Instituto Butantan cria nanopartículas contra parasitas

O Instituto Butantan patenteou nanopartículas de prata sustentáveis que eliminam o parasita da esquistossomose e larvas de mosquito transmissor

Instituto Butantan cria nanopartículas contra parasitas

Crédito: Nanoparticulas de prata contra o aedes aegypti criado pelo Instituto Butantan - (Reprodução)

Cientistas do Instituto Butantan, instituição de pesquisa ligada à Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, desenvolveram um composto bioativo de nanopartículas de prata capaz de neutralizar o parasita causador da esquistossomose e larvas do mosquito Aedes aegypti. Produzido com apoio de fungos por meio do conceito de nanotecnologia verde, o material demonstrou alta eficácia letal contra os vetores transmissores, sem afetar a sobrevivência de espécies aquáticas nativas como peixes e microcrustáceos.

O estudo desenvolvido no Instituto Butantan foi publicado na revista internacional Environmental Science: Nano, pertencente ao grupo britânico Royal Society of Chemistry (RSC). O método inovador garantiu a concessão de carta-patente oficial expedida pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) em julho de 2026.

Os experimentos foram liderados pela pesquisadora Ana Olivia de Souza, do Laboratório de Desenvolvimento e Inovação (LDI) da instituição, em conjunto com o pesquisador Edison Barbieri, do Instituto de Pesca de São Paulo, e o pesquisador Luiz Gustavo Ribeiro, com suporte técnico do Laboratório de Parasitologia.

Nanotecnologia verde com fungo amazônico

Nanoparticulas de prata contra o aedes aegypti criado pelo Instituto Butantan - (Reprodução)
Nanoparticulas de prata contra o aedes aegypti criado pelo Instituto Butantan – (Reprodução)

Para sintetizar o composto metálico, a equipe técnica do Instituto Butantan utilizou substâncias secretadas pelo fungo Aspergillus tubingensis. A rota micogênica substitui insumos químicos pesados e solventes sintéticos convencionais, eliminando a geração de resíduos industriais tóxicos na fabricação dos biocidas.

Sobre a escolha da linhagem biológica e a estabilidade da formulação, a coordenadora da pesquisa explicou:

“De todas as espécies de fungos que avaliamos no laboratório, as nanopartículas obtidas com substratos produzidos pelo Aspergillus tubingensis foram as que apresentaram a maior atividade biocida e antimicrobiana, aliada a uma alta estabilidade.”

As biomoléculas liberadas pelo micro-organismo formam um invólucro natural ao redor do núcleo de prata, permitindo uma liberação gradual dos íons no ambiente hídrico.

Desempenho biológico contra esquistossomose e arboviroses

A formulação desenvolvida pelos cientistas apresentou desempenho rigoroso em ensaios laboratoriais controlados:

  • Eliminação de cercárias: Concentrações reduzidas do material registraram 100% de mortalidade nas cercárias do Schistosoma mansoni após apenas duas horas de exposição direta.
  • Ação larvicida contra o mosquito: Em ensaios com o quarto estágio de desenvolvimento das larvas do Aedes aegypti, o produto alcançou taxa de letalidade próxima de 100% no intervalo de 48 horas.
  • Estabilidade temporal: A solução manteve integridade estrutural, tamanho e capacidade biocida preservados por mais de cinco anos em temperatura ambiente.

Seletividade química preserva fauna de rios e lagos

O principal diferencial da tecnologia desenhada no Instituto Butantan reside na baixa ecotoxicidade para organismos não-alvo. Os controles tradicionais da esquistossomose utilizam moluscicidas como a niclosamida, substância de alto custo com potencial bioacumulativo que causa a mortandade em massa de caramujos e contamina leitos de rios.

Em vez de extinguir os caramujos hospedeiros, o método do Instituto Butantan foca na interrupção do ciclo de contágio diretamente na água:

“Em vez de atingir a população de caramujos e destruir o ecossistema local, a nanopartícula biogênica tem maior seletividade e elimina diretamente a cercária, o elo infectante da cadeia epidemiológica.”

Testes toxicológicos conduzidos em colaboração com o Instituto de Pesca atestaram a segurança do composto em espécies bioindicadoras, tais como o peixe-paulistinha (zebrafish), tilápias (Oreochromis niloticus), lambaris (Deuterodon iguape), carás (Geophagus brasiliensis), camarões-fantasma (Palaemon pandaliformis) e microcrustáceos (Daphnia magna).

Para matar os microcrustáceos, por exemplo, foi exigida uma concentração 22 vezes superior à dose suficiente para liquidar as cercárias. A cápsula biológica retarda a liberação metálica e impede picos de toxicidade, assegurando que o invento do Instituto Butantan ofereça uma ferramenta limpa e escalável para programas de saúde pública e vigilância epidemiológica.

Gabriel de Jesus

  • Publicado: 06/11/2026 15:22
  • Alterado: 06/11/2026 15:22
  • Autor: Gabriel de Jesus