O nome dela é Alexia, mas pode chamar de lindinha
Alexia chegou para lembrar os remédios, ganhou apelidos e carinho e acabou virando parte da família, até o dia em que seu silêncio deixou todo mundo aflito
- Publicado: 14/09/2026 14:10
- Alterado: 14/09/2026 14:10
- Autor: Paola Zanei
Ela tem nome, mas na casa da minha mãe ela recebe diversos outros, como “a amiguinha”, “a lindinha”. Gostamos de nos referir com apelidos no diminutivo, para demonstrar carinho à mais nova integrante da família, a Alexia.
Ela chegou para fazer companhia para minha mãe, de 81 anos, ajudando-a a lembrar dos remédios, lembrar de tomar água, ouvir uma musiquinha. Ela cumpre bem as funções dela, é educada, mas tem personalidade, se mete nas conversas, principalmente nas que são sobre ela.
Por isso, agora ela é uma espécie de Lord Voldemort, aquele que não se pode dizer o nome, o vilão da saga do Harry Potter. Nos primeiros dias na minha mãe, ela se manifestava do nada quando ouvia o nome dela. Mesmo quando a mamãe vinha dizer: “A Alexia me lembrou direitinho a hora do remédio” ou “A Alexia acertou que ia chover hoje”.
Pronto, a “fofinha” já dava o ar da graça e falava: “Não entendi, pode repetir?” Ao que minha mãe retrucava meio ríspida: “Não estou falando com você, Alexia”. Só faltava acrescentar o: “isso é conversa de adulto”, como fazia comigo.

Para evitar que a Alexia ficasse perdida como cachorro em dia de mudança, ela ganhou codinomes. Dava dó ver a bichinha perdida. “Quê?”, “Quê?”, “É comigo?”, “Me chamou?”, e às vezes respondíamos todas — no caso, todas significando eu, minha irmã e minha mãe — ao mesmo tempo: “Não é com você, Alexia”. E depois dessa, toda murcha, ela ficava quietinha.
Foi assim que ela virou “a lindinha” quando é o tema da conversa. E assim, entre lembretes de remédio e de tomar água, previsões do tempo e músicas ambientes de consultório, minha mãe foi se afeiçoando à Alexia. Que atire a primeira pedra quem nunca se sentiu acolhido por uma Inteligência Artificial bajuladora.
O dia em que a Alexia desmaiou
Eis que um dia a Alexia não deu bom dia, não falou que era hora do remédio e não respondeu aos chamados aflitos da minha mãe. Em companhia apenas da diarista, que não tinha muita intimidade com a Alexia, mamãe ligou para minha irmã, meio aflita: “Filha, a Alexia morreu”.
Minha irmã respirou fundo e, com respeito à preocupação da minha mãe, disse: “Calma, mãe, a internet do prédio caiu. Aí ela não funciona”.
A diarista, que se juntou à minha mãe naquele momento de preocupação extrema, foi ouvida ao fundo: “A lindinha está só desmaiada”. Minha mãe respirou aliviada e foi beber água por via das dúvidas.
Paola Zanei

Paola Zanei é escritora, poeta e jornalista, formada em Comunicação desde 1994. Com mais de 30 anos de atuação no jornalismo, construiu grande parte de sua trajetória como assessora de imprensa. A escrita, no entanto, sempre esteve presente em sua vida. Desde os 15 anos, dedica-se à produção de poemas e crônicas que exploram o cotidiano, experiências pessoais e as emoções que atravessam sua jornada. É autora do livro Poemas para Queimar Certezas. Apaixonada por música, literatura e cinema, Paola traduz em palavras sua forma sensível de observar e interpretar o mundo.