Protagonistas 2 revela histórias que o mercado fingiu não ouvir

No ABC Cast Conexões, Bianca Brandão, da SerMente Editorial, fala sobre Protagonistas 2, escuta e 93 mulheres que transformam histórias de vida em livro

Protagonistas 2 revela histórias que o mercado fingiu não ouvir

Crédito: Bianca Brandão, sócia da SerMente Editorial (Divulgação)

Muita gente atravessa a vida acumulando histórias que nunca pensa em contar. Um começo difícil, uma mudança de rota, uma perda, uma conquista silenciosa, uma coragem que só quem viveu conhece por inteiro. Há experiências que ficam guardadas por anos porque parecem íntimas demais, pequenas demais ou comuns demais para chegar ao papel. O trabalho de Bianca Brandão começa justamente nesse ponto, quando uma mulher percebe que sua trajetória pode não ser exceção, mas espelho para outras pessoas.

Escritora, relações-públicas, sócia da SerMente Editorial e organizadora da coleção Protagonistas, Bianca atua em uma fronteira delicada do mercado editorial. Seu trabalho não se limita a receber originais, revisar textos e preparar livros para lançamento. Antes da página escrita, existe uma etapa feita de conversa, confiança e escuta. É nesse espaço que muitas autoras deixam de olhar para a própria história como lembrança solta e passam a enxergá-la como narrativa possível.

Nascida em São Bernardo do Campo, Bianca construiu uma trajetória marcada por deslocamentos profissionais que, vistos em sequência, ajudam a explicar sua chegada aos livros. Ela passou por vendas, turismo, relações públicas, consultoria, escrita e empreendedorismo, um percurso que deu a ela uma percepção prática sobre pessoas, expectativas e modos de comunicação. “Meu primeiro trabalho foi no Best Shopping, em São Bernardo, como vendedora, aos 13 anos, porque eu queria ter uma independência financeira logo cedo. Depois fui construindo minha trajetória, procurando me encontrar, e essa pluralidade toda fez com que eu realmente me encontrasse profissionalmente agora, nos últimos 10 anos, dentro do mercado editorial. O que trouxe da época em que fui guia da Disney foi disciplina. O que trouxe das vendas foi entender como funciona a cabeça de um comprador e como é possível encantar as pessoas. Foi difícil me encontrar, mas depois entendi que sempre esteve ali”, afirma.

Essa formação fora de uma rota linear dá corpo ao olhar editorial de Bianca. No contato com clientes, turistas, famílias, autores e leitoras, ela aprendeu que uma história raramente chega pronta. Muitas vezes, a pessoa tem vivência, mas não sabe onde começa o relato. Tem memória, mas não identifica o recorte. Tem algo a dizer, mas carrega a dúvida sobre a relevância da própria voz. A escuta, nesse processo, não funciona simplesmente como gesto simpático, ela organiza o caminho entre experiência e escrita. “O que eu trouxe hoje para a minha empresa e para o empreendedorismo foi algo que aprendi com o decorrer do tempo. Eu sempre fui uma pessoa com muita empatia e sempre tive uma escuta muito forte. Mesmo como vendedora, mesmo quando trabalhava como guia da Disney, eu precisava lidar com pessoas o tempo todo. Levava adolescentes para a Disney, fazia esses adolescentes ligarem para os pais, escutava esses pais também e explicava que os filhos estavam bem. A escuta é o que eu trouxe até hoje. Cada emprego, cada trabalho, trouxe essa escuta e essa empatia, e isso fez com que eu me tornasse a profissional que sou”, diz.

No ABC Cast Conexões, essa escuta surge como chave para entender a atuação de Bianca no mercado editorial e o alcance da coleção Protagonistas. A proposta reúne mulheres de diferentes origens, idades, profissões e histórias em livros colaborativos que tratam de experiências reais. Para que essas narrativas cheguem ao leitor, o processo precisa lidar com vulnerabilidade, insegurança, exposição pública e construção de sentido. O livro nasce do texto, mas também da coragem de assumir uma versão da própria vida diante de outras pessoas.

