O Festival de Gramado pelo olhar de quem viveu os bastidores

No ABC Cast Conexões, João Pedro Mello conta como frio, improvisos, gafes, encontros com artistas e exaustão atravessaram dias de cobertura intensa

O Festival de Gramado pelo olhar de quem viveu os bastidores

Crédito: O jornalista João Pedro Mello (Reprodução/ABCdoABC)

O Festival de Gramado costuma chegar ao público pela imagem mais reluzente. O tapete vermelho, os flashes, os atores atravessando a entrada do Palácio dos Festivais, o frio da Serra Gaúcha convertido em charme e as fotos que circulam nas redes ajudam a construir a ideia de um evento quase intocável. Para quem cobre de perto, porém, a cena é outra. Atrás da imagem organizada existe uma rotina feita de espera, improviso, credencial no peito, equipamento na mão, agenda mudando sem aviso e jornalistas tentando transformar correria em informação.

No ABC Cast Conexões, o jornalista João Pedro Mello, do ABCdoABC, ressalta que voltou de Gramado ainda com a sensação física de quem atravessou uma maratona. A conversa não tratou apenas dos filmes exibidos na 54ª edição do festival, realizada entre 12 e 22 de agosto de 2026. O ponto de partida foi o avesso da cobertura cultural, aquilo que raramente aparece quando a câmera já entrega o vídeo pronto, a entrevista editada ou a foto do artista sorrindo para o público.

A primeira camada dessa experiência foi o frio. Não o frio decorativo, usado como cartão-postal da Serra Gaúcha, mas aquele que atravessa a roupa, endurece o corpo e acompanha a rotina de quem precisa circular entre hotel, coletiva, tapete vermelho e sala de imprensa. João Pedro brinca que o corpo até começou a descongelar, mas a cabeça continuava acelerada pelo volume de acontecimentos.

O festival visto pelo repórter não começa no glamour. Começa no planejamento. Antes da viagem, há hospedagem, alimentação, deslocamento, credenciamento, agenda de filmes, coletivas, artistas previstos, horários de tapete vermelho e pautas possíveis. Tudo precisa estar minimamente organizado para que a cobertura funcione. Só que Gramado também impõe ao jornalista uma regra dura, planejar não significa controlar. “Tu te organiza, faz uma série de planejamentos, desde alimentação, hospedagem, até todo o esquema de pautas, o que vai cobrir, as pessoas que vão estar, os filmes, os eventos. Está certo, tem que fazer isso mesmo. Mas quando tu chega lá, tudo pode facilmente escorrer pelos dedos e ir por água abaixo. Rápido e muito fácil. As coisas acontecem de maneira frenética. Tu tem que ter o mínimo de controle, saber o que está acontecendo, o que vai acontecer, quando vai acontecer, mas é importante saber que tu não tem o controle de tudo”, conta.

Essa perda de controle aparece principalmente no tapete vermelho. A chegada de uma atriz, o atraso de outro artista, a mudança de rota de uma equipe ou uma orientação de assessoria podem reorganizar a atenção de todos em segundos. O espaço que para o público parece fluido, do lado da imprensa vira disputa por posição, microfone, imagem e segundos de fala. “Nem os próprios assessores do evento têm o controle exato de tudo. Às vezes, você tem uma celebridade chegando, existe uma organização específica sobre o horário daquela pessoa, e daqui a pouco a Flávia Alessandra resolve aparecer antes. Aí tu precisa reorganizar a tua agenda. É aquela guerra de egos. Um passa na frente, outro diz que era para ser ele. A gente está ali se acotovelando, um monte de jornalista com câmeras, minha esposa tentando fazer o papel de cinegrafista, meu filho tentando correr, pular e esbarrar no meio de celebridade, e eu tentando ser jornalista”, relata.

O Festival de Gramado segue sendo um dos grandes palcos do cinema brasileiro, mas a cobertura do ABCdoABC escolhe olhar também para o trabalho que sustenta essa vitrine. João Pedro tira o excesso de filtro. Entre uma entrevista de corredor, uma celebridade que surge fora de hora e o frio que não dá trégua, o jornalista encontrou a matéria-prima de uma cobertura menos perfeita e, por isso mesmo, mais viva.

