Projeto Monte Leal transforma luto em futebol em Sorocaba
Criado por mãe que perdeu o filho, projeto Monte Leal oferece futebol gratuito e amparo social para 60 jovens da periferia de Sorocaba
- Publicado: 31/05/2026 09:56
- Alterado: 31/05/2026 09:56
- Autor: Daniela Ferreira
- Fonte: Assessoria
No horizonte de poeira do bairro São Bento, na periferia de Sorocaba, o som do apito divide espaço com o barulho da rotina urbana. Em um campinho de terra batida, 60 meninos com idades entre 5 e 17 anos buscam muito mais do que o domínio da bola; buscam uma alternativa à vulnerabilidade social. O projeto Monte Leal, idealizado por Maria Aparecida Campos de Paula, a Cidinha, é hoje o principal eixo de convivência comunitária da região.
A iniciativa, que completa quase uma década, nasceu de forma orgânica. O que começou como um treino recreativo para quatro crianças em um terreno baldio, sob a orientação do filho mais velho de Cidinha, sobreviveu à interrupção da pandemia e expandiu-se. Atualmente, os treinos são realizados de segunda a quarta-feira, com divisões rigorosas por faixa etária para evitar acidentes entre os menores e os adolescentes.
O luto como motor social

A motivação de Cidinha para manter a escolinha gratuita, no entanto, está enraizada em uma tragédia pessoal ocorrida há oito anos. Seu filho caçula, uma promessa do futebol que havia acabado de ser aprovado na avaliação técnica de um grande clube, morreu aos 14 anos, atropelado por um motorista embriagado. O projeto social surgiu como uma ferramenta de ressignificação da perda.
“Deus me permitiu ter esse consolo na minha tristeza”, relata a idealizadora. Para ela, o acolhimento dos jovens do bairro preencheu o vazio deixado pelo filho. No projeto, Cidinha exerce um papel que mistura a gestão administrativa com o suporte emocional, oferecendo escuta e validação a jovens que, muitas vezes, encontram no esporte o único espaço de lazer e pertencimento.
Desafios da infraestrutura

Sem uma sede própria ou campo gramado, o Monte Leal sobrevive da mobilização voluntária e de parcerias pontuais. O filho de Cidinha atua como instrutor sem remuneração e a comunidade local auxilia na organização. Recentemente, o projeto passou a contar com o apoio do Programa Pequenos de Raça, do Instituto Adimax, que supre a demanda por uniformes para competições.
Para os gestores que acompanham a iniciativa, o foco do futebol no São Bento ultrapassa a técnica esportiva. O objetivo declarado por Cidinha é a formação de caráter e a prevenção social. Ela ressalta que, embora o sonho da maioria seja o profissionalismo, a meta real do projeto é garantir que esses jovens se tornem “homens de bem” e trabalhadores, independentemente da carreira que escolherem seguir.
O papel do esporte na periferia
A gratuidade é a regra absoluta do Monte Leal, garantindo que o fator econômico não seja um impeditivo para a prática esportiva. Em uma região onde as opções de lazer são escassas, a escolinha funciona como um ponto de equilíbrio. Entre um drible e outro, Cidinha monitora o crescimento de cada aluno, transformando o luto pessoal em uma rede de proteção para dezenas de famílias sorocabanas.