Virada lulista no pântano de Kássio teve corrida maluca no TSE

Nem com garagens trancadas, Dick Vigarista cavando alçapões na linha de chegada e um TSE assistindo ao incêndio em câmera lenta, bolsonarismo conseguiu evitar a virada lulista, jogando a eleição para a gritaria de um tapetão que está longe de terminar quando acabar

Virada lulista no pântano de Kássio teve corrida maluca no TSE

Crédito: Ilustração gerada por IA via ChatGPT (OpenAI)

Abertura

Nesse domingo de Kássio, vivemos mais um capítulo histórico num país que já implorava, de joelhos e com senha na mão, pelo direito sagrado ao tédio civilizado. A bem da verdade sobrevivemos a uma pandemia letal, a uma tentativa de golpe organizada com a competência de excursão de terceira idade e a ex-presidentes trocando o palácio pelo xadrez. A história brasileira não anda: tropeça, rola escada abaixo e ainda pede música no Fantástico. O segundo turno, convenhamos, já nasceu como pudim de padaria esquecido no sol: melado, suspeito e com mosca rondando.

Enquanto Lula e Flávio Bolsonaro mediam forças nas urnas, a democracia motorizada tratou de exibir, sem pudor algum, o velho abismo de classe que o Brasil esconde debaixo do tapete persa. O eleitor de SUV chegou à seção escoltado pelo ar-condicionado, ouvindo podcast de investimentos e reclamando de um trânsito que nem existiu. Já o trabalhador sem carro descobriu, da pior forma, que sem ônibus na rua o seu título eleitoral vale tanto quanto um papel higiênico molhado.

Charge satírica da coluna Café com Cinismo sobre o segundo turno das eleições de 2026, mostrando um trabalhador periférico sem transporte no ponto de autocarro, um eleitor num SUV, Kássio Nunes Marques junto a um caixote do lixo com urnas, um boleto bancário sorridente como campeão invicto e Dilma Rousseff a dizer "eu avisei".
Ilustração gerada por IA via ChatGPT (OpenAI)

Das portas trancadas ao meio-fio da sarjeta, o eco do eleitor era com a voz azeda em soco a seco de quem descobriu o tamanho do golpe sofrido: “eles fizeram a sacanagem, eu não recebi a ordem do cartório”. E nessa rinha de catracas sequestradas e escolas inacessíveis, só existe um candidato que vence sem depender de ônibus, carona ou liminar. O campeão invicto, pontual como relógio suíço e implacável como sogra em almoço de domingo, segue sendo o boleto bancário, que desliza por debaixo da porta sem jamais precisar de mandado judicial.

É o único cabo eleitoral que nunca falta na segunda, cobra em juros de agiota de uma nação que assiste, boquiaberta, à montagem de mais uma lona de circo. Nessa bagunça institucional, escorre com requintes de crueldade a profecia de outrora ridicularizada Dilma Rousseff. Alguém lembra daquela frase que virou meme, pois então ela acaba de virar manual de instrução. Nessa disputa maculada pela sabotagem deliberada, nem quem ganhar nem quem perder vai realmente ganhar, isso porque o direito ao voto foi atropelado no meio do caminho e ninguém parou para prestar socorro.

E se este domingo descambou para a mais completa balbúrdia, o espetáculo grotesco tem protagonista de capa preta e figurino impecável. Atende pelo nome de Kássio Nunes Marques, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que se esforçou pra desmoralizar a própria Corte sem precisar de ajuda externa. Foi um raro caso de autossuficiência no serviço público. Uma tentativa evidente de sabotagem, o ministro produziu com esmero um dos maiores lixos operacionais da história das urnas eletrônicas.