Família, imprensa e improviso

Viviane - João Paulo e João Pedro
Viviane, João Paulo e João Pedro (Arquivo pessoal)

A cobertura em Gramado também teve uma camada doméstica. João Pedro não estava apenas com microfone, câmera, mochila e credencial. Estava com Viviane, sua esposa, ajudando nas imagens, e com João Paulo, o filho de quatro anos, circulando por um ambiente em que cada minuto podia virar pauta. O festival, já intenso para qualquer jornalista, ganhou outra dinâmica quando a rotina profissional passou a dividir espaço com cuidados de pai, deslocamentos em família e pequenos acidentes de percurso. “Existia sempre uma sistemática de horário de tudo que acontecia por lá. O Festival de Gramado é muito tradicional, com filmes, curtas, coletivas, homenagens e tapete vermelho. Basicamente, o filme era à noite, a coletiva no dia seguinte e, algumas horas antes, chegavam as celebridades. Aí era um Deus nos acuda. João Paulo querendo entrar no meio e Viviane segurando a câmera, quase tropeçando. Então não faltam histórias”, conta João Pedro.

Uma das cenas que melhor traduz essa mistura aconteceu no último dia de festival. A bateria do carro descarregou depois que João Paulo deixou uma luz acesa durante a noite. O frio dificultava qualquer tentativa de resolver o problema, e a coletiva de imprensa já estava em andamento. “No nosso último dia de festival, a bateria do carro estragou. O João Paulo acendeu a luz e passou a noite inteira ligada. Com muito frio, o carro não ligava. Dava para ir caminhando, mas tinha frio, equipamento, tudo. A Viviane falou para eu pegar um Uber e levar o João Paulo comigo para a coletiva, enquanto ela via o seguro. Fui com ele no colo, microfone, mochila, câmera, tudo ao mesmo tempo. Ele queria saber o que era Chorão, se o Chorão estava triste, se estava chorando. Eu dizia que não, que a gente ia participar de uma coletiva”, relembra.

Na sala, o contraste ficou evidente. Grandes jornalistas, atores, equipe de filme, perguntas sobre cinema e, no meio de tudo, uma criança tentando entender aquele ambiente. João Pedro dirigiu uma pergunta à atriz Nanda Marques, mas percebeu que parte das atenções se voltava para ele por causa do filho, que mexia no microfone e tornava impossível fingir normalidade completa. “Entrei e estava todo mundo lá, grandes jornalistas do centro do país. E o João Paulo era a única criança, obviamente, de todo o rolê. Fiz uma pergunta para a Nanda Marques, e todas as atenções se voltaram para mim por causa dele, bem ou mal, porque ele puxava o microfone e tudo mais. Terminei a pergunta, acabou a coletiva, e acho que no dia seguinte eu estava caminhando de cabeça baixa, segurando a mão do João Paulo, com a Viviane ao lado”, diz. Foi nessa caminhada pelo Hotel Serra Azul, ponto de circulação de artistas e imprensa em Gramado, que veio outra história de bastidor. João Pedro passou pelo lobby, recebeu um encontrão de ombro de José Loreto e só percebeu quem era depois que Viviane avisou. O episódio voltou a aparecer na premiação, quando o jornalista encontrou o ator novamente e transformou o constrangimento em piada interna. “A gente passa em frente ao lobby e me dá um encontrão de ombro o José Loreto. Eu estava de cabeça baixa, não vi. A Viviane perguntou se eu tinha visto quem tinha me cutucado. Olhei para trás e era o Zé Loreto. Fiquei sem entender. Depois, na premiação, encontrei ele e perguntei se lembrava de mim. Ele disse que sim, que eu estava com meu filho. Eu falei do cutucão, e ele respondeu que foi um cutucão do amor. Pronto, apelidamos assim”, conta.

