Flávio Bolsonaro não reconhece derrota e pede nova eleição

Derrotado por Lula com mais de 4,4 milhões de votos de diferença, senador questiona a prorrogação da votação e anuncia que pedirá novas eleições ao TSE

Flávio Bolsonaro não reconhece derrota e pede nova eleição

Crédito: Flávio Bolsonaro (Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado)

A derrota de Flávio Bolsonaro (PL) na eleição presidencial de 2026 abriu uma nova disputa política na noite deste domingo (25). Após o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) confirmar matematicamente a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o senador declarou que não reconhece o resultado e anunciou a intenção de solicitar uma nova votação. A contestação tem como principal argumento a decisão judicial que prorrogou em duas horas o funcionamento das seções eleitorais, medida adotada durante o segundo turno e criticada por integrantes de sua campanha.

“É impossível reconhecer o resultado das eleições”, afirmou Flávio em pronunciamento realizado às 22h47, depois de passar parte da noite reunido com aliados em uma mansão no Lago Sul, em Brasília. O candidato derrotado também declarou que pedirá a realização de novas eleições e acrescentou: “A gente não está aqui para brincadeira”. A manifestação ocorreu após horas de silêncio, enquanto os convidados que haviam sido chamados para comemorar uma eventual vitória deixavam o local diante do crescimento da vantagem de Lula na apuração.

Os números oficiais mostram que a diferença entre os candidatos aumentou em relação à registrada no primeiro turno, embora o resultado tenha sido invertido. Lula recebeu 64.255.891 votos, equivalentes a 51,79% dos válidos, enquanto Flávio Bolsonaro obteve 59.825.984 votos, ou 48,21%, conforme a atualização do TSE às 22h45min18s, com 99,99% das seções totalizadas. A vantagem do presidente chegou a 4.429.907 votos. Em 4 de outubro, Flávio havia liderado a votação com 56.104.503 votos (47,03%), contra 53.879.538 (45,16%) de Lula, uma diferença de aproximadamente 2,2 milhões de votos. A reversão deu ao petista seu quarto mandato presidencial e deixou o adversário diante de uma derrota mais ampla, em números absolutos, do que a vantagem conquistada na primeira etapa.

Prorrogação da votação se torna alvo de contestação

O principal questionamento apresentado pelo candidato derrotado envolve a decisão de prorrogar o horário de votação em duas horas em todo o território nacional. A medida foi determinada pelo ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), e acompanhada pelo presidente do TSE, Kassio Nunes Marques. Anunciada pouco depois das 17h, a decisão foi inédita e provocou dificuldades operacionais em locais onde urnas já haviam sido encerradas e os boletins de votação impressos.

Antes da decisão nacional, a campanha de Flávio Bolsonaro havia solicitado uma extensão do horário de votação, mas limitada a municípios das regiões Sul e Sudeste atingidos por chuvas intensas. O argumento apresentado pela equipe era que alagamentos e problemas de deslocamento poderiam impedir eleitores de chegar às seções com segurança. A defesa de uma prorrogação regional, entretanto, deu lugar a críticas quando a Justiça determinou a ampliação do horário em todo o país.

A mudança de posicionamento também se refletiu nas manifestações de aliados. O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) anunciou que o partido contestaria o resultado e publicou nas redes sociais: “Ou a gente ganha, ou a gente ganha. Está avisado”. O coordenador da campanha, senador Rogério Marinho (PL-RN), criticou a atuação de integrantes do Judiciário e disse esperar que não prosperasse o que classificou como possível “golpe judiciário ou chicana administrativa”.

Flávio Bolsonaro e Tarcísio
(Charles Vieira/Campanha Presidencial Flávio Bolsonaro)

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), adotou um discurso mais cauteloso. Ele defendeu que decisões judiciais dessa natureza fossem acompanhadas de explicações claras sobre seus fundamentos, mas não contestou publicamente o resultado. Já o influenciador Pablo Marçal afirmou que a extensão do horário comprometia a imagem da eleição, embora tenha considerado que isso não justificava questionar a apuração.

Até as declarações relatadas, não havia sido apresentada comprovação de irregularidade capaz de alterar o resultado da votação. A contestação anunciada por Flávio Bolsonaro, portanto, não modifica por si só a definição matemática da eleição pelo TSE. Eventuais pedidos de anulação ou realização de novo pleito dependerão de fundamentação jurídica, apresentação de provas e análise da Justiça Eleitoral.