A lambança de Kássio e o fiasco no TSE

Kássio Nunes Marques, o ministro promovido à honrosa categoria de amigo dileto da família Bolsonaro, já havia chegado ao fim de semana debaixo do tiroteio moral da imprensa. Bastou a sexta-feira amanhecer para a Revista Piauí escancarar as relações obscuras e os festins regados a Fausto no tríplex paulistano do banqueiro Daniel Vorcaro, porque nada grita “imparcialidade” como um brinde no salão de quem tem interesse em tudo. O que era mero constrangimento de salão virou, neste domingo, o epicentro de uma paralisia administrativa digna de repartição em véspera de feriado prolongado.

Ninguém com um pingo de memória esquece 2022, quando Alexandre de Moraes enquadrou em flagrante Silvinei Vasques pela blitz da PRF que parava ônibus alegando pneu careca e a desculpa, das mais esfarrapada desde “o cachorro comeu meu dever de casa”. Pelo visto, os golpistas de plantão aprenderam que é muito mais seguro trancar o veículo na origem do que inventar blitz no meio da rodovia.

Desta vez, com as garagens trancadas e o transporte asfixiado desde o raiar do dia, a cúpula do tribunal preferiu cruzar os braços com a serenidade de um salva-vidas lixando as unhas enquanto o banhista se afoga.

Faltou só servir um cafezinho para os prefeitos que esconderam a chave dos portões no bolso do paletó. O contraste entre a urgência de ontem e a moleza de hoje revela um jogo previamente desenhado para vencer a cidadania pelo cansaço. Afinal, para que sujar as mãos cassando o título do pobre se basta sumir com o motorista no domingo e esperar o relógio bater cinco horas?

Charge da coluna Café com Cinismo com Kássio Nunes Marques de toga a segurar um relógio de bolso e a dizer "Decidirei a meu tempo...", ao lado de urnas no lixo, eleitores barrados num portão fechado às 17h, Daniel Vorcaro a espreitar de uma varanda e Alexandre de Moraes a enquadrar Silvinei Vasques em 2022.
Ilustração gerada por IA via ChatGPT (OpenAI)

Do alto de uma lentidão milimetricamente calculada, Kássio teve a ousadia de anunciar, no início da tarde, que a retenção dos ônibus na Bahia seria examinada “a seu tempo”. Enquanto o relógio corria contra o trabalhador abandonado no ponto, o tempo particular do magistrado andava em operação tartaruga — e tartaruga com artrose. É a consagração da covardia togada, que decide não decidir para deixar que a sabotagem das ruas faça o serviço sujo nas urnas.

Diante do silêncio obsequioso do TSE, a candidatura governista teve de bater desesperada às portas do Supremo Tribunal Federal (STF), com o prazo apertando o pescoço feito gravata de casamento. A máquina judicial só foi arrancada do cochilo na última meia hora antes do encerramento, numa prorrogação de duas horas obtida a fórceps e que, na prática, chegou como bombeiro que aparece só para fotografar as cinzas. Fica a pergunta: onde se escondia o responsável máximo pelo sufrágio, que precisou ser atropelado por outra instância para enxergar o óbvio?

Para coroar a sucessão de vexames, o tribunal limitou-se a expedir, com o colapso já consumado, uma circular burocrática e esquizofrênica avisando que a extensão valeria apenas para as urnas que ainda estivessem abertas. É como anunciar sobremesa grátis depois de expulsar os clientes, varrer o salão e apagar as luzes. Chancelar pela metade a ordem do Supremo, quando milhares de seções já estavam no cadeado, beira o escárnio — o golpe final de uma gestão que apequenou a instituição e transformou a Justiça Eleitoral numa repartição com plaquinha de “volte amanhã”.

De Orlando a Paris e o crime nas garagens

Antes mesmo de Kássio, lembre que nossa política nacional tem essa compulsão de reprisar suas piores tragédias como comédia pastelão, trocando apenas o destino dos fugitivos da vez. Se outrora Anderson Torres escapava para o sol da Flórida enquanto o edifício da ordem desabava, a fuga atual exigiu verniz europeu e milhas mais sofisticadas. Quando a ordem de prisão contra o secretário de Mobilidade de Salvador pela retenção criminosa dos ônibus foi expedida, o moço já estava “de boas”, instalado em Paris, provavelmente reclamando do metrô de lá.

