Menina de 10 anos lança livro sobre boneca negra

Escrito e ilustrado por Oyárónké Gino Ivanir dos Santos, livro infantil reúne aventuras de uma boneca e valoriza a identidade negra e a cultura afro-brasileira

Menina de 10 anos lança livro sobre boneca negra

Crédito: Oyárónké Gino Ivanir dos Santos (Divulgação)

Uma boneca que perde os braços e precisa passar por uma cirurgia improvisada, viagens em família e brincadeiras que se transformam em grandes aventuras. Foi a partir dessas experiências que Oyárónké Gino Ivanir dos Santos, de 10 anos, escreveu e ilustrou seu primeiro livro, As Aventuras da Boneca Oyá. Lançada às vésperas do Dia das Crianças, a publicação reúne histórias inspiradas no cotidiano da menina e incorpora referências à identidade negra, à cultura afro-brasileira e à diversidade religiosa.

A obra nasceu da relação de Oyárónké com sua boneca, carinhosamente chamada de Oyá, que se tornou personagem central de uma narrativa construída a partir de brincadeiras, viagens e momentos de convivência familiar. Ao assumir também a ilustração do livro, a jovem autora participa de diferentes etapas da criação literária, transformando experiências pessoais em histórias destinadas a outras crianças.

O lançamento integra uma iniciativa da Casa dos Sambistinhas, projeto produzido pelo Movimento das Mulheres Sambistas para estimular a criatividade e a produção cultural na infância. A proposta reuniu 18 participantes entre setembro e outubro, com nove crianças em cada mês, e garantiu a cada uma delas 50 exemplares de sua publicação.

Aventuras de Oyá misturam humor e experiências familiares

Oyárónké Gino Ivanir dos Santos - As Aventuras da Boneca Oyá
(Divulgação)

Narrado em primeira pessoa, As Aventuras da Boneca Oyá acompanha as descobertas de uma personagem que participa ativamente da rotina de sua dona. Entre os episódios apresentados está a ida ao “SUS da Nininha”, uma espécie de hospital imaginário onde a boneca recebe cuidados depois de perder os dois braços e precisar ser costurada.

A personagem também acompanha passeios pelo Rio de Janeiro, por Aparecida do Norte e por São Gonçalo, frequenta o cinema e participa até de uma aula de boxe. O universo criado por Oyárónké inclui ainda o coelho Sansão, apresentado como melhor amigo de Oyá, e outras bonecas negras que fazem parte de sua coleção.

As histórias incorporam hábitos da infância, como a leitura de livros e gibis, as orações antes de dormir e a convivência com familiares. A combinação de situações cotidianas com acontecimentos imaginários permite que a autora construa uma narrativa próxima das experiências de seu público, sem deixar de apresentar elementos de sua própria formação cultural.

Cultura iorubá e representatividade estão na narrativa

O livro também apresenta referências ao significado do nome Oyárónké e à sua relação com a cultura iorubá e com a orixá Oyá. Essas referências aparecem associadas às experiências da personagem e à maneira como a menina compreende sua identidade e suas origens.

Filha da professora doutora Mariana Gino e do professor doutor e babalawô Ivanir dos Santos, Oyárónké cresceu em um ambiente familiar ligado à valorização da cultura negra, à educação antirracista e ao enfrentamento da intolerância religiosa. Ambos os pais têm atuação no movimento negro brasileiro.

A presença de bonecas negras, de referências culturais africanas e de experiências familiares na narrativa contribui para ampliar a representação de crianças negras na literatura infantil. No caso de Oyárónké, essa participação ocorre também na autoria, já que a menina escreve e ilustra as próprias histórias, em vez de ocupar apenas o lugar de leitora.

Projeto incentiva crianças a escrever seus próprios livros

Oyárónké Gino Ivanir dos Santos - As Aventuras da Boneca Oyá
(Divulgação)

A publicação faz parte de uma experiência coletiva de formação literária promovida pela Casa dos Sambistinhas. Ao longo de dois meses, 18 crianças participaram da iniciativa, que resultou na produção de livros autorais e na distribuição de exemplares aos próprios participantes.

O professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) Flávio Gomes destacou o potencial educativo do projeto. “Extraordinária iniciativa e fomenta leitores e mais ainda escritores na mais tenra idade”, afirmou. Para o pesquisador, a proposta também contribui para ampliar o contato de diferentes gerações com a diversidade cultural e a educação antirracista.

O lançamento contou com a presença do escritor Ele Semog e de Helena Theodoro, intelectual reconhecida por sua contribuição aos estudos sobre cultura afro-brasileira e à participação de mulheres negras nos espaços acadêmicos. O professor titular da UFRJ André Leonardo Chevitarese, autor de 27 livros, também enviou uma mensagem à jovem escritora: “Continue nessa linda trajetória, sendo exemplo para tantas outras crianças, despertando nelas o amor pelos livros.”

Livro não está disponível para venda comercial

As Aventuras da Boneca Oyá não integra, neste momento, o circuito comercial de livrarias. A publicação tem caráter simbólico e está vinculada à iniciativa de incentivo à escrita desenvolvida pela Casa dos Sambistinhas.

O material divulgado sobre o lançamento não informa um canal específico para solicitar exemplares. A experiência de Oyárónké, no entanto, integra um projeto que procura incentivar crianças a registrar suas vivências, desenvolver a criatividade e reconhecer suas histórias como parte da produção cultural brasileira.

Edvaldo Barone

  • Publicado: 12/10/2026 14:35
  • Alterado: 12/10/2026 14:38
  • Autor: Edvaldo Barone