Churrasco da vitória termina em oração e saída de aliados

A noite eleitoral havia sido organizada pela campanha de Flávio Bolsonaro como uma celebração. O senador acompanhou a apuração em uma mansão no Lago Sul, pertencente ao empresário Vicente Santini, um dos coordenadores de sua candidatura. A equipe preparou um churrasco, instalou um palco com a bandeira brasileira e deixou os jingles eleitorais tocando desde a chegada do candidato, por volta das 17h30.

O encontro reuniu integrantes das bancadas do PL na Câmara e no Senado, além de lideranças que participaram da campanha presidencial. Entre os presentes estavam Tarcísio de Freitas, o prefeito paulistano Ricardo Nunes (MDB), Nikolas Ferreira, Gustavo Gayer (PL-GO), Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), Pablo Marçal e o senador eleito por São Paulo Guilherme Derrite (PP). Flávio Bolsonaro acompanhou os números em um notebook, sentado ao lado da mulher, Fernanda, e do governador paulista.

A atmosfera mudou pouco depois das 20h50, quando o TSE projetou a vitória de Lula. A música foi interrompida e os presentes participaram de uma oração. À medida que a apuração confirmava a vantagem do presidente, convidados começaram a deixar a propriedade. A deputada distrital eleita Estefane Sampaio (Republicanos) descreveu o ambiente como de tristeza e estranhamento.

Flávio deixou o salão principal antes do encerramento da apuração e passou a acompanhar os resultados em uma sala menor, acompanhado de um grupo restrito de aliados. O ex-ministro de Minas e Energia Adolfo Sachsida, apontado como possível integrante de um eventual governo do PL, esteve entre os primeiros a sair. O pronunciamento em que o senador rejeitou o resultado ocorreu posteriormente, transformando a reação à derrota no principal acontecimento político de sua campanha naquela noite.

Derrota deixa Flávio sem mandato após 24 anos

Além de encerrar sua tentativa de chegar à Presidência, o resultado terá consequências diretas para a trajetória institucional de Flávio Bolsonaro. Aos 45 anos, o senador deverá ficar sem cargo público eletivo pela primeira vez desde 2003, quando iniciou sua carreira parlamentar. Seu mandato no Senado termina em dezembro de 2026, e a candidatura presidencial impediu que disputasse a renovação da cadeira neste ano.

Filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro, Flávio ingressou na política aos 19 anos, quando foi eleito deputado estadual no Rio de Janeiro. Permaneceu na Assembleia Legislativa fluminense por quatro mandatos consecutivos, período em que construiu sua carreira política em associação com a projeção do pai. Em 2018, conquistou uma cadeira no Senado, na mesma eleição em que Jair Bolsonaro venceu a disputa presidencial.

Sua trajetória também foi acompanhada por investigações. Durante o período na Assembleia Legislativa, Flávio foi investigado por suspeitas de participação em um esquema de rachadinha, relacionado à apropriação de parte dos salários de assessores parlamentares. Provas utilizadas no caso foram posteriormente anuladas pela Justiça. Em 2026, passou a ser investigado em um inquérito sobre supostos repasses financeiros do banqueiro Daniel Vorcaro para o financiamento de Dark Horse, produção cinematográfica sobre Jair Bolsonaro. A existência das investigações não equivale à comprovação das suspeitas.

Na manhã deste domingo, ao votar em um colégio de Vila Isabel, na zona norte do Rio de Janeiro, Flávio havia classificado sua campanha como “alegre e limpa” e convocado os eleitores a comparecer às urnas. Depois, viajou a Brasília acompanhado da mulher, familiares e integrantes de sua equipe. Horas mais tarde, a confirmação da derrota alterou o tom da campanha, que passou da expectativa de vitória à contestação do resultado.

Resultado definido e disputa transferida à Justiça

Flávio Bolsonaro e Lula empatam em pesquisa do Datafolha
(Fernando Frazão/Agência Brasil e Lula Marques/Agência Brasi)

A apuração informada pelo TSE também registrou 128.235.666 eleitores presentes, comparecimento de 80,78% e abstenção de 19,22%. Foram contabilizados 124.081.875 votos válidos, além de 1.430.493 votos em branco e 2.723.298 nulos. Das 499.248 seções eleitorais, apenas duas ainda não haviam sido totalizadas na atualização das 22h45.

A dimensão da vantagem de Lula contrasta com o resultado do primeiro turno, quando Flávio Bolsonaro terminou à frente por aproximadamente 2,2 milhões de votos. No segundo, o presidente não apenas recuperou a diferença como abriu uma margem superior a 4,4 milhões, tornando-se o primeiro candidato a reverter uma desvantagem inicial em uma eleição presidencial brasileira desde a redemocratização.

Edvaldo Barone

  • Publicado: 25/10/2026 23:15
  • Alterado: 25/10/2026 23:15
  • Autor: Edvaldo Barone