O goleiro Vozinha e a conexão com a Copa do Mundo

O goleiro de Cabo Verde, Vozinha, tornou-se personagem carismático ao decorrer da primeira fase da Copa do Mundo 2026

Crédito: @FIFA

De longe, de tudo o que venho acompanhando nesta Copa do Mundo, o personagem que mais me chama atenção tem um apelido que, para mim, soa muito particular: Vozinha, o goleiro da seleção de Cabo Verde. Aos 40 anos, ele mostrou que ainda é possível disputar uma competição internacional de altíssimo nível, mas, acima de tudo, render algo que o futebol nem sempre consegue explicar: carisma.

Seu desempenho diante da Espanha, na estreia histórica de Cabo Verde, e também na partida contra o Uruguai me fizeram pensar em algo que vai muito além do esporte. Quantos sonhos ficam escondidos na gaveta porque alguém disse que “já passou da idade“? Quantos projetos deixam de existir antes mesmo da tentativa por medo do tempo?

Com 40 anos e 12 dias, Josimar José Évora Dias tornou-se o jogador mais velho a defender uma seleção estreante em uma Copa do Mundo. O recorde, por si só, já impressiona. Mas é apenas um detalhe diante da trajetória dele. O apelido nasceu porque foi criado pelos avós — “Vozinha” faz referência justamente a essa criação cercada pelo carinho dos avôs. Seu nome de batismo, Josimar, também carrega uma homenagem ao ex-lateral da Seleção Brasileira. Ah, e sobre ser criado pelos avós, entendo bem sobre isso. 

Nada em sua carreira sugere um roteiro de estrela. Passou por clubes de Cabo Verde, Angola, Moldávia, Portugal, Chipre e Eslováquia. Conquistou poucos títulos, nunca esteve entre os grandes goleiros do planeta e, curiosamente, chegou à Copa sem sequer ter contrato garantido para a próxima temporada. Ainda assim, permaneceu defendendo seu país por mais de uma década, esperando uma oportunidade que talvez muita gente acreditasse que jamais chegaria.

E foi justamente a Copa que lhe deu esse palco.

Foram sete defesas contra uma das favoritas ao título, a Espanha, suficientes para arrancar um empate histórico na estreia de Cabo Verde. Em questão de dias, o mundo inteiro passou a perguntar quem era aquele goleiro de sorriso fácil, barba grisalha e reflexos de um garoto. As redes sociais explodiram. O reconhecimento veio em uma velocidade que provavelmente nem ele imaginava viver aos 40 anos. Talvez seja esse o verdadeiro encanto de uma Copa do Mundo.

Os campeões sempre estarão nas capas dos jornais. Os craques seguirão sendo reverenciados. Mas, de quatro em quatro anos, o futebol nos presenteia com personagens improváveis. Gente que não levanta necessariamente a taça, mas conquista algo igualmente raro: a admiração de quem está do outro lado da tela.

Vozinha talvez não seja lembrado pelos números daqui a dez anos. Talvez Cabo Verde sequer avance muito mais na competição. Mas, para muita gente, ele já venceu. Porque lembrou que o tempo nem sempre é um adversário. Às vezes, ele apenas prepara o momento certo. É por isso que gosto tanto da Copa do Mundo.

Ela não vive apenas de títulos, gols ou estatísticas. Ela vive de conexões. De histórias que atravessam oceanos, unem culturas e fazem um torcedor brasileiro parar alguns minutos para admirar um goleiro de um pequeno país africano.

No fim das contas, talvez seja justamente isso que torne o futebol tão universal: perceber que, em algum lugar do mundo, sempre haverá um Vozinha nos lembrando que nunca é tarde para viver o capítulo mais bonito da própria história.

O empate contra a Espanha fez o mundo conhecer Vozinha

Contra uma Espanha recheada de estrelas, Cabo Verde entrou em campo como franco azarão. Poucos acreditavam que a seleção africana pudesse competir de igual para igual. Muito menos pontuar. Mas durante noventa minutos houve alguém disposto a contrariar todas as previsões.

Vozinha fez uma defesa atrás da outra. Foram intervenções em finalizações de fora da área, saídas precisas pelo alto e reflexos que impediram o favoritismo espanhol de aparecer no placar. O empate sem gols teve vários protagonistas, mas nenhum chamou tanto a atenção quanto o goleiro cabo-verdiano.

Naquele momento, milhões de pessoas descobriram quem era aquele homem de barba grisalha, sorriso tranquilo e apelido curioso.

Contra o Uruguai, Vozinha mostrou que não era apenas uma atuação isolada

Se havia quem imaginasse que a exibição diante da Espanha havia sido apenas uma noite inspirada, a partida contra o Uruguai tratou de desfazer qualquer dúvida.

Novamente, Vozinha apareceu quando Cabo Verde mais precisou. Fez defesas importantes, comandou a defesa e mostrou uma tranquilidade incompatível com alguém que disputava sua primeira Copa do Mundo aos 40 anos. Mesmo sem a vitória, o goleiro deixou o gramado ovacionado. Era impossível não perceber que sua história já havia ultrapassado o resultado dos jogos.

Copa do Mundo também é feita de personagens improváveis

Sempre que uma Copa começa, imaginamos que ela será decidida pelos craques de sempre. Vinicius Júnior, Mbappé, Bellingham, Haaland, Yamal…

Mas, de quatro em quatro anos, o futebol insiste em lembrar que a Copa também pertence aos improváveis. Pertence ao goleiro que ainda procurava um clube aos 40 anos.

Ao país que disputa sua primeira Copa. À torcida que descobre uma nova seleção para torcer. À criança que passa a acompanhar Cabo Verde simplesmente porque gostou daquele goleiro chamado Vozinha. Talvez seja justamente isso que faça da Copa do Mundo um evento tão diferente de qualquer outra competição esportiva.

Ela não conecta apenas países. Ela conecta pessoas. E foi exatamente isso que Vozinha conseguiu fazer.

Em uma Copa repleta de estrelas, foi um goleiro de Cabo Verde quem me lembrou que o futebol nunca foi apenas sobre vencer. Às vezes, basta uma boa história para permanecer na memória de milhões de pessoas muito depois do apito final.

Que o carisma de Vozinha não seja esquecido!

  • Publicado: 22/06/2026 17:55
  • Alterado: 22/06/2026 17:55
  • Autor: Gabriel de Jesus
  • Fonte: ABCdoABC