Rita Santos, jornalista convidada da entrevista e coautora do Protagonistas, reconhece esse traço no próprio processo de escrita. Para ela, Bianca atua antes da revisão formal, ajudando cada autora a compreender o que deseja contar e como aquela experiência pode ganhar forma literária. “Tenho uma conexão com a Bianca exatamente pelo livro Protagonistas. Ela faz essa escuta ativa de cada uma das autoras para entender o que cada mulher quer contar e também para orientar, sugerir algo no momento da escrita ou até no título. Foi isso que senti no meu processo, essa escuta de entender o que eu queria contar e fazer aquilo se tornar realidade na escrita. É uma característica mesmo”, ressalta.

A conversa apresenta, portanto, uma escritora e empreendedora formada no contato direto com pessoas. É desse lugar que Bianca conduz sua atuação na SerMente Editorial, transformando escuta, orientação e produção de livros em um caminho para que narrativas reais encontrem forma literária. Sua trajetória ajuda a entender como uma lacuna do mercado se transformou em espaço para autoras que precisavam ser ouvidas antes de serem publicadas.

A lacuna que fez nascer a SerMente Editorial

Bianca Brandão - Protagonistas
(Reprodução/Instagram)

A SerMente Editorial nasceu antes de tudo, de uma inquietação. Dez anos atrás, Bianca Brandão vivia uma fase de transição, e sem um caminho profissional definido naquele momento, voltou-se para algo que já fazia parte de sua vida de maneira constante. A leitura, que até então ocupava um lugar íntimo e cotidiano, passou a ser também uma forma de reconstrução profissional.

Foi assim que surgiu o blog Mamãe Tá Lendo, acompanhado de um perfil de leitura nas redes sociais. Em pouco tempo, ela passou a circular por eventos literários, feiras e lançamentos, aproximando-se de editoras, autores e leitores em uma fase em que o mercado de livros começava a entender com mais força o peso das comunidades digitais. “Eu estava numa transição de carreira, mudança de casa, mudança de cidade, filhos pequenos, e não sabia exatamente o que fazer. Queria criar alguma coisa. Sempre fui leitora voraz, sempre gostei muito de livros, então criei um blog e um Instagram de leitura para compartilhar minhas leituras com outras pessoas. Fui uma das primeiras influenciadoras do mundo literário. O nome do blog era Mamãe Tá Lendo, porque, quando eu estava lendo, as crianças me chamavam e eu dizia, calma, a mamãe está lendo. Acabou virando o nome”, conta.

A entrada nesse ambiente foi rápida. Bianca diz que se encantou pelo setor, passou a frequentar praticamente todos os eventos que conseguia acompanhar e fechou parcerias com diversas editoras. A experiência mostrou que havia público, circulação e desejo de conversa em torno dos livros, mas também revelou um ponto sensível, muitos autores buscavam espaço e orientação, enquanto o caminho tradicional de publicação seguia restrito, caro ou dependente de reconhecimento prévio.

Antes da SerMente, Bianca criou ainda, o Marketing Entre Linhas, uma agência de consultoria de marketing digital voltada para editoras e escritores. Esse passo foi decisivo porque a colocou dentro das dores práticas de quem tentava publicar, divulgar e sustentar um projeto literário. Havia autores com ideias, histórias e disposição, mas sem acesso a uma estrutura que os acompanhasse de perto, do posicionamento à produção editorial. “Eu amei o mercado. Comecei a frequentar todos os eventos que você possa imaginar, feiras, lançamentos, e fechei parcerias com muitas editoras. Entendi que era esse mercado em que queria trabalhar”, afirma.

A lacuna que Bianca identificou era concreta. No modelo tradicional, uma boa ideia nem sempre bastava. O autor precisava chegar com nome consolidado, processo estruturado ou alguém disposto a patrocinar o projeto. Para quem vinha de fora desse circuito, a porta de entrada podia ser estreita demais. A SerMente nasce, então, com a proposta de aproximar produção editorial e autoria, criando uma relação em que o livro seja pensado com o autor, e não apenas entregue a ele como etapa final de um serviço.

