Sabesp economiza 193 bilhões de litros em um ano
Medida adotada durante a estiagem poupou 193 bilhões de litros em um ano e diminuiu perdas provocadas por vazamentos na rede
- Publicado: 27/08/2026 16:41
- Alterado: 27/08/2026 16:42
- Autor: Daniela Penatti
A redução da pressão da água durante o período noturno na região metropolitana de São Paulo completa um ano nesta quinta-feira (27). Segundo a Sabesp, a medida resultou na economia de aproximadamente 193 bilhões de litros de água.
O volume poupado seria suficiente para abastecer 33 milhões de pessoas durante 30 dias, mais de duas vezes a população da capital paulista, ou atender toda a população do Peru pelo mesmo período.
De acordo com a companhia, a quantidade economizada também corresponde à produção de um ano inteiro do sistema Rio Grande, quarto maior complexo de captação e tratamento de água do Estado. O sistema fornece água diariamente para mais de 1,5 milhão de moradores do ABC Paulista, incluindo São Bernardo do Campo, Santo André e Diadema.
Como funciona a redução da pressão da água?

A estratégia foi adotada como medida preventiva e temporária, em atendimento a uma deliberação da Arsesp (Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo). O objetivo é preservar os reservatórios responsáveis pelo abastecimento da região em meio ao período de estiagem iniciado no ano passado e que ainda não tem previsão de encerramento.
Por enquanto, não existe uma data definida para o fim da medida. A intensificação do fenômeno El Niño, com possibilidade de ondas de calor acompanhadas de pouca chuva no Estado, pode aumentar a pressão sobre os mananciais.
O professor Antonio Carlos Zuffo, do departamento de Recursos Hídricos da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), explica que reduzir a pressão durante a noite é uma prática comum no controle de perdas, principalmente em redes que apresentam grande quantidade de vazamentos.
Durante o dia, o consumo elevado mantém a água em circulação e reduz a pressão dinâmica. À noite, quando a demanda cai, a água circula menos e a pressão estática aumenta. Com isso, os vazamentos tendem a se intensificar.
A diminuição da pressão nesse período reduz esse efeito e contribui para a economia registrada pela Sabesp.
Redução da pressão afeta regiões mais altas

Apesar do ganho no controle de perdas, a estratégia também provoca impactos para parte da população. Em áreas elevadas e mais afastadas das redes principais, a água pode chegar com menor intensidade ou até deixar de ser fornecida durante determinados períodos.
“As pontas de rede, mais periféricas, são as primeiras a ficar sem água e as últimas a recuperar. Se não tiver reservatórios, acaba ficando sem abastecimento. Quando sai para trabalhar, a água está voltando e, quando retorna à noite, não tem água“, afirmou Zuffo.
Em julho, moradores de áreas submetidas à redução de pressão enfrentavam uma situação semelhante a um racionamento. Um dos exemplos citados foi o ponto mais alto do Jardim D’Abril, no extremo oeste da capital.
Na ocasião, o líder comunitário Anailson Santos Lima, 48, relatou dificuldades durante a noite. “Quando chegam do trabalho, no começo da noite, as pessoas não conseguem tomar banho porque a água fica fraca e o chuveiro queima”, afirmou.
Na zona sul, Parelheiros, Capela do Socorro, M’Boi Mirim e Cidade Ademar estão entre as áreas mais afetadas. Na zona leste, São Mateus, Cidade Tiradentes, Itaquera e Guaianases registram queixas frequentes de intermitência. Na zona norte, Perus, Brasilândia e Vila Nova Cachoeirinha aparecem entre os locais considerados de maior criticidade.
Oscilação da pressão também gera preocupação
Além da possibilidade de interrupções, especialistas apontam outro problema associado à variação da pressão: o risco de contaminação da rede de abastecimento.
Segundo Zuffo, quando a pressão dentro dos tubos cai a níveis negativos, a água que vazou anteriormente para o lençol freático pode retornar para a tubulação. Esse risco seria maior em regiões elevadas e nas extremidades das redes, justamente os locais sujeitos às maiores oscilações.
José Carlos Mierzwa, professor do departamento de Engenharia Hidráulica e Ambiental da Escola Politécnica da USP, avalia que a redução da demanda durante a noite era uma medida necessária diante da situação enfrentada um ano atrás e da complexidade da região metropolitana, formada por 39 municípios.
Para o especialista, entretanto, a perda de água continua elevada, entre 25% e 30%. Isso significa que, a cada mil litros retirados dos mananciais, aproximadamente 300 não chegam aos consumidores.
Especialistas defendem novas fontes de abastecimento
Mierzwa considera que uma alternativa para aumentar a segurança hídrica seria ampliar o uso de fontes alternativas, como a produção de água a partir do reúso de esgoto. A prática já é adotada nos Estados Unidos, em países da África e do Oriente Médio, além de Singapura e Austrália.
“Temos tecnologia avançada suficientemente robusta para produzir água até melhor do que a de mananciais naturais. Isso traria mais conforto e manteria os níveis dos mananciais”, afirmou.
Segundo o professor, a adoção em maior escala dependeria de decisões do governo estadual para estabelecer políticas públicas e de uma atuação conjunta com o Ministério da Saúde. O objetivo seria demonstrar à população que a tecnologia é segura e não representa riscos à saúde.
Nível dos sistemas ainda exige atenção

Na quarta-feira (26), o SIM (Sistema Integrado Metropolitano), formado pelos sistemas Cantareira, Alto Tietê, Cotia, Guarapiranga, Rio Claro, Rio Grande e São Lourenço, operava com 43,9% de seu volume total.
O Cantareira, responsável por aproximadamente metade do fornecimento de água da região metropolitana, estava com 33,6% e apresentava trajetória de queda.
Por outro lado, as chuvas registradas entre junho e julho ficaram acima da média nas áreas responsáveis pelo abastecimento do SIM. O cenário proporcionou algum alívio aos reservatórios e permitiu reduzir o período diário de aplicação da pressão noturna.
Outro fator favorável ao Cantareira foi o aumento da transferência de água do rio Jaguari, integrante da bacia do rio Paraíba do Sul, responsável também pelo abastecimento de parte do Estado do Rio de Janeiro.
As interligações entre sistemas ganharam importância após a crise hídrica de 2014 e 2015. Elas permitem transferir água entre diferentes estruturas conforme a necessidade e ampliam a segurança do abastecimento.
Entre as obras realizadas está a transferência de água do rio Itapanhaú, no litoral paulista, para o sistema Alto Tietê, concluída em 2025. A estrutura acrescentou até 2.000 litros por segundo à capacidade de abastecimento.
A Sabesp também prevê uma nova interligação entre a represa Billings e o sistema Alto Tietê, com potencial para disponibilizar outros 4.000 litros por segundo.
Grande São Paulo depende de mananciais distantes
As transferências entre sistemas são consideradas especialmente relevantes para a região metropolitana porque a disponibilidade natural de água é baixa. Por isso, o abastecimento depende de mananciais situados a grandes distâncias dos consumidores.
De acordo com a Sabesp, a Grande São Paulo dispõe de apenas 149 mil litros de água por habitante ao ano. O índice está muito abaixo dos mais de 1,7 milhão de litros anuais por habitante considerados ideais pela ONU (Organização das Nações Unidas).