Enquanto o secretário soteropolitano flanava pelos bulevares prometendo se apresentar “com calma” na segunda-feira, a fiscalização flagrava centenas de veículos parados nas garagens baianas. A justificativa beirou daqui ao surrealismo Dalí: uma súbita e inadiável operação para descolar adesivos de campanha dos ônibus em pleno domingo de votação. É o tipo de zelo estético que só acomete a administração pública quando o passageiro pobre precisa chegar à urna, mas nunca quando ele precisa chegar ao posto de saúde.

Ilustração satírica mostrando o secretário de Mobilidade de Salvador de boina e copo de vinho em frente à Torre Eiffel com um mandado de prisão no bolso a dizer "Só segunda-feira!", autocarros retidos na Bahia, garagens trancadas em São Paulo e Anderson Torres a fugir para Orlando em 2022.
Ilustração gerada por IA via ChatGPT (OpenAI)

Na capital paulista, a gestão de Ricardo Nunes também foi pega com a boca na botija, segurando mais de 30% da frota nas garagens sob o comovente pretexto de economizar. Para descobrir a quem obedecem às catracas paulistanas, não é preciso bola de cristal nem cartomante de esquina. Basta juntar as peças das recentes investigações ministeriais sobre a infiltração do crime organizado. O domínio do PCC e suas conexões com caciques aliados e candidaturas do Partido Liberal escancaram a engrenagem que comanda as frotas de transporte público.

Quando empresas de ônibus operam como extensões de interesses escusos e braços armados da conveniência eleitoral, sumir com a frota deixa de ser falha de trânsito e vira estratégia de campanha. A asfixia da mobilidade aconteceu no asfalto e se repetiu nas nuvens, com uma enxurrada suspeita de voos cancelados rumo aos rincões do Nordeste. Uma puta coincidência tão espontânea quanto choro de herdeiro na leitura do testamento. Diante do pandemônio em aeroportos, a imprensa tradicional de fraque ainda tentou desmentir o desespero alheio, servindo panos quentes para abafar o boicote.

Era justamente esse cerco corporativo e miliciano que exigia intervenção enérgica e imediata do poder central, e não notas sonolentas no fim da tarde, redigidas com a urgência de quem escolhe papel de parede. Ao permitir que barões do transporte e prefeituras cúmplices brincassem de sequestrar o direito de ir e vir, a autoridade pública simplesmente jogou a toalha. E assim a democracia brasileira seguiu respirando por aparelho, mesmo após uma relação de locador e locatário disfarçada, em que o voto dependia do humor do dono da garagem, e o aluguel, como sempre, quem paga é o inquilino.

O arbítrio do mesário e o portão na cara

O fruto envenenado da hesitação de Kássio Nunes Marques despencou do galho pontualmente às 17h, espalhando o caos pelo território nacional. Como a determinação do Supremo desceu só no apagar das luzes, o encerramento da votação ficou entregue ao livre-arbítrio de mesários desorientados, cada um interpretando a lei como quem lê bula de remédio sem óculos. Sem uma diretriz tempestiva da cúpula, milhares de seções baixaram as portas e imprimiram boletins na cara de eleitores atônitos.

Precisa mesmo dizer que nenhum mesário tem mandato para revogar decisão judicial? Pois a confusão de Brasília transformou cada escola num tribunal sumário, com o presidente de seção no papel de juiz, júri e porteiro. Por toda parte, vídeos revoltantes registraram cidadãos que caminharam quilômetros só para dar de cara com grades de ferro trancadas, como quem chega à festa depois que o anfitrião já recolheu até os guardanapos. A garantia legal de votar até as 19h virou letra morta diante da pressa de quem tinha mais apego ao botão de desligar do que à Constituição.