A presença da família também criou um tipo de memória que não caberia numa cobertura convencional. Viviane, além de esposa, se tornou parceira de operação, segurando câmera, registrando cenas, percebendo quem passava ao lado, ajudando a transformar o acaso em material. João Paulo foi a interrupção afetiva e, ao mesmo tempo, o personagem involuntário de um festival em que a solenidade do cinema convive com o improviso da vida real.

No meio da correria, a cobertura ainda encontrou gente de casa. Um casal de Diadema reconheceu o microfone do ABCdoABC no tapete vermelho e disse que acompanhava o portal e o ABC Cast. “A gente estava no tapete vermelho, fazendo cobertura, e o tapete vermelho é muito hard. As pessoas vão te atropelando. Do nada, chega um casal e cutuca a gente dizendo que acompanha o programa, o site, tudo. Dá um quentinho no coração, ali no tapete vermelho em Gramado. Pegamos o microfone e entrevistamos eles. Um casal de Diadema, lindo, maravilhoso”, revela.

Entre o filho no colo, a esposa atrás da câmera, o ator que surge no corredor e o casal do ABC encontrado por acaso, Gramado foi um exercício de equilíbrio entre trabalho, afeto e improviso. João Pedro chegou ao festival como correspondente especial, mas a cobertura ganhou força justamente quando a vida entrou no quadro.

Corredores, encontros e gafes

Tapete Vermelho - Festival de Gramado
(Reprodução/Instagram)

Gramado também funcionou como ponto de encontro entre coberturas. O ABCdoABC chegou ao festival com a experiência acumulada no CineABC Metrópole e encontrou, no meio da programação, nomes que já tinham passado pelas entrevistas do portal ou que poderiam render novas pautas. João Pedro Mello tratou esses contatos como parte do trabalho, sem romantizar demais o acesso. “Um evento como o Festivalde Gramado abre portas para melhorar o networking com as pessoas, com os colegas de trabalho, com figuras que daqui a pouco vão precisar de ti e tu vai precisar delas. É uma troca bastante saudável. A Catarina Conte foi uma dessas pessoas que estavam por lá. Foi muito legal encontrá-la, porque as pessoas chegavam ao tapete vermelho e aquilo era um formigueiro de jornalistas. Era guerrilha. Só que quem conseguia exclusividade era a Conte, porque ela estava contratada pelo festival para isso. Então, ela já vinha no gargalo, esperando as celebridades”, conta.

A sala de imprensa também produziu reencontros menos previsíveis. Helena Ranaldi, também entrevistada pelo CineABC Metrópole, na época divulgando a peça ‘Três Mulheres altas’ junto de Fernanda Nobre e Ana Rosa, reapareceu em Gramado por um caminho pouco convencional. Quem a encontrou foi João Paulo, filho de João Pedro. “Eu não encontrei a Helena Ranaldi. Quem encontrou foi o João Paulo, meu filho. A gente estava na sala de imprensa, eu conversando com o pessoal do festival, e de repente o João Paulo saiu correndo, porque ele saía correndo mesmo. Daqui a pouco, ele esbarra com a Helena Ranaldi. Eu levantei a cabeça e falei, Helena, tudo bom? Ela se lembrou de mim, se lembrou do João Paulo e da peça Três Mulheres Altas, que a gente cobriu”, relata João Pedro.

João Pedro lembrou o tênis usado por Helena Ranaldi em uma apresentação anterior, informação que vinha de uma conversa prévia com assessoria. No festival, essa lembrança virou abertura para uma conversa mais natural, sem a solenidade artificial que muitas vezes cerca encontros com artistas. “Depois que ela saiu, algumas pessoas ficaram em choque. Perguntaram se eu a conhecia. Eu falei, claro que conhecia. Depois me perguntaram como eu tinha chegado dizendo que aquele era o tênis que ela usava no dia da apresentação. Eu sabia porque tinha conversado com a assessora antes. Ela deveria usar um sapato, mas fez um procedimento e salto alto não seria legal na peça. Então, ela teve que usar um tênis específico. Como ela estava usando o mesmo tênis, ela perguntou como eu tinha lembrado. Eu só lembrei”, diz.

