Neste domingo, 2º turno na Colômbia opõe esquerda e nome pró-Trump
Eleitores na Colômbia decidem o segundo turno presidencial entre o esquerdista Iván Cepeda e o ultradireitista Abelardo de la Espriella
- Publicado: 20/06/2026 08:37
- Alterado: 20/06/2026 08:37
- Autor: Gabriel de Jesus
- Fonte: DW
A Colômbia volta às urnas neste domingo (21/06) para decidir em segundo turno se coloca os rumos do país nas mãos de Abelardo de la Espriella, ultradireitista novato na política e entusiasta do militarismo, ou de Iván Cepeda, senador de esquerda e filósofo apoiado pelo atual presidente, Gustavo Petro.
A votação decisiva na Colômbia, da qual devem participar até 41 milhões de eleitores, terá impacto profundo no processo de paz do país com grupos armados e nas relações atualmente tensas com os Estados Unidos. A campanha eleitoral foi marcada por sérios episódios de violência, incluindo atentados a bomba no sul do país, ataques com drones explosivos e o assassinato de um importante candidato presidencial em Bogotá.
Polarização e o colapso do centro político
Abelardo de la Espriella, que liderou o primeiro turno ocorrido em maio com 43,7% dos votos, contra 40,9% de Cepeda, foca sua plataforma em uma política dura de segurança pública. Com esse discurso, ele espera repetir o feito de outros presidentes eleitos recentemente sob a mesma bandeira na Bolívia, no Chile e no Equador.
O resultado do primeiro turno evidenciou o colapso total dos partidos de centro e da direita tradicional, que governaram a Colômbia durante grande parte dos últimos dois séculos. Embora se apresente como um outsider político, o candidato da ultradireita possui laços familiares próximos com o influente político conservador e ex-presidente Alvaro Uribe.
Do outro lado, Cepeda é apoiado principalmente por progressistas e pelas parcelas mais pobres da população, que se beneficiaram da recente redução da pobreza, do aumento dos salários e da queda do desemprego na Colômbia. O pleito atual acabou se transformando em um referendo sobre o primeiro governo de esquerda da história do país.
Em entrevista à agência de notícias AFP, o analista da Nalanda Analytica, Julian Lopez, avaliou o cenário de forte polarização que divide a população:
“Ambos os lados têm seguidores muito fervorosos, mas há uma parte do país que vota por medo de um modelo que considera daninho.”
Agendas distintas de segurança pública e economia
Os dois candidatos apresentam visões totalmente divergentes sobre como enfrentar o tráfico de cocaína e a pior onda de violência na Colômbia em uma década. De la Espriella promete travar uma guerra contra grupos guerrilheiros envolvidos no narcotráfico que se recusaram a assinar o acordo de paz em 2016.
Apoiado abertamente pelo presidente americano Donald Trump, o candidato de ultradireita afirmou que buscará o apoio formal dos Estados Unidos para realizar uma campanha de 90 dias de bombardeios e pulverização de plantações de grupos armados que produzem coca. Ele também planeja eliminar o tribunal especial criado pelo histórico acordo de paz com as Farc em 2016, uma corte que a direita considera tendenciosa contra os militares.
Por outro lado, Cepeda tem sido uma figura central na política de negociação de “paz total” com grupos armados, priorizando o diálogo institucional em vez do enfrentamento violento. Críticos afirmam que o atual governo de Petro permitiu que facções criminosas ficassem mais ricas com o tráfico, ampliassem seu controle territorial e ganhassem poder. Em Bogotá, diplomatas estrangeiros expressaram o temor de que um retorno a políticas de segurança agressivas possa provocar fortes retaliações, lançando a Colômbia de volta a uma espiral de violência.
Na economia, o vencedor herdará um país marcado pelo aumento da dívida pública, deterioração fiscal e desaceleração do investimento estrangeiro. De la Espriella propõe um ajuste fiscal rígido, com a fusão de agências estatais e redução de gastos públicos, além de retomar a exploração de petróleo e impulsionar o gás natural por meio do método de fracking. Já Cepeda defende que o Estado assuma um papel estratégico para orientar o desenvolvimento produtivo, diversificado e socialmente inclusivo, propondo também um pacto fiscal para administrar a dívida.
Estados Unidos acompanham de perto o cenário eleitoral
O primeiro turno na Colômbia seguiu o mesmo roteiro de uma série de eleições polarizadas na América Latina, com a Casa Branca tentando influenciar o resultado a favor da direita. O país historicamente se posiciona como o parceiro mais próximo dos Estados Unidos na América do Sul, recebendo bilhões de dólares em investimentos militares e de inteligência para combater o tráfico de drogas.
As relações bilaterais, no entanto, enfrentaram forte deterioração desde que Trump voltou ao poder e entrou em confronto direto com o presidente Petro. Durante a campanha, Trump chegou a classificar Cepeda publicamente como um “marxista radical de esquerda” e alertou que o resultado do pleito será crucial para o futuro das relações diplomáticas entre Washington e a Colômbia.
Quem é Abelardo de la Espriella

Até recentemente, o advogado criminalista Abelardo de la Espriella, de 47 anos, era conhecido por sua bem-sucedida carreira jurídica e por suas excentricidades, longe da atuação político-partidária. A mudança radical ocorreu em julho de 2025, com a criação do movimento de ultradireita Defensores da Pátria, lançado como resposta ao que ele classificava como um “momento sombrio” sob a gestão de esquerda na Colômbia.