Ilustração satírica mostrando o secretário de Mobilidade de Salvador de boina e copo de vinho em frente à Torre Eiffel com um mandado de prisão no bolso a dizer "Só segunda-feira!", autocarros retidos na Bahia, garagens trancadas em São Paulo e Anderson Torres a fugir para Orlando em 2022.
Ilustração gerada por IA via ChatGPT (OpenAI)

O golpe de misericórdia na isonomia veio com a determinação bizarra de que seções já encerradas jamais poderiam ser reabertas aos prejudicados. Nasceu assim a figura kafkiana do eleitor amputado por capricho cronológico, cujo direito soberano dependeu exclusivamente da agilidade do funcionário com o cadeado. Uma democracia decidida no cronômetro, feito prova de cem metros rasos — só que quem corria era a chave. Milhares de cidadãos que gastaram o domingo à espera de ônibus fantasmas foram sumariamente alijados da chance de escolher.

Diante desse cenário desolador, ninguém consegue afiançar quantos milhões de brasileiros foram silenciados por fechaduras apressadas. Mesmo nos locais onde a tolerância foi estendida, a credibilidade do processo já havia sido mortalmente perfurada pela desordem. O estrago na legitimidade popular foi profundo e irreparável, uma névoa espessa sobre cada boletim apurado — e névoa, no Brasil, costuma virar tempestade em grupo de WhatsApp.

E, para arrematar a comédia de horrores, o presidente do TSE ainda encontrou ânimo para subir à tribuna, ladeado pela cúpula do Congresso, e celebrar a “estabilidade” da jornada. Falar em serenidade republicana enquanto multidões protestavam diante de escolas fechadas exige uma desconexão digna de Maria Antonieta oferecendo brioches à fila do pão. Foi o retrato acabado de uma magistratura que admirava a própria compostura no espelho enquanto a confiança nas urnas escorre pelo ralo, vendo seus escolhidos sendo humilhantemente derrotados.

A Corrida Maluca, Dick Vigarista e o Cinismo de Miami

O nome de Kássio é o cerne desta disputa que acabou descendo ao nível de um episódio degradante dessa célebre Corrida Maluca, em que a decência ficou largada no acostamento faz tempo. O bolsonarismo encarna com perfeição a alma de Dick Vigarista: aquele que mesmo quando o carro da frente parece ter vantagem, a compulsão pela trapaça fala sempre mais alto. É patologicamente irresistível parar na curva da linha de chegada para espalhar tachinhas, cavar buracos e cortar os freios do adversário, só para ter uma patifaria para chamar de sua, e como no desenho, terminavam enroscado na própria armadilha.

Ao lado desse estratagema pueril, o comando complacente da Justiça Eleitoral fez as vezes do cachorro Muttley, com aquela risadinha cínica de canto de boca, abanando o rabo para a confusão enquanto aguarda a medalha. A armadilha contra os eleitores humildes foi tão escancarada que beira o deboche internacional. O Brasil viu a própria eleição reduzida a uma pantomina (aprendi essa com o Collor) de desenho animado, em que as regras são rasgadas com um sorriso no rosto e trilha sonora de Hanna-Barbera ao fundo.

Charge inspirada na Corrida Maluca mostrando Dick Vigarista num carro com a sigla PL e o cão Muttley ao lado de uma armadilha na pista antes da linha de chegada, um militante do PL a pedir prorrogação no Sul mas a gritar "Golpe de Estado" contra a decisão de Zanin, e Eduardo Bolsonaro com Paulo Figueiredo numa mesa em Miami.
Ilustração gerada por IA via ChatGPT (OpenAI)

Se a balbúrdia teve alguma utilidade prática, foi abastecer a retórica golpista de quem já levava a narrativa da impugnação pronta no bolso, como aluno que traz o atestado médico antes mesmo de faltar. Bastou o relógio registrar a extensão do prazo para que Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo, refugiados num banquete em Miami, destilassem veneno contra as urnas. Do conforto ensolarado da Flórida, a dupla correu para acusar a medida judicial de interferência indevida (patriotismo de longa distância, com fuso horário e ar-condicionado central), em perfeita sintonia com a má vontade do próprio Kássio.

