São Caetano inaugura centro infantil com rainha Silvia
Rainha Silvia, da Suécia, participa da inauguração de centro em São Caetano, que integra saúde e proteção a crianças e adolescentes vítimas de violência
- Publicado: 06/11/2026 16:41
- Alterado: 06/11/2026 16:42
- Autor: Carlos Enriki
São Caetano do Sul inaugurou nesta sexta-feira (6) o Centro de Atendimento Integrado Criança e Adolescente (CAI), equipamento destinado ao acolhimento de crianças e adolescentes vítimas de violência sexual e intrafamiliar. Instalado no Hospital Infantil e Maternidade Márcia Braido, o espaço concentra serviços de saúde, atendimento psicossocial, psicoterapia breve e depoimento especial.
A iniciativa conta com o apoio da Childhood Brasil e busca evitar que vítimas precisem percorrer diferentes instituições e repetir relatos sobre as situações de violência. Os atendimentos começam em novembro, com as primeiras sessões de depoimento especial.
A cerimônia contou com a presença da rainha Silvia, da Suécia, fundadora da World Childhood Foundation, organização internacional dedicada à proteção dos direitos de crianças e adolescentes.

Durante a solenidade, a rainha destacou a importância de garantir ambientes seguros para o desenvolvimento infantil. “A infância e a adolescência devem ser tempos de descobertas, afeto, sonhos e possibilidades. Etapas da vida em que todos devem se sentir seguros, respeitados e livres para desenvolver seu potencial”, afirmou.
Centro reúne atendimento e medidas de proteção
O CAI concentra diferentes etapas do atendimento em um único endereço. Entre os serviços oferecidos estão assistência médica, suporte psicossocial, psicoterapia breve e escuta de vítimas e familiares para elaboração de planos de atendimento.
O equipamento também prevê agilidade na adoção de medidas protetivas, como o afastamento cautelar de investigados, a inclusão de vítimas em programas de proteção e a produção antecipada de provas.
Em parceria com a Delegacia de Defesa da Mulher (DDM), o centro também permitirá o registro de boletins de ocorrência por meio de formulário integrado e a realização de exames periciais. Outra frente envolve o atendimento jurídico especializado, viabilizado por convênio com a Justiça, o Ministério Público e a Defensoria Pública.
A coordenadora de programas e projetos da Childhood Brasil, Fernanda Caçador, explicou que a integração dos serviços busca evitar que crianças e adolescentes precisem percorrer diferentes locais para conseguir atendimento após uma situação de violência.

“Estamos num momento muito importante para esse município, que é a inauguração de um Centro de Atendimento Integrado. Ele reúne serviços de psicoterapia breve, assistência social, saúde e responsabilização, evitando que a criança precise peregrinar pela cidade em busca de atendimento qualificado após sofrer uma violência”, afirmou.
Fernanda também destacou a parceria entre a organização, a Prefeitura e o Tribunal de Justiça para estruturar o atendimento. “Para nós da Childhood Brasil é um imenso prazer estar em parceria com a Prefeitura e também com o Tribunal de Justiça para que, juntos, possamos dar uma resposta qualificada para essa criança e para esse adolescente”, declarou.
Depoimento especial será realizado na própria unidade
Um dos principais diferenciais do CAI é a realização do depoimento especial no próprio espaço. O procedimento será conduzido por psicólogos capacitados, em ambiente preparado para acolher crianças e adolescentes.
A medida segue as diretrizes da Lei nº 13.431/2017, que estabelece mecanismos de proteção para crianças e adolescentes vítimas ou testemunhas de violência.
A proposta é reduzir a necessidade de repetição dos relatos durante o atendimento e evitar a chamada revitimização, quando a vítima precisa relembrar experiências traumáticas em diferentes instituições.
Em seu discurso, a rainha Silvia ressaltou que crianças e adolescentes precisam encontrar profissionais preparados para acolhê-los. “Quando são vítimas de violências, especialmente violências sexuais, eles precisam encontrar adultos preparados para ouvi-los, acolhê-los e protegê-los”, declarou.
A monarca também defendeu que os serviços públicos sejam organizados a partir das necessidades das vítimas, e não o contrário.
“É o sistema de proteção que deve se organizar em torno da criança e não ao contrário”, afirmou.
Rede de proteção atende cerca de 100 casos por ano
Atualmente, aproximadamente 100 casos são atendidos anualmente pela rede de proteção de São Caetano do Sul. Com a implantação do centro, a expectativa é de aumento no número de atendimentos.
A ampliação está relacionada à subnotificação da violência contra crianças e adolescentes. Experiências de outros municípios indicam que a procura tende a crescer quando os serviços se tornam mais acessíveis e integrados.
A rainha Silvia também chamou a atenção para a necessidade de evitar que crianças precisem repetir suas experiências traumáticas para conseguir ajuda.
“Nenhuma criança deveria precisar contar sua dor repetidas vezes para conseguir ajuda. Nenhuma deveria percorrer sozinha um caminho entre instituições que não se comunicam”, afirmou.
Ao encerrar sua participação, a rainha desejou que o novo equipamento represente um espaço de acolhimento e reconstrução para as vítimas.
“Que esse centro seja um lugar de proteção, de reconstrução da confiança e, sobretudo, de novos caminhos e possibilidades para o futuro”, concluiu.
Como denunciar casos de violência contra crianças e adolescentes
A coordenadora da Childhood Brasil explicou que a organização não recebe diretamente denúncias ou notificações de violência. O encaminhamento deve ser feito pelos canais públicos responsáveis pela proteção de crianças e adolescentes.
“Qualquer pessoa, toda a sociedade, pode ligar no Disque 100 quando identificar uma violência, mas principalmente procurar a rede de proteção do município”, orientou Fernanda.

Entre os serviços que podem receber relatos e encaminhar os casos estão o Conselho Tutelar, o Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS), o Centro de Referência de Assistência Social (CRAS), hospitais públicos e escolas.
Fernanda explicou que o CAI terá a função de organizar o fluxo de atendimento entre esses serviços, permitindo que cada situação seja avaliada e encaminhada adequadamente.
“O que a gente quer é que a violência seja cessada de forma célere e rápida e que essa criança tenha seus direitos reparados”, destacou.
Rainha Silvia e o combate à violência infantil
A rainha Silvia da Suécia tem uma trajetória diretamente ligada à defesa dos direitos da infância. Em 1999, fundou a World Childhood Foundation, organização internacional criada para combater a violência e a exploração de crianças e adolescentes, promovendo iniciativas de proteção e acolhimento em diferentes países.

A instituição também está ligada à atuação da Childhood Brasil, parceira de São Caetano do Sul na implantação do Centro de Atendimento Integrado Criança e Adolescente (CAI).
Em caso de suspeita ou conhecimento de violência contra crianças e adolescentes, procure o Conselho Tutelar ou entre em contato com o Disque 100.