação específica, outra surge para ampliar a visibilidade, uma terceira acrescenta uma validação e, depois de alguns anos, a empresa passa a operar sobre uma estrutura construída para lidar com praticamente tudo, inclusive com a complexidade que ela própria criou.
A organização continua funcionando e os resultados continuam chegando, mas cada movimento passa a exigir mais coordenação. Uma decisão percorre mais pessoas, uma informação atravessa mais sistemas e uma mudança estratégica encontra uma quantidade crescente de dependências antes de chegar à operação. A empresa cresce, mas sua capacidade de se mover nem sempre acompanha esse crescimento na mesma proporção.
É justamente aí que a simplificação precisa começar. A liderança deve voltar a enxergar o trabalho de ponta a ponta, em vez de observá-lo apenas dentro dos limites de cada área. Afinal, clientes não percebem departamentos, percebem experiências. Eles não enxergam as fronteiras entre comercial, operações, tecnologia e atendimento. Percebem quanto tempo uma solicitação leva para ser resolvida e se a empresa consegue cumprir aquilo que prometeu.
Simplificar exige olhar para o fluxo completo: onde uma informação nasce, quem realmente precisa dela, quantas vezes é registrada e quanto tempo o trabalho permanece parado entre uma etapa e outra. Organizações em busca de ganhos sustentáveis de produtividade vêm direcionando atenção justamente aos processos de ponta a ponta e ao redesenho da maneira como o trabalho é realizado.
Simplificar também significa escolher
A decisão pode parecer óbvia, mas, dentro de uma grande organização, simplificar significa fazer escolhas difíceis sobre onde concentrar energia, seja em produtos, projetos, indicadores, reuniões ou processos. Toda empresa possui uma capacidade limitada de atenção. Quando ela se dilui entre prioridades, controles e demandas em excesso, a consequência aparece diretamente na execução: a agenda fica cheia, a sensação de atividade aumenta e a capacidade real de avançar diminui.
Essa lógica tornou-se ainda mais importante com a expansão da inteligência artificial. Organizações que conseguem transformar IA em impacto para o negócio vêm combinando tecnologia com o redesenho de fluxos e modelos operacionais. Isso acontece porque automatizar uma estrutura excessivamente complexa não elimina necessariamente a complexidade. Em determinados casos, apenas permite que ela funcione mais rapidamente.
A tecnologia amplia a capacidade da organização, mas é a simplificação que define onde essa capacidade será utilizada. Um processo mais simples exige menos transferências, reduz dependências e estabelece maior clareza sobre responsabilidades. É sobre essa base que a tecnologia consegue, de fato, capturar velocidade e ampliar a produtividade.
Por isso, o redesenho dos processos não deveria aparecer apenas depois da adoção de uma nova ferramenta. Em muitos casos, precisa acontecer antes ou caminhar ao lado dela. Quando o fluxo é revisto, as responsabilidades ganham clareza, a informação percorre caminhos mais curtos e a tecnologia pode assumir atividades repetitivas sem simplesmente reproduzir digitalmente uma burocracia que já existia.
A pergunta sobre IA começa antes da tecnologia

Essa mudança desloca uma das perguntas mais frequentes da agenda executiva. Em vez de começar por “qual tecnologia devemos comprar?”, talvez a liderança devesse primeiro perguntar “como queremos que o trabalho aconteça daqui para frente?”.
A segunda pergunta é mais profunda porque obriga a organização a olhar para decisões, responsabilidades, dados e processos como partes de um mesmo sistema. Grandes programas de transformação costumam começar com apresentações, visões de futuro, roadmaps e novas plataformas. A simplificação, porém, pode começar em uma escala muito menor, quando uma liderança observa um fluxo específico e procura a maneira mais direta de transformar determinada necessidade em resultado.
A partir daí, o processo pode ser redesenhado, responsabilidades ficam mais claras, a informação percorre um caminho mais curto e a tecnologia passa a assumir atividades repetitivas, ampliando a capacidade das equipes. O ganho deixa de estar concentrado em uma tarefa isolada e começa a percorrer toda a operação.
As empresas continuarão investindo em inteligência artificial, automatizando atividades e digitalizando operações. As que conseguirem transformar esses investimentos em vantagem competitiva, porém, serão provavelmente aquelas que compreenderem que velocidade é consequência da forma como a empresa está organizada para trabalhar.
Isso leva a uma pergunta que merece espaço na próxima reunião de liderança: se hoje fosse necessário redesenhar os principais processos da empresa para responder ao mercado com o dobro da velocidade, por onde começaríamos?
A resposta talvez esteja menos na próxima tecnologia a ser comprada e mais nos caminhos que o trabalho já percorre, todos os dias, dentro da organização. Porque, antes de acelerar, toda empresa precisa entender quanto peso ainda está carregando.
Leandro Roberto de Oliveira

Leandro Roberto é especialista em gestão estratégica de projetos, portfólio e riscos, com mais de 25 anos de experiência em consultoria, auditoria e transformação organizacional, incluindo atuação em empresas como Allianz, KPMG e Ernst & Young. Reconhecido por sua expertise em PMO, governança corporativa e metodologias ágeis, destaca-se na conexão entre estratégia e execução, priorização de portfólio e gestão de riscos baseada em padrões internacionais. É graduado em Administração de Empresas e possui MBA em Gestão de Negócios pelo IBMEC/SP.