Prêmio Solano Trindade celebra dramaturgia negra em SP
Autores afrodescendentes ocupam a cena literária enquanto o Prêmio Solano Trindade lança coletânea inédita com distribuição gratuita no Campus Brás
- Publicado: 06/11/2026 10:45
- Alterado: 06/11/2026 10:50
- Autor: Leonardo Nogueira
O tablado nacional ganha novos registros impressos para preservar memórias que o tempo insistia em apagar. O Prêmio Solano Trindade realiza sua sétima cerimônia oficial no próximo dia 18 de novembro, às 19h, apresentando ao público o volume 7 da coletânea Eternizar em Escrita Preta. O encontro acontece na sede da SP Escola Superior de Teatro, no bairro do Brás, entregando 500 exemplares físicos sem custos e liberando o acervo digital completo no dia seguinte pelo portal oficial da instituição.
A iniciativa da Associação dos Artistas Amigos da Praça (ADAAP) em parceria com a Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas rompe a invisibilidade de criadores fora dos grandes conglomerados editoriais. O projeto selecionou textos de Bruna Geordanna Matos, Tom Machado e Veec Santos, unindo diferentes visões regionais de São Paulo, Bahia e Minas Gerais sob a chancela do Selo Lucias, com projeto gráfico assinado pela pesquisadora visual baiana Ludimila Lima.
A titular da pasta estadual de Cultura, Marilia Marton, pontuou a importância da circulação dessas narrativas nas salas de ensaio de todo o território brasileiro:
“A história do teatro brasileiro se consolida na multiplicidade de suas vozes, e o Prêmio Solano Trindade nasce justamente para criar oportunidades e garantir que essa diversidade ocupe palcos e publicações. Em sua sétima edição, reafirmamos o compromisso da Secretaria com a valorização da criação artística e da cena cultural. Ao publicar essas três obras por meio da SP Escola Superior de Teatro, não apenas celebramos o talento desses autores, mas asseguramos que seus textos ganhem fôlego, circulação e alcancem novos públicos, diretores e pesquisadores em todo o país.”
As páginas impressas garantem a permanência de espetáculos que costumam desaparecer após as temporadas nos tablados. Ao transformar a fala efêmera do palco em patrimônio bibliográfico, o projeto alimenta pesquisas acadêmicas e inspira montagens inéditas nas escolas de artes cênicas.
Obras inéditas e diversidade regional no palco

A dramaturgia contemporânea ganha frescor ao transferir o foco narrativo para quem vive os dilemas da negritude na primeira pessoa. O diretor-executivo da ADAAP, Ivam Cabral, ressaltou que a escolha de novas vozes desconstrói a hegemonia do olhar colonial na arte nacional:
“A primeira conquista foi abrir uma porta. E, quando abrimos uma porta, não sabemos exatamente quem vai entrar, que histórias vai trazer consigo, que outros caminhos serão possíveis. Por isso é fundamental a questão da acessibilidade, que sempre gosto de enfatizar, um conceito crucial para o sistema pedagógico da SP Escola Superior de Teatro, e que luto para que seja a opção para substituir o termo ‘inclusão social’, carregado de preconceitos e de alcance menor.”
A mudança estrutural surge a partir de quem detém o poder de escrever as próprias falas cênicas. A coletânea dá voz direta aos autores em três textos que abordam ancestralidade, burocracia estatal e o enfrentamento ao preconceito:
- Etiqueta, da escritora e advogada paulistana Bruna Geordanna Matos, que vasculha traumas raciais e memórias familiares;
- Mãe Stella de Oxossi: Aquilo que não se registra o tempo apaga, do mestre baiano Tom Machado, reverenciando a célebre ialorixá;
- Memórias, do iluminador e ator mineiro Veec Santos, que investiga a busca por dignidade de um cidadão perante o INSS.
A abrangência territorial confirma a vitalidade das artes dramáticas longe do eixo tradicional de grandes produções comerciais. As produções selecionadas pelo Prêmio Solano Trindade ampliam o mapeamento que já catalogou 21 textos de estados como Sergipe, Goiás, Mato Grosso do Sul, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro nos últimos seis anos.
Legado histórico e preservação editorial permanente

A honraria reverencia a obra imortal de Solano Trindade (1908–1974), dramaturgo, folclorista e poeta pernambucano que fundou o Teatro Popular Brasileiro na década de 1950. Sua trajetória pioneira aproximou as manifestações das periferias operárias dos palcos formais, rompendo a barreira que afastava estudantes e trabalhadores das galerias teatrais.
O acervo do Selo Lucias homenageia a memória da gestora e jornalista cultural Lucia Camargo, mantendo publicações interdisciplinares abertas ao público leitor. A leitura digital gratuita assegura que companhias amadoras e trupes universitárias acessem os textos sem qualquer barreira econômica:
“No teatro, temos uma relação curiosa com o tempo. Um espetáculo acontece e desaparece. A publicação cria outra possibilidade de permanência: o livro atravessa cidades, gerações, salas de aula. Há também uma dimensão política. Um acervo não é apenas uma coleção de livros; é uma maneira de afirmar que determinadas experiências merecem ser preservadas, estudadas e transmitidas.”
— Ivam Cabral, diretor-executivo da ADAAP.
A programação da noite no Brás contará com acolhimento cênico realizado pela Zózima Trupe, que conduzirá o público da Estação Brás da CPTM até a entrada da faculdade com performances dentro do transporte. Essa integração física com a malha ferroviária aproxima a rotina dos passageiros do lançamento literário.
A consolidação de novos repertórios protege a literatura teatral do esquecimento crônico. Ao imprimir e disponibilizar as peças gratuitamente para a comunidade acadêmica, o Prêmio Solano Trindade garante que a nova geração de dramaturgos negros dite os rumos do teatro brasileiro contemporâneo com voz própria e autonomia estética.