Quando a solidariedade também quer algo em troca

A solidariedade perde sentido quando quem ajuda ocupa o centro da ação e transforma responsabilidade social em ferramenta de reputação e reconhecimento

Quando a solidariedade também quer algo em troca

Crédito: (Imagem/Magnific)

Existe uma pergunta incômoda que quase nunca fazemos diante de uma boa ação: quem realmente está sendo beneficiado por ela? À primeira vista, o questionamento pode parecer injusto. Afinal, se alguém recebeu ajuda, por que colocar sob suspeita a intenção de quem ajudou? A resposta talvez esteja no tempo em que vivemos, quando praticamente tudo pode ser transformado em imagem, reputação, relacionamento e capital social. Nesse ambiente, até a solidariedade corre o risco de deixar de olhar prioritariamente para quem precisa e passar a valorizar quem a pratica.

Isso não significa que toda boa ação de solidariedade seja falsa, que uma empresa não possa fortalecer sua reputação por meio de iniciativas sociais ou que uma pessoa não possa sentir orgulho de uma causa da qual participa. O problema começa quando essa lógica se inverte: o benefício de quem ajuda deixa de ser uma consequência legítima da ação e passa a ser a principal razão para realizá-la.

Maquiavel, tantos séculos depois, permanece desconfortavelmente atual justamente porque compreendeu algo permanente sobre o comportamento humano: interesses e aparências exercem enorme influência sobre nossas escolhas. O mundo mudou, as ferramentas se transformaram e a comunicação tornou-se instantânea, mas continuamos buscando reconhecimento, influência e poder. Hoje, uma boa ação pode gerar visibilidade, fortalecer uma marca, aproximar pessoas, abrir portas e melhorar reputações. Nada disso, isoladamente, torna a iniciativa ilegítima. A questão é saber se, retirados todos esses benefícios, a disposição para agir continuaria existindo.

Quando a solidariedade deixa de ser sobre o outro

É nesse ponto que chegamos ao coração da responsabilidade social. Ela não deveria funcionar como uma vitrine de virtudes, mas como uma escolha de sociedade. E uma sociedade verdadeiramente responsável precisa compreender que igualdade não pode depender de favor, compaixão ou da disposição eventual de alguém em ajudar.

Quando ajudamos uma pessoa apenas porque sentimos pena, podemos preservar, mesmo involuntariamente, uma relação de superioridade: de um lado está quem pode dar e, do outro, quem precisa receber. Quando a perspectiva passa a ser a da igualdade, essa relação muda. A pessoa deixa de ocupar o lugar de objeto da nossa generosidade e passa a ser reconhecida como sujeito de direitos, dignidade e oportunidades.

Uma pessoa com deficiência não deveria depender da sensibilidade de alguém para ser respeitada. Uma família em situação de vulnerabilidade não deveria precisar despertar compaixão para receber tratamento digno. Da mesma forma, quem ocupa uma posição social diferente da nossa não deveria precisar demonstrar que merece as mesmas oportunidades que consideramos naturais para nós mesmos.

É por isso que igualdade não significa simplesmente oferecer ao outro aquilo que temos. Significa reconhecer que ele também possui direito àquilo que consideramos indispensável para a nossa própria vida.

Quando a causa vira cenário

Solidariedade
(Imagem/Magnific)

Talvez a responsabilidade social precise ser tratada com maior seriedade justamente porque existe uma fronteira delicada entre comunicar uma causa e utilizá-la para construir uma imagem. Quando uma iniciativa social se transforma em cenário para autopromoção, existe o risco de inverter sua finalidade. A pessoa que deveria estar no centro da ação passa a ocupar um papel secundário na narrativa de quem a realiza.

Isso não significa que empresas, organizações ou cidadãos devam esconder aquilo que fazem. Podemos divulgar boas iniciativas, inspirar outras pessoas a aderir a solidariedade, apresentar resultados e até construir valor a partir de uma atuação socialmente responsável. A comunicação pode ampliar uma causa e mobilizar recursos importantes. O cuidado está em não perder de vista uma pergunta essencial: quem está no centro dessa história? Se a resposta for sempre nós mesmos, alguma coisa se perdeu pelo caminho.

Talvez o Brasil precise justamente dessa mudança de perspectiva. Menos preocupação em parecer responsável e mais disposição para assumir responsabilidade. Menos celebração da própria virtude e mais compromisso com aquilo que ainda precisa ser transformado. Fazer o bem pode aliviar uma necessidade imediata, mas construir igualdade exige coragem para compreender por que aquela necessidade continua existindo e o que podemos fazer para que ela não permaneça.

A caridade pode nascer da diferença entre quem tem e quem não tem. A responsabilidade social, por sua vez, deveria contribuir para diminuir essa distância.

O que sobra quando ninguém está olhando

É justamente por isso que existe uma provocação difícil de evitar: continuaríamos fazendo as mesmas coisas se ninguém pudesse nos ver? Se não houvesse fotografia, postagem, aplauso, certificado, manchete ou qualquer possibilidade de retorno, nossa disposição para ajudar permaneceria a mesma?

Se a resposta for sim, talvez estejamos diante de algo maior do que uma ação social. Talvez estejamos diante de um princípio, de uma forma de compreender nosso lugar na sociedade que independe do reconhecimento recebido em troca.

Maquiavel nos ensinou a desconfiar das aparências. O nosso tempo talvez nos obrigue a realizar um exercício ainda mais difícil: desconfiar das nossas próprias boas intenções. Não para deixarmos de fazer o bem, mas para compreendermos por que fazemos e quem realmente desejamos beneficiar quando decidimos agir.

O bem verdadeiro não precisa diminuir ninguém para valorizar alguém. Da mesma maneira, a responsabilidade social não deveria existir para tornar maiores aqueles que ajudam, mas para contribuir para uma sociedade em que ninguém precise ocupar uma posição menor para receber dignidade, respeito e oportunidades.

Talvez seja exatamente nessa mudança, quando deixamos de colocar nossa própria virtude no centro e passamos a colocar o outro como sujeito de direitos, que comece o Brasil que ainda pode dar certo.

Dom Veiga

Dom Veiga - Adote um Cidadão - Responsabilidade Social
(Divulgação)

Dom Veiga é empreendedor social, peregrino e fundador do projeto Adote um Cidadão, organização da sociedade civil que há 27 anos promove a inclusão de pessoas com deficiência e o acolhimento de cidadãos em situação de vulnerabilidade social. À frente da iniciativa, desenvolve ações socioeducativas, esportivas e culturais que impactam comunidades em diferentes regiões do Brasil, unindo propósito, solidariedade e transformação social.

  • Publicado: 28/08/2026 14:40
  • Alterado: 28/08/2026 14:40
  • Autor: Dom Veiga
  • Fonte: Adote um Cidadão

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