NR-1 mudou o cenário da comunicação corporativa
A NR-1 amplia o olhar sobre riscos psicossociais e desafia empresas a integrar comunicação, escuta, cultura e reputação à gestão do ambiente de trabalho
- Publicado: 25/08/2026 18:56
- Alterado: 25/08/2026 18:56
- Autor: Rodrigo Freitas
Há mudanças regulatórias que alteram processos, outras têm potencial para mudar a forma como as empresas pensam. A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) pertence à segunda categoria. Ao incluir os fatores de risco psicossociais no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais, a norma coloca em evidência algo que muitas organizações ainda tratam como assunto secundário, a maneira como o trabalho é conduzido e percebido pelos colaboradores.
A nova redação entrou em vigor em maio deste ano, conforme o Ministério do Trabalho e Emprego, e, embora a responsabilidade técnica pela gestão desses riscos não seja da comunicação, é um equívoco imaginar que a área não tenha relação com a norma.
A comunicação é parte do ambiente em que as relações de trabalho acontecem. A forma como uma mudança é anunciada, a maneira como uma liderança conversa com sua equipe, o contexto dado a uma meta ou a condução de uma crise interna interferem diretamente na experiência das organizações. Até a existência de espaços para que os colaboradores possam manifestar suas percepções faz diferença, por isso, a NR-1 pode representar uma oportunidade para a comunicação corporativa deixar definitivamente o papel de simples distribuidora de mensagens.
O discurso corporativo está sendo colocado à prova
Existe um dado que deveria preocupar qualquer liderança. O Índice de Fatores Psicossociais no Trabalho 2025, da AventusCare, analisou 331 empresas brasileiras utilizando a metodologia HSE-IT, validada pela Unicamp. O estudo mostrou que 70% dos trabalhadores avaliados não tinham clareza sobre suas funções, um dos fatores diretamente relacionados à organização do trabalho e aos riscos psicossociais.
O dado é especialmente relevante porque mostra que os riscos psicossociais não estão necessariamente relacionados apenas a situações extremas. Eles também podem aparecer em aspectos aparentemente cotidianos da experiência profissional, como falta de clareza sobre responsabilidades, excesso de demandas, ausência de suporte e problemas nas relações de trabalho.
A pergunta que esses dados provocam é mais importante do que o próprio número. Como uma empresa pode afirmar que está preparada para lidar com o ambiente de trabalho se ainda existem dificuldades tão básicas de clareza, organização e comunicação sobre o próprio trabalho?
É aqui que vejo uma das maiores oportunidades para a comunicação corporativa. A área precisa parar de medir sua relevância apenas pela quantidade de mensagens produzidas, campanhas realizadas ou pessoas alcançadas. Seu valor estratégico está também na capacidade de interpretar o ambiente, identificar percepções e transformar informação em inteligência para a organização.
Isso significa aproximar comunicação de dados, escuta e gestão. Uma pesquisa de clima não deveria terminar em um relatório que poucas pessoas leem, bem como a percepção recorrente dos colaboradores não deveria ser tratada como ruído, e vou mais além, uma mudança no comportamento das equipes deveria ser entendida como informação relevante para a liderança. A comunicação pode ajudar a conectar esses pontos, desde que esteja disposta a fazer algo que nem sempre faz bem, ouvir antes de falar.
O manual do Ministério do Trabalho e Emprego destaca, entre os fatores de riscos psicossociais relacionados ao trabalho, situações como excesso de demandas e assédio. O documento também trata de aspectos ligados à falta de suporte no trabalho. São questões que não surgem apenas de processos, mas também de relações, comportamentos e culturas, e cultura, gostemos ou não, é uma dimensão profundamente influenciada pela comunicação.
Reputação começa ‘in-house’

O segundo ponto é ainda mais sensível para quem trabalha com reputação. Durante muito tempo, comunicação corporativa foi pensada de fora para dentro. A preocupação estava em construir a percepção desejada no mercado, definir os assuntos que deveriam chegar à imprensa, posicionar a marca e preparar seus executivos para falar. Essas questões continuam importantes, mas já não são suficientes. A reputação também deve ser construída internamente, todos os dias, na experiência de quem trabalha nela.
A atualização da NR-1 torna essa realidade ainda mais evidente. Quando a organização precisa olhar para fatores relacionados à sobrecarga, à gestão, ao suporte, às relações profissionais e às condições em que o trabalho é realizado, torna-se cada vez mais difícil separar cultura, gestão, comunicação e reputação.
A comunicação pode construir uma narrativa sofisticada a respeito de uma empresa que valoriza pessoas, mas essa narrativa perde força quando encontra uma experiência interna incompatível. É por isso que considero perigoso tratar a NR-1 apenas como uma nova obrigação somente da área de Compliance. Organizações que compreenderem a mudança como uma questão de gestão poderão fazer algo muito mais relevante, identificar problemas antes que eles se transformem em crises corporativas e de imagem.
O ato de escutar não pode ser confundido com ações isoladas, por exemplo, como pesquisa enviada por e-mail. Ouvir de fato, é criar condições para o diálogo, caso contrário, a comunicação perde credibilidade.
O momento é especialmente importante, pois o ambiente corporativo está cada vez mais exposto. Experiências internas podem chegar rapidamente às redes sociais, aos sites de avaliação de empregadores, à imprensa e às conversas que influenciam a percepção de clientes e os diversos públicos de uma empresa. O que antes permanecia restrito aos corredores de uma empresa pode destruir em pouco tempo a reputação de uma empresa.
Desta forma, a comunicação precisa estar próxima das discussões importantes, participando ativamente nas decisões que envolvem cultura, liderança e experiência dos colaboradores, não assumindo responsabilidades que pertencem a RH, Saúde e Segurança ou à alta gestão, mas para ajudar a organização a interpretar sinais e construir coerência entre aquilo que diz e aquilo que pratica.
A NR-1, não é uma norma decorrente da área de comunicação, mas pode provocar uma transformação importante na maneira como a comunicação é percebida. O desafio não é simplesmente explicar a nova regra aos colaboradores, mas compreender o que ela revela e no que auxilia.
Atualmente, a comunicação corporativa não pode mais se limitar a contar a história da empresa. No novo ambiente corporativo, reputação não começa quando a empresa fala, mas quando as pessoas vivem aquilo que a empresa diz ser.
Rodrigo Freitas

Rodrigo Freitas é jornalista e radialista, com pós-graduação em Gestão Estratégica em Comunicação Organizacional e Relações Públicas pela Universidade de São Paulo (USP). Atua no mercado de comunicação desde 2007, com foco no relacionamento com a imprensa, influenciadores e diversos stakeholders. Atualmente, é gerente de comunicação na Race Comunicação, e está à frente do caderno Comunicação em Contexto no ABCdoABC.