A estratégia funcionou e, apenas 11 meses depois, ele largou na frente no primeiro turno presidencial, desbancando o uribismo tradicional sem nunca ter ocupado nenhum cargo público anterior. Com a promessa de transformar a Colômbia em uma “pátria milagrosa” aos moldes de Coreia do Sul ou Irlanda, seu plano de governo lista metas rígidas para segurança, saúde, educação, agronegócio, mineração e o combate à corrupção.
Admirador confesso de Donald Trump, De la Espriella construiu sua fortuna defendendo clientes controversos nos tribunais, como o empresário Alex Saab (detido nos EUA sob acusação de lavagem de dinheiro) e David Murcia Guzmán (mentor do maior esquema de pirâmide financeira da história da Colômbia). No início dos anos 2000, ele também atuou como mediador nos diálogos de paz entre o governo Uribe e o grupo paramilitar de extrema direita Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC).
Milionário, ele diversificou seus negócios com a grife De la Espriella Style, que comercializa produtos próprios como o rum Defensor, o vinho Fratellone e acessórios de luxo. Nascido em território colombiano, ele também possui cidadanias italiana e americana, o que gerou intenso debate entre juristas locais sobre um possível impedimento legal para assumir a presidência da Colômbia. Católico e ex-cantor de ópera, ele possui forte semelhança física e ideológica com o presidente de El Salvador, Nayib Bukele, e é frequentemente alvo de duras críticas por declarações consideradas sexistas e homofóbicas. Seu companheiro de chapa é o economista José Manuel Restrepo, defensor da austeridade fiscal. Ele é casado desde 2008 com a administradora Ana Lucía Pineda, com quem tem quatro filhos.
“O Tigre”: patriotismo e apelo ao militarismo
De la Espriella se autodenomina “O Tigre” e adotou como marcas registradas a saudação militar e o uso constante da camisa da seleção colombiana de futebol. Sua retórica implacável contra o crime organizado ressoou profundamente em uma população marcada por mais de seis décadas de conflito armado interno na Colômbia.
Embora termine seus comícios com uma continência militar e o slogan “firmes pela pátria!”, o candidato não possui formação nas Forças Armadas. Seus atos públicos são frequentemente acompanhados por militares da reserva fardados. Ele afirma que, caso vença as eleições, sua cerimônia oficial de posse ocorrerá dentro de um batalhão do Exército. O apelido felino surgiu após uma declaração feita em 2024 pelo ex-presidente Alvaro Uribe, que afirmou publicamente que a Colômbia precisava de “um tigre” ou “uma tigresa” no poder para reorganizar a segurança nacional.
Quem é Iván Cepeda

Corregional do presidente Petro no partido Pacto Histórico, o senador Iván Cepeda, de 63 anos, passou as últimas décadas atuando na defesa direta das vítimas do conflito armado, denunciando violações de direitos humanos e mediando processos de paz na Colômbia. Ele é filho da líder de esquerda Yira Castro e do senador da União Patriótica Manuel Cepeda Vargas, que foi assassinado em 1994 por agentes do Estado em cumplicidade com grupos paramilitares.
A tragédia familiar transformou Cepeda em uma das vozes mais ativas na denúncia do extermínio da União Patriótica, partido que sofreu perseguição sistemática nas décadas de 1980 e 1990. Diferente de seus adversários, o candidato de esquerda evita improvisações em seus comícios e prefere ler discursos previamente impressos no papel.
Durante a juventude, Cepeda viveu o exílio na antiga União Soviética, em Cuba e na França devido a ameaças de morte decorrentes de sua atuação social. Ele é formado em filosofia pela Universidade de São Clemente de Ohrid de Sófia, na Bulgária, e possui mestrado em direito internacional humanitário pela Universidade Católica de Lyon. Sua carreira no Legislativo começou em 2010 como representante na Câmara e, desde 2014, ocupa uma cadeira no Senado da República.
Sua projeção nacional aumentou após liderar debates históricos no Congresso sobre as ligações de setores políticos e empresariais com o paramilitarismo ilegal. Entre 2012 e 2016, ele atuou ativamente como facilitador oficial nas negociações de paz com as Farc, participando também de diálogos com a guerrilha do Exército de Libertação Nacional (ELN). No campo pessoal, Cepeda superou um diagnóstico de câncer de cólon e segue em acompanhamento médico preventivo. Ele é casado com a antropóloga Pilar Rueda Jiménez, e sua vice na chapa é a senadora indígena Aída Quilcué.
Agenda progressista e apoio dos k-popers
A principal mensagem de sua campanha presidencial foca na premissa de que a Colômbia não pode continuar presa nos ciclos históricos de violência e exclusão social. Suas propostas centrais visam aprofundar as reformas estruturais iniciadas por Petro, acelerar a reforma agrária, promover a transição energética e garantir a proteção de líderes comunitários vulneráveis.
De forma surpreendente para os analistas políticos, a campanha sóbria e filosófica de Cepeda conseguiu atrair uma forte base de apoio entre os k-popers (fãs de música pop sul-coreana) pertencentes à Geração Z. O candidato adotou publicamente o gesto do “coração coreano” — cruzando o polegar e o indicador — e o grupo de jovens passou a engajar ativamente as propostas de esquerda nas redes sociais através de coreografias e vídeos associados a bandas famosas como o BTS.