O cinismo atinge proporções astronômicas quando se constata que a plateia que aplaude esses ataques não enxerga anomalia alguma nos pedidos do Partido Liberal. Quando a legenda exigiu ampliar o horário em redutos do Sul e do Sudeste sob a desculpa de temporais, o coro dos indignados emudeceu com reverência de missa. Para esses moralistas de ocasião, regra é como guarda-chuva emprestado: só vale quando protege a própria cabeça.

Essa hipocrisia descarada só floresceu porque a presidência do tribunal ofereceu a frouxidão necessária para que a pista virasse um lamaçal. Ao adiar o socorro aos eleitores e consagrar o descompasso entre urnas abertas e trancadas, a autoridade abasteceu o arsenal dos dois polos, em um raro caso de neutralidade onde todo mundo saiu armado. A extrema-direita garantiu seus minutos de engajamento histérico nos telões de Miami, enquanto à população sobrou catar os cacos da dignidade democrática com as mãos nuas.

A falência dos três poderes e o tapetão do 3º turno

O Kássio Day, o legado tenebroso de um domingo que tenha certeza, não se encerra nas atas, ele consagra a capitulação humilhante dos Três Poderes da República diante do país. Falhou o Executivo, que não antecipou os bloqueios, falhou o Legislativo, com sua conivência fisiológica de sempre, e falhou o Judiciário, de modo tão gritante que dispensa megafone. A omissão coletiva rebaixou o Brasil a piada internacional, exibindo nossas fraturas expostas como quem posta raio-x nos stories.

Mais do que um vexame planetário, paira a certeza asfixiante de que esta eleição carrega o vício congênito por não ter acabado na contagem. E pode anotar, o pleito seguirá nos tribunais e no chororô das bancadas, inaugurando uma sangria com começo, meio e nenhum fim de uma verdadeira novela mexicana bancada com dinheiro público. E por fim, a semente da contestação foi plantada nos pontos de ônibus vazios e adubada com esmero pelo compadrio de uma toga sem bússola e mesmo assim, não adiantou.

O Lula de fato venceu, mas para o “antidemocratismo”, pouco importa o ungido nas urnas, o perdedor da noite já tem as petições redigidas e a infantaria inflamada para armar o barraco. Se a esquerda perdesse por margem estreita, brandaria o sequestro do transporte que impediu multidões pobres de exercer sua vontade soberana. Como a direita tombou, deverá exibir a prorrogação arrancada ao Supremo e o travamento do sistema como “provas irrefutáveis” de manipulação togada, ou seja, um tropeço nas próprias pernas.

Ilustração satírica mostrando um cidadão vestido de palhaço com a camisola do Brasil a chorar enquanto líderes mundiais riem dos jornais, representantes dos Três Poderes inertes numa mesa, eleitores sem autocarro ao sol e advogados em pânico com pilhas de processos num tribunal representando o tapetão.
Ilustração gerada por IA via ChatGPT (OpenAI)

Kássio Nunes Marques alcançou a proeza nefasta de costurar, sob medida, uma justificativa de tapetão para alimentar a paranoia de qualquer derrotado. Já temos um alfaiate do caos atendendo freguesia dos dois lados do balcão. Não haverá trégua, discurso de união nem bandeira branca, mas sim choro e ranger de dentes arrastando o país para a lama da instabilidade. A pacificação proclamada em tom solene pelas autoridades revelou-se um zumbi natimorto antes mesmo do cair da noite.

