Demissão em Copas: Parreira e a breve passagem pela Arábia Saudita
Antes de Sabri Lamouchi em 2026, Carlos Alberto Parreira viveu uma das demissões mais surpreendentes da história dos Mundiais
- Publicado: 16/06/2026 14:57
- Alterado: 16/06/2026 14:57
- Autor: Vitor Bianco
- Fonte: ABCdoABC
A goleada por 5 a 1 sofrida pela Tunísia diante da Suécia na estreia da Copa do Mundo de 2026 teve uma consequência imediata: poucas horas depois da partida, a federação tunisiana anunciou a saída do técnico Sabri Lamouchi, tornando-o o primeiro treinador a perder o cargo durante o torneio.
A decisão chamou atenção pela rapidez, mas não foi inédita. Quase três décadas antes, um dos treinadores mais respeitados do futebol mundial viveu situação semelhante. Campeão do mundo com o Brasil em 1994 e dono de uma carreira consolidada no cenário internacional, Carlos Alberto Parreira teve sua participação na Copa do Mundo de 1998 encerrada na Arábia Saudita ainda na fase de grupos.
O início de tudo

A história começou meses antes do Mundial. Após deixar o MetroStars (atual Red Bull New York), da MLS, Parreira assumiu a seleção saudita cercado de expectativas. O currículo impressionava, além do título, pelas experiências anteriores em Copas do Mundo com Kuwait e Emirados Árabes Unidos.
E a confiança não vinha apenas do currículo do treinador. As eliminatórias da Arábia Saudita beiraram a perfeição: em 14 partidas, os Sauditas venceram nove, empataram três e perderam apenas duas, sendo a equipe de melhor campanha de seu grupo.
A Copa do Mundo
A estreia da Arábia aconteceu diante da Dinamarca, em Lens. A equipe saudita fez um jogo equilibrado, mas acabou derrotada por 1 a 0. O resultado manteve vivas as chances de classificação e não parecia suficiente para provocar uma mudança drástica.
O problema veio na rodada seguinte: diante da anfitriã França, que mais tarde conquistaria o título mundial, a Arábia Saudita foi amplamente dominada e sofreu uma goleada por 4 a 0 no Stade de France. Thierry Henry marcou duas vezes, enquanto David Trezeguet e Lizarazu completaram o placar. A segunda derrota consecutiva eliminou matematicamente os sauditas ainda na fase de grupos.
A repercussão da derrota foi imediata no país. Comentaristas da TV saudita na época criticaram Parreira duramente, acusando-o de traidor por ter pedido aos jogadores no intervalo do jogo contra a França, quando perdiam por 1 a 0, que segurassem o resultado.
A demissão
A reação da federação foi instantânea. No dia seguinte ao jogo, Parreira foi chamado para uma reunião e comunicado de sua demissão. O brasileiro sequer teve a oportunidade de dirigir a equipe na última partida da fase de grupos, contra a África do Sul.
Na época, o treinador lamentou a decisão e afirmou que foi o “bode expiatório” da campanha abaixo do esperado com uma seleção de baixo nível técnico, em entrevista à Folha de São Paulo. A queda surpreendeu o mundo do futebol, afinal tratava-se do técnico que havia encerrado um jejum de 24 anos sem títulos mundiais para o Brasil apenas quatro anos antes.
Sem Parreira, a Arábia Saudita empatou por 2 a 2 com a África do Sul e encerrou sua campanha na última colocação do grupo. O treinador brasileiro, por sua vez, seguiu construindo uma carreira. Mais tarde, voltaria a comandar a Seleção Brasileira na Copa de 2006 e encerraria sua trajetória como o técnico com mais participações em Mundiais na história.
A Copa do Mundo de 1998 ficou marcada por demissões durante o torneio. Carlos Alberto Parreira não foi o único: Henryk Kasperczak foi demitido da Tunísia, enquanto Cha Bum-Kun foi despedido da Coreia do Sul.

Vinte e oito anos depois, um treinador voltou a ser demitido durante a maior competição de futebol do planeta. Demissões durante uma Copa do Mundo seguem sendo exceções, mas revelam o tamanho da pressão envolvida no torneio. Em poucas semanas, anos de planejamento podem ser julgados por apenas dois ou três resultados. Em 1998 foi Parreira. Em 2026, Lamouchi. Em ambos os casos, a Copa mostrou que nem mesmo treinadores experientes estão protegidos quando o fracasso chega cedo demais.