Ao perceber que muitos autores precisavam de acompanhamento antes de chegar ao livro pronto, Bianca encontrou a base da SerMente Editorial. “Foi aí que a SerMente começou a nascer. A gente via que, quando o autor tinha uma ideia e levava para as editoras, nem sempre o projeto era aceito. Às vezes porque era preciso ter um nome muito colocado no mercado, às vezes porque já precisava chegar com um grande processo ou com alguém disposto a patrocinar. Eu vi essa necessidade, e foi aí que a SerMente nasceu”, explica.

Com essa estrutura, a editora passou a atuar no espaço entre a vontade de publicar e a concretização do livro. O trabalho envolve orientação, posicionamento, produção, revisão, projeto editorial e acompanhamento humano, mas sua raiz está em uma percepção simples. Há histórias que não chegam ao leitor porque faltam caminhos de acesso, repertório técnico e alguém disposto a organizar o percurso. A SerMente Editorial surge justamente nessa passagem, transformando o desejo de escrever em projeto possível.

Protagonistas nasceu de uma promessa entre mulheres

Ana Bakos - Bianca Brandão - Protagonistas
(Reprodução/Instagram)

Antes de reunir dezenas de autoras em torno de histórias reais, a coleção Protagonistas nasceu de uma conversa entre duas mulheres que já tinham dividido escrita, amizade e mercado editorial. Bianca Brandão havia conhecido Ana Bakos em um projeto colaborativo anterior, Mulheres Inspiram Mulheres, publicado em 2019 pela SerMente Editorial. A experiência aproximou as duas e abriu caminho para uma parceria que, anos depois, ganharia outro peso. Em 2024, Ana procurou Bianca com uma ideia clara. Queria criar um livro sobre mulheres, mas não desejava repetir um modelo previsível de relatos parecidos, filtrados por um mesmo perfil social ou profissional.

A proposta era construir uma obra capaz de reunir diversidade de trajetórias, origens, idades, raças, territórios e vivências. Bianca aceitou o convite e começou o planejamento com Ana, selecionando autoras, organizando possibilidades e desenhando uma curadoria que buscasse representatividade real. O projeto ainda estava em fase inicial quando uma ruptura inesperada mudou completamente o sentido da publicação. Em uma noite, Bianca conversou com Ana sobre novas participantes. Na manhã seguinte, recebeu a notícia de sua morte. “Em outubro de 2024, já tínhamos selecionado algumas autoras, porque fazemos uma curadoria legal. Em dezembro, conversei com a Ana à noite e contei que tinha conseguido mais três mulheres incríveis para o projeto. Ela ficou animada, mas disse que não estava se sentindo muito bem. Na manhã seguinte, tive a notícia de que ela faleceu”, conta.

A morte de Ana poderia ter encerrado o projeto antes mesmo de sua primeira edição. Para Bianca, porém, a perda da amiga transformou a coleção em compromisso. O livro passou de uma simples ideia editorial para um compromisso real de responsabilidade afetiva. “Para mim foi um choque muito forte, porque fiquei sabendo pelo grupo que nós tínhamos em comum. Eu tinha falado com ela às oito horas da noite, e ela faleceu às duas da manhã. Era uma amiga, a gente se via toda semana, éramos vizinhas. Isso ficou na minha cabeça. Eu conto um pouco disso no livro, porque no início eu não consegui chorar. Quando realmente chorei, depois de alguns dias, veio a certeza de que deveria continuar o projeto, como amiga, como editora e como forma de trazer um legado para o que a Ana desejava. Soltei no grupo das autoras que já estavam selecionadas que daria continuidade ao projeto e que gostaria muito que ele desse certo, também como uma forma de carinho para ela”, afirma.

A partir desse momento, o Protagonistas cresceu em outra escala. A jornalista Christiane Pelajo entrou na organização ao lado de Bianca e abraçou a construção do livro. O que inicialmente poderia reunir 15 ou 20 mulheres chegou a 65 autoras no primeiro volume. A obra ganhou repercussão, circulação em mídia e retorno de leitoras que passaram a reconhecer nas páginas experiências próximas das próprias vidas.