O Brasil não sai deste domingo com um governante legitimado pela vontade inquestionável das massas, mas com um litígio de estimação contratado para os próximos anos, com renovação automática. A fragilidade democrática foi exposta até o osso pela cumplicidade de um magistrado que preferiu administrar o caos a contê-lo, como síndico que, em vez de apagar o incêndio, convoca uma assembleia. E assim terminamos a contagem com o gosto metálico da fraude moral impregnado em cada voto que não pôde ser depositado na urna.

Fechamento

Gratidão amarga ao querido Kássio, pois chegamos ao ponto final desta jornada com a certeza de que a cidadania sofreu um golpe grotesco, digno das crônicas mais desiludidas de Luís Fernando Veríssimo. O voto universal virou, entre nós, uma quimera reservada a quem tem gasolina no tanque ou um contatinho bem-posicionado no poder. Para o trabalhador que depende da boa vontade de prefeitos e do ritmo de tartaruga de Kássio Nunes Marques, a porta da democracia bateu com estrondo e ainda prendeu na capa.

Arnaldo Jabor, se ainda estivesse entre nós, berraria que nenhuma sociedade sobrevive incólume à farsa de fingir que suas próprias instituições funcionam com lisura. Enquanto secretários em fuga jantam em bistrôs parisienses e ministros analisam a pátria em pandarecos “a seu tempo”, o cidadão comum engole o desamparo sem talher. O espetáculo foi servido à moda da casa: um À La Minuta de Imprudência, guarnecido por cortes de casaca cozinhado de costas para a poeira e empratado no sofrimento do povo real, mais: ainda cobram os 10% ao fim do banquete, com a conta enviada à mesa de quem sequer chegou a sentar.

Mas que o distinto público não se aflija com o transporte no alvorecer do novo dia de labuta. Na segunda-feira, às cinco da madrugada, todos os ônibus das capitais sairão reluzentes das garagens, pontuais como nunca e sem um único adesivo a atrapalhar. Quando o objetivo é levar o operário curvado até o moedor de carne da rotina, nenhum pneu fura por milagre, nenhum motorista desaparece e nenhum prefeito descobre, de repente, a virtude da economia.

Ilustração satírica mostrando um cidadão vestido de palhaço com a camisola do Brasil a chorar enquanto líderes mundiais riem dos jornais, representantes dos Três Poderes inertes numa mesa, eleitores sem autocarro ao sol e advogados em pânico com pilhas de processos num tribunal representando o tapetão.
Ilustração gerada por IA via ChatGPT (OpenAI)

A democracia pode ser suspensa por conveniência e as escolas fechadas pela pressa dos mesários, mas o capitalismo patrimonialista não tolera um minuto de atraso na cobrança. O boleto estará à espera na mesa bamba, soberano e impávido como estátua de praça, indiferente do choro de perdedor e aos protestos da corte. Para pagar os tributos que bancam as lagostas e os jatinhos dos donos do poder, a roleta da vida gira sem pestanejar e como sempre a banca, como sempre, nunca perde.

Por sim, engolimos o último gole de café frio deste domingo melado com a convicção amarga de que o circo da contestação mal começou a pegar fogo e já tem gente vendendo pipoca na arquibancada. Com as trapaças costumaz, e consumadas na linha de chegada e o país atirado ao tapetão perpétuo, não há vencedor que escape da degradação geral.

E assim, na farsa de um sistema que tentou implodir a república diante da nossa história, cumpre-se o fatídico oráculo de Dilma: “Não acho que quem ganhar ou quem perder, nem quem ganhar nem perder, vai ganhar ou perder. Vai todo mundo perder”.

PS: (nós vamos sorrir) e a democracia, não apenas venceu, mas deu até picadinha de orelha a orelha.

  • Publicado: 26/10/2026 16:12
  • Alterado: 26/10/2026 16:13
  • Autor: João Pedro Mello

Veja mais

Eventos

28/10 - 20h
São Paulo
BTS World Tour – ARIRANG