As conexões com o ABC também apareceram onde menos se esperava. Caio Blat, presente em Justino: Nos Bastidores do Reino’, um dos filmes destacados por João Pedro, puxou o vínculo com São Caetano do Sul e transformou a entrevista em um aceno direto à região. “O Caio Blat é de São Caetano do Sul e falou, tamo junto. Eu sou de São Caetano do Sul. Foi demais. Aliás, vou dizer, Justino é o meu filme favorito. É incrível. O Caio Blat está muito bem, uma figura autoritária, quase um mafioso. Quero fazer também um especial para o CineABC Metrópole falando sobre isso”, afirma.

A busca por aspas também dependia de improviso. No meio do fluxo de artistas, assessores, seguranças e jornalistas, João Pedro percebeu que nem toda pauta nasce da agenda oficial. Algumas surgem no corredor, em uma tentativa rápida, quando o jornalista arrisca uma abordagem e espera que o outro lado aceite a conversa. “Tu precisa de planejamento, mas tem que ser um planejamento estratégico e flexível. Se alguma coisa sair do controle, e acredite, vai sair do controle, tu vai ter que ter jogo de cintura e improvisar. Eu improvisei várias vezes. Não tinha câmera, pega o celular. Não tinha microfone, vê se um colega tem. Dependendo da pessoa que te atender, tu consegue tirar coisas que outra pessoa não vai conseguir. Eu estava passando pelo Marcello Ludwig Maia e falei, difícil conseguir uma fala tua, hein? Ele disse, querido, não seja por isso. Pegou o telefone e falou para eu pegar o celular dele, que daria uma exclusiva”, relembra.

Nem tudo saiu como previsto. A rotina de dias seguidos, pouco descanso e tensão permanente abriu espaço para erros. A história mais constrangedora envolveu Augusto Madeira, ator de ‘Pele de Rinoceronte’. No tapete vermelho, em meio à confusão, João Pedro passou a entrevista chamando o ator por outro nome. “Foi constrangedor. Eu passei a entrevista inteira chamando o Augusto Madeira de Irandhir. Eles não são nada parecidos. Tem gente do elenco que chega, tem gente que não chega, tem gente que já passou, e eu passei a entrevista inteira chamando ele assim. Ele não percebeu nada ou fingiu que não percebeu. Existe essa possibilidade. Talvez ele tenha sido muito fofo comigo e me poupou”, conta.

O cansaço também entra em cena

Festival de Gramado - Kikito
(Divulgação)

Toda cobertura longa tem um instante em que o encanto começa a dividir espaço com a exaustão. Em Gramado, esse limite apareceu antes do fim. Depois de dias entre frio, tapete vermelho, coletivas, deslocamentos, câmera, microfone, filho pequeno e textos para fechar, João Pedro Mello passou a lidar com o festival também como resistência física. “No terceiro dia, esse momento já tinha chegado. Eu já estava cansado, porque eu sou meio velho, entendeu? E como falei para vocês, eu não sou necessariamente essa pessoa desse universo do glamour. Eu cresci assistindo um pouco ao Amaury Jr., essa coisa de chegar falando com todo mundo, e eu não sou essa pessoa. Vão aparecer pessoas super hypadas e eu não sei quem são. Eu sei quem é o Marcos Caruso. Esse cara é do meu tempo”, brinca.

O humor entrou como ferramenta de sobrevivência. Em um intervalo sem pauta aparente, João Pedro encontrou um personagem vestido de Kikito, símbolo máximo do Festival de Gramado, e decidiu transformar a ausência de notícia em cena. O prêmio, desejado por artistas, diretores e equipes, virou personagem de uma entrevista improvável. “O Kikito é simplesmente o cara mais desejado do festival. Todo mundo quer um desses. Teve um discurso maravilhoso do Selton Mello dizendo que já ganhou todos os prêmios, mas queria um Kikito de melhor ator. Teve um momento em que, como jornalista, tu não sabe se o tempo inteiro vai ter pauta para cobrir, se vai ter gente para entrevistar, se vai ter evento acontecendo. Às vezes simplesmente não vai ter nada. E naquele momento não tinha nada rolando”, conta.