Bianca destaca que a curadoria não buscava montar uma vitrine homogênea de conquistas. A proposta era reunir recortes de vida capazes de inspirar outras mulheres e também de fazer com que homens conhecessem histórias que muitas vezes não atravessam o espaço público. Ansiedade, felicidade, empreendedorismo, mudança de carreira, maternidade, vulnerabilidade, reinvenção e pertencimento passam a dividir o mesmo livro sem precisar caber em uma narrativa única. “O primeiro livro tem 65 mulheres e deu muito certo. A gente saiu em muita mídia e recebeu feedbacks muito fortes sobre o que as histórias representam. Temos mulheres pretas, brancas, LGBT, ribeirinhas, indígenas. É um leque de mulheres reais. Quando converso com elas, peço que me contem a história inteira, mas, para o livro, quero que escolham um recorte da vida que possa inspirar outras mulheres ou até fazer com que os homens as conheçam. Cada uma tem um recorte para contar. Não são histórias só tristes, não é esse tipo de livro. Temos histórias sobre ansiedade, felicidade, empreendedorismo, mudança de carreira. É muito amplo”, explica.

Essa amplitude também foi percebida nos encontros entre as próprias autoras. Bianca conta que, durante lives realizadas com participantes do livro, muitas ainda não conheciam as histórias umas das outras. Quando começavam a conversar, surgiam conexões inesperadas entre experiências aparentemente distantes. Mães atípicas, mulheres recém-separadas, profissionais em transição, empreendedoras e autoras em diferentes fases de vida encontravam pontos de identificação sem que isso tivesse sido combinado previamente.

O Protagonistas nasceu, assim, da decisão de levar adiante uma ideia interrompida pela perda, mas ganhou força ao revelar uma demanda maior do que o projeto inicial previa. A promessa feita entre Bianca e Ana se transformou em livro, rede de autoras, circulação pública e reconhecimento de histórias que poderiam permanecer restritas à memória individual.

Coordenar 93 autoras também é gestão

Protagonistas - Volume 2
(Reprodução/Instagram)

Depois da repercussão do primeiro volume, a coleção Protagonistas entrou em uma escala que exige método. O segundo livro reúne 93 coautoras e uma operação editorial complexa, com agenda, prazos, revisão, preparação de texto, projeto gráfico, produção, contato permanente e administração de expectativas. O que para o leitor chega como uma obra coletiva pronta passa antes por uma engrenagem de bastidores que precisa funcionar sem apagar a identidade de cada autora.

A dimensão do projeto chama atenção porque publicar uma obra colaborativa não significa apenas juntar capítulos em sequência. Cada mulher chega com uma rotina, um tempo emocional, uma forma de escrever e um nível diferente de familiaridade com o mercado editorial. Algumas já entendem a dinâmica de produção de um livro. Outras estão diante da primeira experiência de autoria. Entre o convite, a escolha do recorte, a entrega do texto e a aprovação final, há uma condução que mistura gestão de projeto e acompanhamento humano.

Bianca Brandão reconhece que, curiosamente, consegue lidar com a agenda de dezenas de coautoras com mais naturalidade do que em alguns trabalhos individuais. A razão, segundo ela, está na forma como organiza o contato com o grupo e na disposição para acompanhar as autoras dentro das possibilidades de cada uma. “Às vezes eu consigo adequar a agenda com essa quantidade de coautoras melhor do que com um único autor. Faço um trabalho de agenda online com as autoras e com o grupo. Às vezes, todas resolvem me responder ao mesmo tempo e eu pareço que vou ficar maluquinha, mas é muito fácil lidar. Acho que é exatamente porque eu sei lidar com pessoas, tenho empatia e sei ouvir. Nesse sentido, a agenda não é problema para mim. A gente conversa a hora que for. Entendo que elas têm os trabalhos delas, então muitas vezes algumas precisam entrar em contato comigo muito tarde da noite, e eu respondo sem problema”, afirma.

Bianca Brandão - Protagonistas
(Divulgação)

Esse funcionamento depende de uma divisão clara dentro da SerMente Editorial. Bianca não conduz o processo sozinha. “Temos um cronograma muito bacana dentro da editora, um conjunto de serviços e duas sócias maravilhosas. A Lívia, que mora aí no ABC, é uma das minhas sócias e faz toda a parte de revisão e preparação de texto. A Tati faz a parte de projeto editorial e produção gráfica. Eu fico com esse contato humano com as autoras. A gente se encaixa, e os nossos prestadores de serviços também vão se completando. No fim, tudo se encaixa”, explica.

