FGV discute autoritarismo e poder dos algoritmos

Cinco conferências gratuitas discutem autoritarismo, algoritmos e dilemas do pensamento contemporâneo na FGV. Conheça os debates e saiba como participar

FGV discute autoritarismo e poder dos algoritmos

Crédito: (Imagem/Freepik)

A sensação de que determinadas transformações políticas, tecnológicas e sociais ultrapassaram um ponto a partir do qual já não é possível simplesmente restaurar o que existia antes conduz uma série de debates que chega à Fundação Getulio Vargas (FGV) entre 31 de agosto e 9 de setembro. Autoritarismo, totalitarismo, algoritmos, linguagem e as possibilidades de criação em uma sociedade cada vez mais mediada pela tecnologia estarão no centro de cinco conferências gratuitas realizadas no Rio de Janeiro.

Os encontros integram a edição de 2026 do ciclo “Mutações – Sem retorno: caminhar à sombra das ideias”, idealizado e organizado pelo jornalista e professor Adauto Novaes. A provocação que sustenta a temporada está na própria escolha da palavra “mutação”. Enquanto uma crise pressupõe a possibilidade de superação e eventual retorno a determinada normalidade, o ciclo propõe discutir mudanças que alteram as próprias condições políticas, culturais e intelectuais da sociedade.

Essa perspectiva permite aproximar assuntos que, à primeira vista, poderiam ocupar debates independentes. O avanço de discursos autoritários, a experiência de acontecimentos irreversíveis, a interferência dos algoritmos na maneira como as pessoas acessam o mundo e até a capacidade de produzir ideias novas aparecem como partes de uma mesma pergunta sobre o presente.

Autoritarismo abre os debates na FGV

A primeira conferência acontece nesta segunda-feira, 31 de agosto, às 18h, com o diplomata e escritor João Almino. Em “Autoritarismo e totalitarismo”, ele parte do pensamento do filósofo francês Claude Lefort para estabelecer diferenças entre dois conceitos frequentemente tratados como equivalentes.

A discussão alcança manifestações contemporâneas do autoritarismo e a maneira como a coerção pode ser apresentada por meio de discursos associados à defesa da liberdade, família, tradição, ordem e nação. A proposta desloca o debate das definições históricas para observar como essas ideias podem assumir novas formas no presente.

Em 2 de setembro, o filósofo Helton Adverse, professor titular da Universidade Federal de Minas Gerais, conduz “O tempo do irreversível. Totalitarismo e revolução”. O ponto de partida vem da literatura. No canto XXVI do Inferno, de Dante Alighieri, Ulisses atravessa as colunas de Hércules e chega a um lugar a partir do qual retornar já não é possível. A passagem serve de entrada para uma reflexão sobre totalitarismo, revolução e irreversibilidade.

Algoritmos entram na discussão sobre linguagem

algoritmos - IA
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Um dos encontros que mais diretamente aproxima o ciclo dos impasses tecnológicos atuais ocorre em 3 de setembro. O antropólogo e cientista político Luiz Eduardo Soares, professor da pós-graduação em Literatura da Universidade Federal do Rio de Janeiro, apresenta a conferência “De volta pra casa”.

Partindo das enchentes ocorridas no Rio Grande do Sul e da obra do filósofo Vladimir Safatle, Soares questiona a própria possibilidade de retorno a uma origem. A discussão chega então aos algoritmos e à lógica do scrolling, analisados a partir de seus efeitos sobre a linguagem e sobre a capacidade humana de construir outros mundos possíveis.

O tema ganha especial interesse em uma época na qual sistemas digitais participam cada vez mais da seleção do que as pessoas veem, leem e consomem. No ciclo, entretanto, a questão não aparece apenas como uma discussão sobre tecnologia. Ela é colocada dentro de um problema maior sobre pensamento, linguagem e criação.

É possível pensar fora das estruturas existentes?

No dia seguinte, 4 de setembro, o poeta e professor de Teoria Literária da Universidade de São Paulo Roberto Zular apresenta “Pensamentos anárquicos: Paul Valéry e o desejo do neutro”. A conferência percorre anotações produzidas pelo filósofo entre 1936 e 1938 para discutir a necessidade de transformar também as maneiras de pensar diante das mutações do mundo.

A programação na FGV termina em 9 de setembro com João Cezar de Castro Rocha, professor titular de Literatura Comparada da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Em “O acaso como método? O paradoxo como guerrilha do pensamento”, ele aproxima Aby Warburg e Qian Zhongshu para investigar uma questão diretamente relacionada à lógica algorítmica.

A provocação é saber se ainda é possível produzir deliberadamente o acaso diante de sistemas orientados por padrões e previsibilidade. Ao considerar que a lógica dos algoritmos tende a reproduzir preferências e organizar bolhas, a conferência coloca a possibilidade do inesperado no centro da discussão sobre criação intelectual.

Mutações reúne 26 conferencistas em 2026

As cinco atividades realizadas na Fundação Getulio Vargas integram uma programação maior. A edição de 2026 de Mutações reúne 26 conferencistas entre 29 de julho e 25 de setembro, com encontros no Rio de Janeiro e em São Paulo.

A temporada é realizada conjuntamente pela FGV e pela Fundação Casa de Rui Barbosa, por meio do Instituto Rui Barbosa de Altos Estudos em Cultura, além do Centro de Pesquisa e Formação do Sesc São Paulo. Na FGV, participam da iniciativa FGV Conhecimento, FGV Justiça e FGV Arte.

Idealizado por Adauto Novaes, o projeto consolidou uma trajetória dedicada a conferências públicas de pensamento crítico. Novaes dirigiu durante duas décadas o Centro de Estudos e Pesquisas da Funarte e fundou, em 2000, a produtora cultural Artepensamento. Os ciclos organizados pelo jornalista deram origem a 45 livros publicados pela Companhia das Letras e pelas Edições Sesc, três deles vencedores do Prêmio Jabuti.

As conferências realizadas na FGV são gratuitas, mas estão sujeitas à lotação. As inscrições devem ser feitas antecipadamente pela internet.

Serviço: Mutações – Sem retorno: caminhar à sombra das ideias

Período: 31 de agosto a 9 de setembro de 2026
Horário: 18h
Local: Fundação Getulio Vargas
Endereço: Praia de Botafogo, 190, Botafogo, Rio de Janeiro
Entrada: gratuita, sujeita à lotação
Inscrições: Link

Programação na FGV

31 de agosto
João Almino
“Autoritarismo e totalitarismo”

2 de setembro
Helton Adverse
“O tempo do irreversível. Totalitarismo e revolução”

3 de setembro
Luiz Eduardo Soares
“De volta pra casa”

4 de setembro
Roberto Zular
“Pensamentos anárquicos: Paul Valéry e o desejo do neutro”

9 de setembro
João Cezar de Castro Rocha
“O acaso como método? O paradoxo como guerrilha do pensamento”

Edvaldo Barone

  • Publicado: 31/08/2026 12:51
  • Alterado: 31/08/2026 12:52
  • Autor: Edvaldo Barone