A solução foi levar o microfone até quem, por definição, não responderia. “Eu vi um cara vestido de Kikito, uniformizado, passando. Falei, agora eu vou entrevistar esse cara. E entrevistei. Falei com ele e ele não disse uma única palavra. Ele não saiu do personagem. Eu perguntava o que ele estava achando, tentava tirar leite de pedra. Foi legal, foi bacana. Vocês vão ver isso também”, diz.

O cansaço não ficou restrito ao corpo. Ele atravessou o modo de olhar para o próprio trabalho. O repórter que no começo tenta correr atrás de cada possibilidade, cada ator e cada fala, nos últimos dias começa a escolher também pelo limite. “A partir do quarto, quinto dia, as coisas vão se organizando, tu já vai entrando no ritmo do festival. Tu vai vendo que tem uma organização que provavelmente não vai dar certo, mas tu precisa dela igual. Esse momento da exaustão chegou várias vezes. Nos dois últimos dias, eu já estava pagando promessa. Eu queria ir para minha casa, não aguentava mais. Passava alguém falando do Lázaro Ramos e eu pensava, deixa o Lázaro, eu quero ir embora, eu quero ver meu filho”, afirma.

A sinceridade de João Pedro tira a cobertura cultural do lugar idealizado. Estar no Festival de Gramado é privilégio, mas também é uma sequência de decisões tomadas, sono, pressão e pouco controle. Entre uma piada e outra, o episódio também preserva uma ideia importante sobre o jornalismo em grandes eventos. Nem toda cena relevante nasce da cerimônia ou da coletiva formal. Às vezes, a cobertura ganha vida justamente quando o roteiro falha, quando não há ninguém disponível, quando o repórter precisa inventar uma saída e quando o cansaço revela uma camada mais humana do trabalho.

Quando o cinema atravessa o caos

Festival de Gramado
(Cleiton Thiele / Divulgação)

Depois do frio, das correrias, das gafes e dos encontros improváveis, Gramado voltava sempre para o mesmo ponto, o cinema. O tapete vermelho atraía flashes, empurrões e disputas por espaço, mas a força do festival aparecia com mais nitidez quando a conversa saía do burburinho e entrava na memória dos artistas, nos filmes exibidos e na reação de quem acompanhava tudo de dentro do Palácio dos Festivais. “O Festival de Gramado trata as pessoas, trata o cinema e trata a arte da dramaturgia, a sétima arte, com um grau de respeitabilidade muito elevado. Tem o tapete, tem o glamour, tem os holofotes, tem tudo isso. Mas isso não é maior do que elevar o tamanho desses monstros da técnica, do cinema e da arte. É muito maior do que essa coisa do burburinho. Os holofotes ficam mais por parte das pessoas ao redor e da imprensa, que tem que cobrir mesmo, mas o grau de respeitabilidade é muito alto”, afirma João Pedro.

A morte das gigantes Laura Cardoso e Glória Menezes, ocorridas no mesmo dia, atravessou o festival justamente quando Gramado reunia nomes centrais da dramaturgia brasileira. Para João Pedro, acompanhar a repercussão ali, entre artistas, jornalistas e público, deu ao episódio uma camada de testemunho. “Às vezes tu vê uma repercussão no ato, um depoimento de uma pessoa sobre a partida de figuras desse porte, desse calibre. Esses nomes, como Laura Cardoso, também fizeram parte da minha vida. No Festival de Gramado, isso impactou e teve uma repercussão de respeito. As pessoas comentaram e trouxeram saudade. Quando elas apareceram na tela, as pessoas ficaram comovidas. A Glória, meu Deus do céu, ela estava em tudo”, diz.