A leveza com que Bianca descreve esse processo não elimina a dimensão do trabalho. Ao contrário, revela um tipo de gestão que depende menos de discurso rígido e mais de presença constante. A produção de uma obra com 93 mulheres exige método para que o projeto não se perca em mensagens, versões, atrasos e aprovações. Exige também sensibilidade para que a padronização editorial não transforme relatos pessoais em textos sem singularidade. O desafio é organizar a obra sem neutralizar as vozes que justificam sua existência. Bianca descreve o processo de forma simples, a partir de uma relação afetiva com o trabalho. “Eu trabalho com muito amor e não sei explicar, então flui de uma maneira muito fácil. Ontem mesmo, quando mandei o arquivo para a gráfica, porque o segundo livro foi agora para a gráfica, pensei que foram 93 autoras e deu tudo certo. Olhei aquilo e achei lindo”, diz.

A operação editorial do Protagonistas mostra que dar voz a muitas mulheres não depende apenas de convite. Depende de método para transformar dezenas de percursos individuais em um livro coeso, sem reduzir a potência de cada experiência. No segundo volume, a SerMente Editorial leva essa proposta a uma escala maior e transforma a produção colaborativa em um exercício de organização, escuta, revisão e presença. O resultado é uma obra que carrega o peso de 93 trajetórias e a responsabilidade de fazer cada uma delas chegar ao leitor com cuidado.

Curadoria separa publicação de simples venda

Bianca Brandão - Protagonistas
(Reprodução/Instagram)

O crescimento dos livros colaborativos abriu espaço para autores que dificilmente encontrariam entrada no modelo tradicional de publicação. Ao mesmo tempo, esse formato também provoca uma pergunta incômoda para o mercado editorial. Quando muitas pessoas participam financeiramente de uma obra, onde termina a democratização do acesso e onde começa a mercantilização do desejo de publicar? A questão ganha força em projetos de coautoria porque o livro passa a depender de seleção, edição, organização e responsabilidade editorial para não virar apenas uma soma de capítulos reunidos pelo pagamento de participantes.

A provocação é relevante porque o livro colaborativo pode reduzir custos para autoras, ampliar redes e abrir portas, mas também corre o risco de flexibilizar critérios quando a editora prioriza volume. Bianca reconhece o risco, mas defende que a diferença está no modo como o projeto é conduzido. Para ela, o problema não está na coautoria em si, e sim na ausência de qualidade, critério e acompanhamento. “Eu acho que mercantiliza a partir do momento em que você não tem preocupação com a qualidade do produto, porque o livro é um produto. Quando existe preocupação com o que vai ser entregue ao cliente, isso se torna diferenciado, e aí entra a curadoria. A gente recebe indicações com alguns spoilers das histórias dessas autoras e conversa para entender se faz sentido para a pessoa, para a editora e para o livro. Ninguém entra por vontade própria no Protagonistas. Não é alguém que liga para a SerMente e diz que quer participar. Existe esse caminho de curadoria, esse trabalho bem feito, até chegar aos textos e entregar um bom produto. Nesse caso, você não está simplesmente mercantilizando”, afirma.

Aliás, Rita Santos, jornalista convidada da entrevista e coautora do Protagonistas, resume uma inquietação recorrente entre mulheres que recebem o convite para escrever. A dúvida inicial costuma ser sobre a existência de algo relevante a dizer. Para ela, o processo mostra justamente o contrário. “Quando a gente recebe o convite, quem não é do mercado editorial fica com aquela pergunta que todo mundo faz, se tem alguma coisa para contar. E todas nós temos algo para contar e para inspirar. Quando começamos a ler o recorte da história de uma autora, a gente se enxerga ali de alguma forma. Não tem como ler essas protagonistas e não se identificar com alguma delas, não se inspirar em alguma delas”, afirma.

