Geraldo Alckmin vira ponte entre Lula e a direita

Geraldo Alckmin ganha protagonismo no segundo turno e é aposta de Lula para atrair eleitores moderados, empresários e setores da direita.

Geraldo Alckmin vira ponte entre Lula e a direita

Crédito: Valter Campanato/Agência Brasil

O vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) ganhou protagonismo na campanha de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e passou a ser uma das principais apostas para atrair eleitores de centro e de direita no segundo turno das eleições de 2026. Ex-adversário histórico do petista, o político busca ampliar o diálogo com setores do empresariado e com eleitores que rejeitam o senador Flávio Bolsonaro (PL), adversário de Lula na disputa presidencial.

A mudança de posição marca uma transformação na trajetória política de Geraldo Alckmin. Em 2006, quando disputou a Presidência pelo PSDB, ele protagonizou confrontos duros com Lula durante a campanha. Em um debate na TV Bandeirantes, naquele ano, cobrou explicações sobre a origem do dinheiro que teria sido utilizado na compra de um dossiê contra políticos tucanos.

Vinte anos depois, os antigos adversários dividem a mesma chapa. Desde a aproximação iniciada em 2021, quando Alckmin deixou o PSDB, o vice-presidente passou a funcionar como uma ponte entre Lula e eleitores menos identificados com o PT, sobretudo entre empresários e setores considerados mais moderados.

Geraldo Alckmin amplia espaço no segundo turno

A participação de Geraldo Alckmin na campanha ganhou força após o primeiro turno, realizado em 4 de outubro. A estratégia da campanha petista passou a dar mais visibilidade ao vice-presidente, que intensificou viagens e encontros políticos em diferentes regiões do país. O segundo turno está marcado para 25 de outubro, conforme o calendário do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Em Hortolândia, no interior paulista, Alckmin participou de um encontro com prefeitos e vereadores que reuniu representantes de partidos associados à candidatura de Flávio Bolsonaro, como PL, PP e União Brasil. A iniciativa buscou demonstrar que um eventual novo governo Lula manteria o diálogo com administrações municipais de diferentes orientações partidárias.

Ao longo de dez dias, Geraldo Alckmin também passou por Campinas, São Carlos, Curitiba, São Bernardo do Campo, Poços de Caldas, Salvador e Rio de Janeiro. A agenda reforçou seu papel na busca por votos fora da base tradicional do PT.

A mudança de estratégia ocorreu após cobranças de aliados por maior participação do vice na campanha. A ex-senadora Kátia Abreu (PT) chegou a defender “menos Janja e mais Alckmin”, em referência à exposição da primeira-dama, Janja Lula da Silva, na disputa. A declaração foi aplaudida por integrantes do partido.

No primeiro programa de televisão do segundo turno, Janja ficou de fora, enquanto Alckmin apareceu em um vídeo no formato selfie. A estratégia procurou ampliar a presença do vice na comunicação eleitoral e destacar sua capacidade de dialogar com diferentes públicos.

Empresários e responsabilidade fiscal no discurso

A aproximação com setores do empresariado também faz parte da estratégia. Antes do primeiro turno, Geraldo Alckmin participou de articulações para retomar o apoio de segmentos do Produto Interno Bruto (PIB) que haviam apoiado Lula em 2022.

Em um jantar com empresários realizado em setembro, o vice-presidente prometeu buscar superávit nas contas públicas e defendeu o corte de privilégios nos poderes Judiciário e Legislativo. As declarações procuraram reforçar a imagem de responsabilidade fiscal associada à sua trajetória política.

Alckmin também gravou um vídeo ao lado de Lula para afirmar que a chapa protegeria as tradições religiosas. A manifestação ocorreu em meio à circulação de rumores falsos de que Flávio Bolsonaro retiraria o título de padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida.

No governo, Geraldo Alckmin acumulou a vice-presidência com o comando do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. Também se tornou um dos interlocutores do governo brasileiro nas negociações com os Estados Unidos após a imposição de tarifas pelo presidente norte-americano Donald Trump.

O desempenho nas tratativas comerciais agradou a Lula, que confirmou a repetição da chapa para a eleição de 2026. Após o primeiro turno, a possibilidade de Alckmin assumir também o Ministério da Fazenda em um eventual novo mandato passou a ser considerada pelo presidente, segundo informações publicadas pela Reuters. A hipótese buscaria reforçar a confiança do mercado financeiro e atrair eleitores de centro, mas não representava uma decisão oficial

De adversário de Lula a vice-presidente

A aliança entre Geraldo Alckmin e Lula foi construída após décadas de rivalidade política. Em 2018, o então tucano disputou novamente a Presidência e afirmou que o PT não teria seu apoio para “voltar à cena do crime”. Terminou a eleição em quarto lugar, com menos de 4,8% dos votos.

Depois da derrota, Alckmin ficou sem mandato e chegou a participar de programas de televisão com dicas de saúde. Em dezembro de 2021, deixou o PSDB, partido que ajudou a fundar, e se filiou ao PSB no ano seguinte, abrindo caminho para a aliança com Lula.

Em abril de 2022, o petista formalizou a chapa com o antigo adversário. Na ocasião, afirmou que os dois haviam mudado e recordou o período em que a disputa política brasileira era marcada principalmente pela rivalidade entre PT e PSDB.

A trajetória de Geraldo Alckmin, porém, também foi marcada por investigações relacionadas a supostos repasses ilegais de recursos de campanha. Em 2020, o Ministério Público de São Paulo o denunciou por suspeitas de corrupção passiva, lavagem de dinheiro e caixa dois, relacionadas a valores que teriam sido repassados pela empreiteira Odebrecht nas campanhas estaduais de 2010 e 2014. Alckmin negou as acusações.

A ação penal foi encerrada por determinação do Supremo Tribunal Federal (STF), que também considerou ilícitas provas obtidas de sistemas da Odebrecht. Em outubro de 2024, o ministro Dias Toffoli arquivou uma ação de improbidade relacionada aos repasses de 2014. Outro inquérito, aberto a partir de uma delação envolvendo a concessionária Ecovias, foi arquivado pela Justiça Eleitoral em março de 2022 por falta de provas que corroborassem o relato. Alckmin nega ter recebido doações ilegais.

Quem é Geraldo Alckmin

Médico anestesista formado pela Universidade de Taubaté, Geraldo Alckmin nasceu em 1952, em Pindamonhangaba, no interior de São Paulo. Começou a carreira política em 1972, aos 19 anos, como vereador de sua cidade natal. Também foi prefeito, deputado estadual e deputado federal.

Pelo PSDB, foi vice-governador de Mário Covas e assumiu o governo paulista em 2001. Comandou o estado por quatro mandatos, nos períodos de 2001 a 2006 e de 2011 a 2018, além de disputar a Presidência da República em 2006 e 2018.

Gabriel de Jesus

  • Publicado: 24/10/2026 14:19
  • Alterado: 24/10/2026 14:19
  • Autor: Gabriel de Jesus