População de Santos reclama de demora no transporte público
Moradores relatam intervalos superiores a uma hora em linhas de ônibus municipais e apontam atrasos para trabalhadores e estudantes; CET-Santos foi questionada
- Publicado: 28/08/2026 16:46
- Alterado: 28/08/2026 16:49
- Autor: Gabriel de Jesus
Para quem depende do transporte público todos os dias, o relógio começa a contar antes mesmo de o ônibus chegar. É preciso calcular o horário de saída de casa, o tempo até o ponto e, principalmente, quanto tempo será necessário esperar pelo próximo veículo. Em alguns bairros de Santos, passageiros relatam que essa conta tem ficado cada vez mais difícil.
Entre as principais reclamações estão as linhas 153 e 184, que atendem moradores da Zona Noroeste e apresentam, segundo os relatos recebidos pela reportagem, intervalos que podem chegar a uma hora. A demora afeta principalmente quem depende do ônibus para trabalhar, estudar ou chegar a serviços de saúde.
A linha 153 liga o Rádio Clube, na Zona Noroeste, ao José Menino. Já a 184 também parte da Zona Noroeste, com destino à Avenida Conselheiro Nébias, uma das principais vias comerciais da cidade.
Uma hora esperando pelo ônibus
Os horários de saída da linha 153 a partir do Rádio Clube, em Santos, ajudam a dimensionar a reclamação. Conforme os horários informados à reportagem, os ônibus partem às 7h59, 8h59, 9h59, 10h51, 11h59 e 13h07.
Entre algumas partidas, o intervalo chega próximo de uma hora. Para quem está no ponto esperando, isso pode significar perder uma aula, chegar atrasado ao trabalho ou precisar sair de casa muito antes do necessário para tentar compensar uma eventual demora.
Para ilustrar a rotina descrita por passageiros, imagine a situação de Kátia, que trabalha na região da Santa Casa e depende do ônibus para chegar ao serviço. Em um dia normal, sair alguns minutos depois de casa não deveria representar um grande problema. Mas, quando o próximo veículo pode demorar quase uma hora, qualquer imprevisto passa a comprometer todo o deslocamento.
A lógica se repete na volta. Depois de terminar o expediente, Kátia, que trabalha no bairro do Boqueirão, precisa novamente considerar o tempo até o próximo ônibus antes de conseguir retornar para a Zona Noroeste.
O problema, nesse caso, não está apenas na duração da viagem, mas na falta de previsibilidade. O passageiro sabe qual linha precisa pegar, mas não necessariamente sabe quanto tempo ficará esperando.
Linha 153 terá novo itinerário a partir deste sábado
As reclamações sobre a linha 153 ocorrem justamente em um momento de mudança no serviço. A Prefeitura de Santos anunciou que o itinerário da linha será alterado a partir deste sábado (29), com a inclusão de novos trechos e cinco pontos de parada na Avenida Brigadeiro Faria Lima. A mudança busca ampliar o atendimento aos passageiros da Zona Noroeste que seguem em direção à orla.
Com a alteração, o trajeto de ida passa a utilizar novos trechos da Rua Vereador Álvaro Guimarães, Avenida Brigadeiro Faria Lima e Avenida Hugo Maia. A volta permanece com o itinerário atual. A Avenida Brigadeiro Faria Lima também passa a integrar o percurso da linha, com cinco novos pontos para embarque e desembarque.
A mudança acontece enquanto passageiros relatam problemas relacionados à frequência dos ônibus. Os horários de saída informados à reportagem para o trecho a partir do Rádio Clube apresentam intervalos que chegam próximo de uma hora em determinados períodos, o que tem gerado reclamações de usuários que dependem do transporte público diariamente.
Linha 184 também é alvo de reclamações

A situação relatada por passageiros também envolve a linha 184. Os horários informados são aproximadamente 6h21, 7h06 e 7h55, com intervalos de cerca de 45 a 50 minutos entre os ônibus.
E a espera não seria o único problema. Segundo as reclamações recebidas, o próprio percurso estaria levando mais tempo do que o esperado. A viagem, que poderia ser realizada em aproximadamente 40 minutos considerando a distância, estaria levando cerca de uma hora.
Na prática, o passageiro enfrenta duas etapas de espera: primeiro, precisa aguardar o ônibus; depois, permanece dentro do veículo por um período maior do que o previsto.
Para um trabalhador que utiliza o transporte diariamente, a diferença se acumula ao longo da semana.
Carlos, 42 anos, morador da Areia Branca, relata que precisa organizar o horário de saída considerando não apenas o tempo do trajeto, mas também a possibilidade de ficar quase uma hora esperando pelo ônibus.
Nesse cenário, chegar ao ponto alguns minutos atrasado pode significar perder o veículo e esperar pelo próximo. O resultado é um deslocamento que deixa de ser calculado apenas pela distância entre dois bairros e passa a depender do intervalo entre os veículos.
O problema também aparece durante o trajeto
As reclamações não estão relacionadas somente à frequência dos ônibus. Passageiros também apontam problemas de trânsito e circulação que aumentam o tempo das viagens. Para Leonardo Jimenes, a demora também é percebida no deslocamento pela Avenida Conselheiro Nébias. Ele relata que o trajeto pode sofrer com semáforos, circulação do VLT e pontos específicos de retenção em Santos.
“Só na Conselheiro, para ir da 7 de Setembro até a praia, o ônibus pode levar mais de 20 minutos dependendo da boa vontade dos semáforos, VLT e os problemas na altura do 730 da Conselheiro, 754 e do Carrefour em diante”, afirma.
Segundo ele, outro ponto de retenção está próximo à região da praia. “O semáforo da esquina da praia, se a Conselheiro estiver carregada, leva facilmente 5-10 [minutos] para conseguir chegar na praia”, relata.
Na avaliação de Leonardo, parte da demora está relacionada à circulação viária, mas a empresa responsável pelo transporte em Santos também teria sua parcela de responsabilidade. “Embora a culpa disso seja da CET, a Piracicabana também tem sua parcela”, afirma.
O relato acrescenta outra camada à reclamação dos passageiros. Mesmo quando o intervalo entre os ônibus está dentro do esperado, o tempo de viagem pode aumentar por causa das condições do trânsito.
Outras linhas também são citadas
Embora as linhas 153 e 184 estejam entre as mais mencionadas nas reclamações recebidas pela reportagem, os relatos não se restringem a elas. Também foram citadas as linhas 80, 5, 53, 25 e 42, com queixas relacionadas principalmente à demora e aos intervalos entre os ônibus.
O conjunto das reclamações aponta para uma insatisfação que ultrapassa uma única linha. Para quem utiliza transporte coletivo diariamente em Santos, não basta que determinado itinerário exista: é necessário que o serviço tenha frequência e previsibilidade suficientes para que o passageiro consiga organizar sua rotina.
A diferença pode parecer pequena para quem utiliza carro particular ou possui outras opções de deslocamento. Para quem depende exclusivamente do ônibus, porém, esperar 20, 40 ou 60 minutos muda completamente o tempo necessário para chegar ao destino.
CET-Santos foi questionada
O ABCdoABC enviou questionamentos à CET-Santos sobre os intervalos das linhas, a frequência dos ônibus, as possíveis causas das demoras e as medidas previstas para melhorar o atendimento aos passageiros.
Também foram solicitados esclarecimentos sobre os horários das linhas 153 e 184 e sobre as reclamações envolvendo as demais linhas citadas.
Até o fechamento desta matéria, a CET-Santos não havia respondido aos questionamentos. O espaço permanece aberto para manifestação e as informações poderão ser acrescentadas caso haja retorno