Publicar histórias reais exige método editorial, não apenas entusiasmo com trajetórias inspiradoras. Uma obra coletiva precisa selecionar participantes, orientar recortes, preparar textos, revisar, padronizar, cuidar do ritmo da leitura e garantir que o resultado final tenha unidade. Sem esse processo, a coautoria pode se tornar um atalho comercial. Com curadoria, ganha outra função, porque permite que diferentes vozes ocupem o mesmo projeto sem perder singularidade.

Bianca também lembra que a diluição dos custos facilita a entrada de autoras, mas não diminui o trabalho da editora. Pelo contrário, uma obra de centenas de páginas amplia a complexidade de produção. “Para os autores, esse formato ajuda, porque se você pensar, estamos falando de um livro de 600 páginas. Um autor hoje não escreve 600 páginas sozinho. Na parte de produção, para a editora, o trabalho é maior. Para mim, é um trabalho muito gratificante, porque gosto muito dos livros de coautoria. Eu amo meus autores particulares também, mas amo fazer livros de coautoria”, diz.

O debate ganha outra camada quando a expressão protagonismo feminino entra em cena. O termo já circula com força no marketing corporativo, em campanhas institucionais e em projetos culturais, o que aumenta o risco de desgaste. Quando repetida sem consequência prática, a ideia pode perder força e virar uma etiqueta confortável. Para Bianca, o caminho para evitar essa banalização está em transformar discurso em comunidade. “Quando você dá oportunidade para outras mulheres mostrarem sua história, mostrarem seu trabalho e dividirem isso com outras pessoas, vira uma comunidade. A gente vê isso no nosso grupo, com pessoas se ajudando e se apoiando. Não estamos falando só daquele discurso de sororidade. Estamos falando de algo real, de mulheres que se apoiam, que ajudam quando uma vai participar de uma votação ou precisa de apoio em alguma situação. A partir do momento em que saímos da teoria e vemos isso na prática, não tem como virar banalizado”, explica.

A sustentação comercial do livro também passa pelo desafio de circulação, afinal o Brasil é um país de poucos leitores, livros caros e livrarias fechando portas. Bianca fala do assunto sem romantizar a dificuldade. Para ela, levar um livro ao público exige insistência, canais diferentes e estratégias combinadas. “É um trabalho de formiga, muito suado. É tráfego pago, site, Amazon, livraria, distribuidora. A gente faz um grande trabalho para que isso chegue ao máximo possível de mãos, mas é muito complicado, porque os livros hoje são caros para toda a população. Não tem meia culpa nisso. Quando vemos a quantidade de impostos e o preço que chega ao consumidor final, acredito que isso influencia na questão de termos poucos leitores. Então procuramos fazer coisas acessíveis. Paralelamente ao livro, lançamos um e-book com preço mais acessível. Quando sai o segundo, barateamos o primeiro para tentar incentivar de alguma forma. A SerMente está sempre procurando fazer o melhor possível para chegar a mais leitores”, afirma.

Além da força e da responsabilidade que carrega, Protagonistas é também um negócio editorial, com custo, preço, distribuição, curadoria e responsabilidade sobre o que entrega ao público. A força da coleção está justamente em sustentar um processo que transforme participação em obra, obra em circulação e circulação em comunidade.

Toda história precisa de escuta antes de virar literatura

Bianca Brandão - Protagonistas
(Reprodução/Instagram)

A coleção Protagonistas chega ao segundo volume com uma ideia que Bianca Brandão defende sem hesitação. Nenhuma história se repete quando nasce de uma vida real. Mesmo que temas pareçam próximos, cada autora carrega uma combinação própria de origem, tempo, perda, trabalho, família, medo, coragem e desejo de reconhecimento. O desafio editorial está em transformar essa matéria íntima em texto, sem apagar a voz de quem escreve nem reduzir a experiência a uma fórmula de superação.

