Tensão no Mar Vermelho provoca reação no mercado de petróleo
Bloqueio no Mar Vermelho leva petroleiros a mudar rotas, aumenta tensão internacional e provoca reação no mercado de petróleo
- Publicado: 21/07/2026 17:48
- Alterado: 21/07/2026 17:49
- Autor: Daniela Penatti
- Fonte: FOLHAPRESS
O bloqueio imposto pelos houthis do Iêmen aos portos sauditas no Mar Vermelho começou a provocar efeitos imediatos no transporte marítimo internacional. Logo no primeiro dia de vigência da medida, ao menos sete petroleiros alteraram seus trajetos e fizeram meia-volta para evitar a passagem pelo estreito de Bab el-Mandeb, nesta terça-feira (21).
A rota é considerada estratégica para o mercado global, já que por ela costumam ser transportados entre 9% e 12% do petróleo produzido no mundo. Na segunda-feira (20), os rebeldes apoiados pelo Irã anunciaram o fechamento do trecho para embarcações que carreguem ou tenham como destino petróleo saudita.
As informações foram divulgadas por monitores de tráfego marítimo, mas ainda não existe um panorama definitivo, pois os dados dependem do funcionamento dos sistemas de localização via satélite dos navios. A reação do mercado financeiro foi rápida: os contratos futuros registraram alta e o barril do tipo Brent avançou 2%, chegando a US$ 91.
Mar Vermelho vira novo ponto de tensão no conflito internacional
Os houthis enviaram mensagens eletrônicas para empresas que atuam na região nesta terça-feira, alertando contra a navegação pelo estreito. A medida representa uma nova frente na guerra iniciada em fevereiro pelos Estados Unidos e Israel contra grupos aliados de Teerã.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou nesta terça-feira que o país responderá caso seja necessário. Ele declarou que, se ocorrer algum ataque contra navios mercantes, “nós teremos que cuidar do assunto”.
Os houthis controlam a parte oeste do Iêmen desde 2014, com apoio do Irã. Já o governo deposto, sediado em Sanaa, recebe suporte da Arábia Saudita.
O grupo possui um amplo arsenal de drones e mísseis capazes de provocar impactos relevantes no comércio internacional. A capacidade militar ficou evidente durante o apoio aos terroristas do Hamas no conflito contra Israel entre 2023 e 2025, período em que os desvios de embarcações para evitar o Mar Vermelho fizeram os custos dos fretes quintuplicarem.
Bab el-Mandeb é principal preocupação para transporte de petróleo
O ponto estratégico da crise é o estreito de Bab el-Mandeb, também chamado de Bab al-Mandab, expressão árabe que significa “Portão das Lágrimas”. A passagem separa a costa do Iêmen e do Djibuti e conecta o Mar Vermelho ao oceano Índico.
O corredor é utilizado pela Arábia Saudita como alternativa para transportar grande parte de sua produção de petróleo para a China, Índia e outros mercados asiáticos, principalmente após o bloqueio prático do estreito de Hormuz desde o início da guerra.
No norte da região, pelo canal de Suez, seguem os navios com destino à Europa. Apesar de estarem teoricamente menos vulneráveis do que as embarcações que atravessam Bab el-Mandeb, esses petroleiros também podem se tornar alvos, já que os houthis possuem drones e mísseis capazes de alcançar longas distâncias.
Desde o início do conflito, com Hormuz interrompido, Riad aumentou em quatro vezes o volume de petróleo transportado pelo estreito, chegando a quase 4 milhões de barris por dia.
Na semana passada, o governo deposto do Iêmen iniciou um bloqueio aéreo ao aeroporto de Sanaa, apoiado por aviões de combate sauditas. A ação levou os houthis a endurecerem sua postura. A Arábia Saudita reclamou das ameaças marítimas, mas não explicou o motivo da retomada das hostilidades que estavam paralisadas desde 2022.
Rotas mais longas aumentam custos para petroleiros
O possível fechamento do estreito representa um risco significativo para o comércio mundial. Dos sete navios acompanhados pelos sistemas de monitoramento, quatro já estavam no Mar Vermelho carregados com petróleo, enquanto outros três permaneciam próximos à costa do Iêmen, no golfo de Áden, aguardando entrada na área.
As duas primeiras embarcações que mudaram de direção tinham como destino a China e a Índia. Ambas seguiram em direção ao canal de Suez, indicando que deverão utilizar uma rota mais extensa, passando pelo Mediterrâneo, seguindo pelo Atlântico e contornando a África até chegar ao oceano Índico.
No trajeto entre o porto saudita de Yanbu, principal terminal do país no Mar Vermelho, e a costa leste chinesa, a mudança pode acrescentar de 10 a 15 dias à viagem. Normalmente, esse percurso leva entre 20 e 25 dias, dependendo das condições climáticas e da velocidade dos navios.
A alteração também representa aumento de despesas, incluindo combustível, custos com tripulação, transporte da carga e seguros.
Além disso, existem limitações operacionais. O canal de Suez, administrado pelo Egito, não permite a passagem completa de superpetroleiros da categoria VLCC, normalmente utilizados no abastecimento da China. Essas embarcações precisam reduzir a quantidade de carga transportada para evitar problemas durante a travessia.