Lula propõe mudar escolha de ministros do STF

Presidente defende discutir a participação de entidades jurídicas e setores da sociedade na seleção de nomes para o Supremo, mas ainda não apresentou um modelo

Lula propõe mudar escolha de ministros do STF

Crédito: (Ricardo Stuckert/PR)

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) defendeu a possibilidade de alterar o processo de escolha dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), atualmente concentrado na indicação presidencial e na aprovação pelo Senado. A ideia apresentada pelo chefe do Executivo prevê discutir a participação de representantes de diferentes setores da sociedade na avaliação dos nomes que poderão integrar a Corte, embora ainda não exista uma proposta formal com regras definidas.

Durante entrevista ao programa Canal Livre, da Band, em 27 de setembro, Lula mencionou a criação de uma comissão formada por pessoas de reconhecida atuação em suas áreas, que poderia participar da análise de possíveis candidatos ao tribunal. Entre as instituições citadas estão a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), organizações de juristas, sindicatos e representantes empresariais.

A sugestão abre uma discussão sobre o equilíbrio entre a prerrogativa constitucional do presidente de indicar ministros e a participação de outras instituições no processo. Até o momento, não foram apresentados critérios para a composição do eventual colegiado, a forma de escolha de seus integrantes ou o alcance de suas decisões.

Como funciona atualmente a escolha para o STF

STF
(Antônio Cruz/ Agência Brasil)

Pela Constituição Federal, cabe ao presidente da República indicar os ministros do Supremo Tribunal Federal. Os nomes precisam ser aprovados pela maioria absoluta do Senado, após sabatina na Comissão de Constituição e Justiça e votação em plenário. Somente depois dessa etapa ocorre a nomeação.

Os candidatos devem cumprir requisitos constitucionais, entre eles idade superior a 35 anos e inferior a 70 anos, notável saber jurídico e reputação ilibada. Não existe exigência de que o indicado seja magistrado de carreira, o que permite a escolha de profissionais com diferentes trajetórias na área jurídica.

A eventual participação de um conselho externo levantaria questões sobre a compatibilidade do novo procedimento com as atribuições já estabelecidas pela Constituição. Caso o modelo pretendesse modificar a competência presidencial ou a forma de aprovação dos indicados, seria necessária uma mudança constitucional. Uma comissão meramente consultiva, por outro lado, teria implicações jurídicas diferentes, dependendo de suas regras.

Participação de entidades ainda depende de definição

Ao mencionar organizações jurídicas, religiosas, sindicais e empresariais, Lula sinalizou a intenção de ampliar o número de vozes envolvidas na discussão sobre futuras indicações. O presidente também citou a possibilidade de participação majoritária de mulheres na comissão, sem estabelecer uma composição definitiva.

Ainda não está esclarecido se as entidades teriam competência para sugerir nomes, avaliar currículos, formular uma lista de candidatos ou apenas apresentar recomendações ao Executivo. Também não há informações sobre a eventual participação de instituições acadêmicas, associações de magistrados e representantes de outros segmentos sociais.

A ausência desses detalhes impede avaliar como o mecanismo funcionaria na prática e qual seria seu impacto sobre a escolha dos ministros. A definição dos participantes e das atribuições de cada instituição seria uma das etapas necessárias para transformar a ideia em uma proposta concreta.

Especialistas discutem riscos de influência política

A possibilidade de criar um conselho com representantes de organizações sociais também provocou questionamentos sobre os critérios que seriam utilizados para avaliar os candidatos. Entre as preocupações estão a representação equilibrada dos diferentes setores e o risco de que disputas entre grupos organizados passem a interferir no processo de seleção.

O cientista político e doutor em Direito Bruno Coletto considera que a presença de entidades com interesses distintos não assegura, por si só, uma escolha independente. Para ele, os futuros ministros precisam reunir reconhecimento jurídico que ultrapasse as divisões políticas e ideológicas.

A jurista Katia Magalhães também apresenta ressalvas à proposta e defende maior atenção à trajetória profissional, à qualificação técnica e à experiência dos candidatos. Na avaliação dela, critérios objetivos deveriam ter prioridade na discussão sobre possíveis mudanças no sistema.

As críticas não significam, porém, uma defesa irrestrita do procedimento atual. Ambos os especialistas também questionam a capacidade das sabatinas realizadas pelo Senado de assegurar uma avaliação suficientemente aprofundada dos indicados.

Debate inclui mandatos e limites de atuação do Supremo

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(Antonio Augusto/STF)

A discussão sobre a composição do STF envolve ainda o tempo de permanência dos ministros no cargo. Na entrevista de setembro, Lula também defendeu examinar a possibilidade de estabelecer mandatos para os integrantes da Corte, além de rever os critérios de indicação.

Atualmente, os ministros não possuem mandato com duração previamente determinada. Sua permanência está sujeita às regras constitucionais aplicáveis, incluindo a aposentadoria compulsória aos 75 anos. Coletto defende a discussão de mecanismos periódicos de avaliação dos integrantes do tribunal e de mudanças nas competências da Corte. Entre suas sugestões estão a revisão de determinadas atribuições criminais e a imposição de limites a decisões individuais de ministros em questões de maior relevância.

Magalhães também considera necessária uma revisão das competências do Supremo. Para ela, mudanças na forma de nomeação teriam alcance limitado sem uma discussão sobre as atribuições exercidas pelos magistrados e os mecanismos de controle institucional.

Por enquanto, a proposta apresentada por Lula permanece no campo das discussões políticas. Não há texto definitivo que estabeleça a participação das entidades mencionadas, e qualquer alteração nas competências constitucionais do presidente e do Senado dependerá de tramitação legislativa.

Edvaldo Barone

  • Publicado: 12/10/2026 11:35
  • Alterado: 12/10/2026 11:35
  • Autor: Edvaldo Barone