Para Bianca, a continuidade do projeto se justifica justamente por essa variedade. O primeiro volume reuniu 65 mulheres. O segundo chegou a 93 coautoras. A dimensão numérica chama atenção, mas a permanência da coleção depende de algo anterior ao tamanho da obra. “Eu quero dar continuidade ao projeto porque tem público para isso e tem mais histórias para serem contadas. Por mais que alguém diga que vai repetir, não repete. Não tem história repetida. As histórias podem parecer próximas de alguma forma, mas cada uma é individual. Às vezes, uma história não faz sentido para você naquele momento, mas, se você ler depois, ela pode fazer sentido. O grande diferencial desse livro é que nós nos preocupamos de verdade para que toda mulher tenha voz”, afirma.

Essa preocupação levou a equipe a tratar diversidade como parte do processo editorial. Bianca conta que a construção do livro passa por uma observação cuidadosa dos perfis reunidos. A intenção é evitar que o Protagonistas represente apenas um tipo de mulher, uma classe social, uma trajetória profissional ou uma forma de sucesso. “Não é um livro que tem só um padrão de mulher. Nós nos preocupamos com isso e fazemos planilha para ver se está faltando algum perfil. A Liliane, que é uma das organizadoras, é especialista em diversidade e sempre nos alerta sobre a lista. Ela olha e diz que está faltando determinado perfil de mulher, que precisamos complementar, que está faltando outro tipo de história. Então, é um livro feito para chegar a todas as mulheres. Aos homens também, claro. O futuro do Protagonistas é ter continuidade, porque existe um movimento sendo criado em torno disso”, explica.

Esse movimento começa a ganhar forma fora das páginas. Bianca cita a criação do Conexão Protagonistas, grupo pensado para levar as vozes das autoras a palcos, palestras e novos espaços de circulação. A proposta amplia o alcance da coleção e transforma a publicação em ponto de partida para encontros, debates e redes de apoio. O livro organiza as histórias, mas a presença pública das autoras dá sequência ao trabalho iniciado pela escrita.

Pré-venda e Bienal do Livro

Uma obra construída por 93 mulheres merece circular, encontrar leitores e ocupar espaços à altura da força dessas histórias. O Volume 2 do Protagonistas já está em pré-venda pelo site livroprotagonistas.com.br e quem acompanha o ABCdoABC tem uma condição especial. Na compra, basta usar o cupom PREVENDA para garantir 10% de desconto.

O pré-lançamento oficial será realizado no dia 7 de setembro, na Bienal do Livro, dentro do estande da Editora Cabana, parceira da SerMente Editorial. O encontro acontece na Rua K28 da Bienal, a partir das 14h, com autoras autografando até as 20h. Para o público, é a oportunidade de conhecer de perto as mulheres por trás da obra, conversar com as coautoras e acompanhar um projeto que transforma experiências reais em literatura compartilhada.

A agenda também inclui o lançamento oficial do livro no dia 9 de setembro, às 19h, na livraria Estante Virtual da Galeria Magalu, no Conjunto Nacional, na Avenida Paulista. O prefácio da obra, aliás, foi escrito por Luiza Helena Trajano, presença simbólica para uma publicação que reúne mulheres de diferentes trajetórias em torno da escrita, da memória e da circulação pública de suas histórias.

Equipe e convidados do ABC Cast Conexões

Bianca Brandão - Protagonistas - ABC Cast Conexões
Bianca Brandão, Thiago Quirino e Rita Santos (Reprodução/ABCdoABC)

A entrevista com Bianca Brandão, sócia da SerMente Editorial, foi conduzida por Thiago Quirino e contou com a participação de Rita Santos, jornalista, especialista em comunicação corporativa e assessoria de imprensa, vice-presidente do Comitê de Mídia do Prêmio ABCCOM 2026 e uma das coautoras de Protagonistas 2. A produção e checagem de dados ficaram a cargo de Edvaldo Barone, editor-chefe do ABCdoABC. A direção geral é de Alex Faria, fundador do portal, e a edição do episódio leva a assinatura de Rodrigo Rodrigues.

Confira a entrevista completa com Bianca Brandão:

Além do canal no YouTube, o episódio com Bianca Brandão pode ser acessado pelo Amazon MusicSpotifyDeezer e também no Apple Podcasts.

  • Publicado: 15/08/2026 08:00
  • Alterado: 15/08/2026 08:00
  • Autor: Edvaldo Barone
  • Fonte: ABCdoABC