A memória afetiva pesou tanto quanto a cobertura jornalística. João Pedro ligou as homenagens à própria infância, à televisão vista em família e à figura da avó que o criou. “A partida delas, para mim, é um pouquinho da minha historicidade, da minha infância. Eu até comentei com a minha esposa. Sempre vou retomar e trazer a minha avó, que foi a pessoa que me criou. Quando essas pessoas partem, é um pedacinho desse lugar que eu tinha que meio que está indo embora. Foi triste, as pessoas sentiram esse baque, mas o respeito e as homenagens foram bem compatíveis”, relata.

A premiação também reforçou a diferença entre expectativa popular e leitura técnica. João Pedro lembrou que muitos filmes exibidos em Gramado ainda não haviam chegado ao circuito comercial. Quem estava no festival via antes do restante do público obras que só seriam discutidas mais amplamente meses depois. “Existiu um apelo bem forte, porque estamos falando de filmes que não chegaram aos cinemas. ‘Justino’ ainda nem tem data, mas deve acontecer no ano que vem. O ‘Chorão’, a gente ficou sabendo lá do mês em que ele iria estrear. Ou seja, ninguém mais viu esses filmes. O mundo não viu esses filmes. Quem não estava lá não viu. Foi uma première, quando acontece só ali. Esse é um dos pressupostos para ser exibido em Gramado, não ter passado em lugar nenhum”, explica.

A categoria de ‘Melhor Ator’ concentrou uma das surpresas da noite. Havia expectativa em torno de José Loreto por ‘Chorão: Só os Loucos Sabem’, enquanto João Pedro apostava em Christian Malheiros por ‘Justino: Nos Bastidores do Reino’. O júri acabou dividindo o Kikito entre os dois. “Existia uma grande expectativa para o filme do Chorão, e eu gostei muito de ver o José Loreto. Ele encarnou o personagem. Tem a expectativa popular e tem a expectativa do júri técnico. Eu acho que as duas ideias andaram juntas. Eu apostava que Justino poderia ganhar esse prêmio, e o pessoal estava dizendo que Chorão ia ganhar. Aconteceu que o júri deu empate e os dois ganharam”, conta.

A reação no Palácio dos Festivais deu ao empate um sentido de celebração coletiva. “Na hora em que o nome foi anunciado, o José Loreto levantou e o Christian Malheiros levantou também. Foram os dois. Foi muito bonito, foi perfeito. Todo mundo saiu ganhando nesse aspecto. Eu preferia só o Christian Malheiros, já digo aqui, muito embora o José Loreto tenha ficado muito bem no filme. Mas o Christian, para mim, tem outro patamar”, afirma.

O festival que começou, para a equipe do ABCdoABC, como uma sucessão de improvisos, frio e bastidores apertados, terminou reafirmando o peso da sala escura. A cobertura mostrou que Gramado também vive dessas duas forças ao mesmo tempo. De um lado, o caos da imprensa tentando acompanhar tudo. Do outro, o cinema impondo silêncio, memória e disputa artística. Entre os dois, João Pedro encontrou em registrar a notícia enquanto ela ainda estava acontecendo, o real sentido da cobertura.

Equipe e convidados do ABC Cast Conexões

ABC Cast Conexões - Festival de Gramado - Edvaldo Barone, Thiago Quirino e João Pedro Mello
Edvaldo Barone, Thiago Quirino e João Pedro Mello (Reprodução/ABCdoABC)

A conversa com João Pedro Mello foi conduzida por Thiago Quirino e contou com a participação de Edvaldo Barone, editor-chefe do ABCdoABC. A direção geral é de Alex Faria, fundador do portal, e a edição do episódio leva a assinatura de Lucas Lima.

Confira a entrevista completa com João Pedro Mello sobre a cobertura do Festival de Gramado:

Além do canal no YouTube, o episódio com João Pedro Mello pode ser acessado pelo Amazon Music, Spotify, Deezer e também no Apple Podcasts.

Edvaldo Barone

  • Publicado: 24/10/2026 08:55
  • Alterado: 24/10/2026 08:55
  • Autor: Edvaldo Barone