Mobilidade urbana foi esquecida nas eleições?

Propostas de parlamentares eleitos em São Paulo revelam lacunas na mobilidade urbana, sobretudo na segurança viária e na prevenção de mortes no trânsito

Mobilidade urbana foi esquecida nas eleições?

Crédito: (Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Os eleitores paulistas escolheram seus representantes para a Assembleia Legislativa, a Câmara dos Deputados e o Senado Federal. Mas uma pergunta merece atenção: quantos dos parlamentares eleitos apresentaram propostas concretas para melhorar a mobilidade urbana e reduzir as mortes no trânsito?

Uma análise das propostas e dos posicionamentos públicos dos 30 parlamentares mais votados por São Paulo, incluindo deputados estaduais, federais e senadores, revela um cenário preocupante. Entre os 20 deputados mais votados, apenas cinco, ou 25%, tiveram propostas ou posicionamentos sobre mobilidade identificados nas fontes consultadas. Considerando toda a amostra, foram 14 dos 30 parlamentares analisados.

Isso não significa necessariamente que os demais sejam contrários ao tema, mas evidencia sua baixa presença nas agendas eleitorais examinadas. Em um estado onde milhões de pessoas enfrentam diariamente congestionamentos, transporte público insuficiente, deslocamentos demorados e riscos de sinistros de trânsito, a mobilidade urbana deveria ocupar uma posição muito mais relevante no debate político.

Acidentes no Trânsito - Mobilidade Urbana
(Arquivo/Agência Brasil))

Entre as propostas identificadas, predominam iniciativas voltadas ao transporte coletivo, especialmente a discussão sobre tarifa zero, novas fontes de financiamento, expansão dos sistemas sobre trilhos e integração metropolitana. São medidas importantes e, em grande parte, alinhadas à Política Nacional de Mobilidade Urbana, instituída pela Lei Federal nº 12.587/2012.

Entretanto, a mobilidade não pode ser reduzida à construção de novas linhas de metrô, corredores de ônibus ou à discussão sobre gratuidade tarifária.

É necessário compreender como as pessoas se deslocam, quanto tempo perdem diariamente, quais alternativas possuem e como diferentes modos de transporte podem funcionar de maneira integrada.

Outro ponto observado é o espaço conquistado pelas motocicletas nas discussões políticas. A regulamentação do transporte de passageiros por aplicativos, o apoio aos profissionais de entregas e a redução de tributos aparecem entre as iniciativas identificadas. São questões relevantes, principalmente para trabalhadores que dependem da motocicleta como instrumento de renda e deslocamento.

Contudo, incentivar ou facilitar o uso de determinado modo de transporte sem considerar seus impactos na segurança viária pode agravar problemas existentes. A motocicleta representa uma importante alternativa de mobilidade, mas também está associada a uma parcela expressiva das mortes no trânsito paulista.

Resultado preocupante

Talvez o resultado mais preocupante da análise esteja justamente na segurança viária. Nenhum dos 30 parlamentares examinados apresentou, nas fontes pesquisadas, um programa estruturado com diagnóstico, metas e instrumentos claros para reduzir as mortes no trânsito. Foram encontradas apenas iniciativas pontuais relacionadas à segurança de motociclistas.

E onde estão os pedestres, os ciclistas, as pessoas com deficiência e os idosos nessas propostas? A mobilidade ativa, que deveria receber prioridade conforme a legislação nacional, praticamente não apareceu nas agendas analisadas.

No Grande ABC, essa discussão ganha contornos ainda mais relevantes

A integração entre os sete municípios, a conexão com a capital, a expansão do transporte sobre trilhos, a qualidade dos ônibus intermunicipais, a infraestrutura cicloviária e a segurança dos deslocamentos exigem planejamento que ultrapasse os limites administrativos de cada cidade.

É justamente nesse ponto que deputados estaduais, federais e senadores podem exercer um papel decisivo. Embora a operação cotidiana do transporte urbano seja predominantemente responsabilidade dos municípios e, em determinados serviços, dos estados, os parlamentares participam da elaboração de leis, da definição de prioridades orçamentárias, da destinação de recursos e da fiscalização das políticas públicas.

Não se trata de exigir que todos os candidatos tenham a mobilidade urbana como principal bandeira eleitoral. Existem inúmeras demandas legítimas na sociedade, como saúde, educação, segurança pública e desenvolvimento econômico.

Entretanto, é necessário reconhecer que a mobilidade interfere diretamente em todas elas.

Trabalhador - Transporte Público - Mobilidade Urbana
(Fernando Frazão/Agência Brasil)

Um trabalhador que perde três horas por dia nos deslocamentos tem menos tempo para a família, para estudar, descansar e cuidar da própria saúde. Um ônibus preso no congestionamento compromete a produtividade. Uma pessoa atropelada ou um motociclista gravemente ferido representa, além do sofrimento humano, custos sociais e econômicos que atingem toda a sociedade.

O período eleitoral terminou, mas a responsabilidade dos representantes está apenas começando. Independentemente das propostas apresentadas durante a campanha, aqueles que conquistaram uma cadeira no Legislativo assumem o compromisso de representar a população, inclusive em temas que não fizeram parte de suas prioridades eleitorais.

Cabe agora à sociedade acompanhar os projetos apresentados, as votações, a destinação de recursos e os resultados efetivamente alcançados. Afinal, não ter apresentado uma proposta de mobilidade urbana durante a campanha não isenta nenhum parlamentar da responsabilidade de contribuir para melhorar os deslocamentos e preservar vidas.

E fica uma provocação: se dedicamos tantas horas de nossas vidas ao trânsito, por que dedicamos tão pouca atenção às propostas de mobilidade de quem escolhemos para nos representar?

Luiz Vicente Figueira de Mello Filho

Luiz Vicente Figueira de Mello Filho
(Divulgação/ABCdoABC)

Agente transformador da mobilidade urbana. Luiz Vicente é professor dos cursos de Engenharia, Arquitetura e Urbanismo no Grupo Wyden de Educação. É doutor em Engenharia Elétrica no Departamento de Comunicação – DECOM – FEEC da Unicamp (2020), mestre em Engenharia Automotiva pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (2009), pós-graduado em Comunicação e Marketing pela Faculdade Cásper Líbero (2005), possui graduação em Administração de Empresas (2002) e em Engenharia Mecânica (1999), ambas pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.

  • Publicado: 09/10/2026 16:50
  • Alterado: 09/10/2026 16:50
  • Autor: Luiz Vicente Figueira de Mello Filho

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