Feijuca do Adote celebra 27 anos de inclusão no ABC
Evento reuniu 350 assistidos e 130 convidados e voluntários e levou outras 350 refeições a comunidades e às ruas de São Bernardo.
- Publicado: 31/08/2026 16:40
- Alterado: 31/08/2026 16:40
- Autor: Edvaldo Barone
A Feijuca do Adote voltou a reunir centenas de pessoas neste domingo, 30 de agosto, em São Bernardo do Campo, para uma celebração que já se confunde com a própria história do Adote um Cidadão. Em sua edição de 2026, o encontro marcou os 27 anos de atuação do projeto com uma tarde dedicada à convivência, à inclusão e ao encontro entre pessoas com deficiência, familiares, voluntários, apoiadores e amigos que ajudaram a construir essa trajetória no Grande ABC.
Foram 350 pessoas assistidas pelo projeto e outros 130 convidados e voluntários reunidos na Feijuca do Adote. Ao redor da tradicional feijoada, a programação transformou a comemoração do aniversário em um grande espaço de convivência, no qual pessoas com deficiência ocuparam o centro da celebração. O evento também mobilizou uma rede que ultrapassou o salão. No mesmo dia, mais de 200 Feijuquinhas do Adote foram destinadas à comunidade do Parque São Rafael e outras 150 refeições foram distribuídas pelas ruas de São Bernardo.
A dimensão alcançada pela edição deste ano ajuda a contar uma história iniciada em 1999. Fundado por Antonio Carlos Veiga, o Dom Veiga, o Adote um Cidadão construiu ao longo de quase três décadas ações voltadas principalmente à inclusão, cidadania e convivência de pessoas com deficiência e pessoas em situação de vulnerabilidade. A Feijuca do Adote tornou-se sua maior celebração anual, mas também funciona como um ponto de encontro de histórias que começaram muito antes daquele domingo e continuam depois que a última mesa é desmontada.
Uma festa que se transformou em rede de solidariedade

A própria trajetória da Feijuca do Adote ajuda a explicar como a confraternização ganhou desdobramentos sociais. Em uma de suas primeiras edições, porções excedentes da feijoada foram distribuídas a pessoas em situação de rua. O gesto deu origem às Feijuquinhas do Adote, iniciativa que passou a levar refeições a pessoas em vulnerabilidade e manteve a solidariedade ligada ao evento para além de sua realização anual.
Em 2026, essa relação ficou novamente evidente. Enquanto aproximadamente 480 pessoas participavam da Feijuca, outras 350 refeições deixavam o evento para chegar a diferentes pontos de São Bernardo. Foram mais de 200 destinadas à comunidade do Parque São Rafael e 150 distribuídas pelas ruas da cidade.
A soma dos dois movimentos revela uma característica importante do trabalho realizado pelo Adote. A inclusão praticada dentro do evento acontece ao mesmo tempo em que a organização procura alcançar pessoas que estão fora dele. Uma frente promove convivência, lazer e pertencimento para pessoas com deficiência e suas famílias. Outra responde a situações de vulnerabilidade por meio da distribuição de alimentos.
Famílias que acompanham o Adote há mais de uma década

Entre as centenas de pessoas presentes neste domingo estava Fátima Mello, que conhece essa permanência de perto. Sua relação com o Adote um Cidadão começou em 2012, depois que seu filho perdeu a visão. Naquele momento, a família procurava caminhos para que ele pudesse recuperar autonomia em atividades cotidianas. Foi no projeto que Gabriel encontrou apoio para aprender a utilizar computador e celular sem enxergar. A necessidade que aproximou a família do Adote acabou dando origem a um vínculo que atravessou os anos. Desde então, mãe e filho passaram a participar da Feijuca e de outras atividades promovidas pela organização. “Em 2012, meu filho perdeu a visão. E aí nós descobrimos o Adote, que foi onde ajudou ele a mexer no computador, no celular, que ensinou, mesmo sem a visão. E aí que a gente começou e acompanha desde então”, contou Fátima ao ABCdoABC.
A relação também alcançou outros momentos da vida familiar. Fátima lembra que eles chegaram a comprar um jipe para participar de uma das atividades ligadas ao projeto. Após a morte do marido no ano passado, ela e o filho continuaram frequentando o Adote e retornaram juntos para a edição de 2026 da Feijuca.
Ao definir o significado desse espaço depois de 14 anos de convivência, Fátima não recorre a conceitos abstratos. “É inclusão total. É uma coisa linda que o Veiga faz, porque ele não visa lucro, ele visa ajudar as pessoas. É muito lindo o projeto. Ajudar sem olhar a quem”, afirmou.
Inclusão precisa acontecer na vida cotidiana

A experiência de Gabriel também ajuda a compreender por que iniciativas de convivência são relevantes para pessoas com deficiência. A inclusão não se restringe à existência de acessibilidade física. Ela envolve autonomia, participação social, acesso a experiências e a possibilidade de ocupar os mesmos espaços de convivência oferecidos às demais pessoas.
Hoje com 28 anos, Gabriel resumiu o papel que atribui à organização a partir daquilo que viveu dentro dela. “Ele mostra a inclusão acontecendo, ele faz a inclusão acontecer”, afirmou ao ABCdoABC. A frase encontra sentido no próprio formato da Feijuca do Adote. As pessoas assistidas pela organização não aparecem apenas como beneficiárias de uma ação beneficente. Elas participam da festa, dançam, encontram amigos e familiares e ocupam o espaço que foi preparado para recebê-las.
Criar essas oportunidades tem uma importância que ultrapassa o entretenimento de uma tarde. Pessoas com deficiência ainda convivem com barreiras que restringem acesso a lazer, cultura, mobilidade, formação e participação social. Organizações da sociedade civil não substituem a obrigação do poder público de garantir esses direitos, mas podem construir redes de apoio e experiências capazes de ampliar autonomia e pertencimento.
Quem chegou há 26 anos também continua presente

A permanência aparece do outro lado da história na trajetória de Eduardo Bueno, apoiador que acompanha Dom Veiga há 26 dos 27 anos de existência do Adote um Cidadão. Ele prefere se apresentar como amigo e divulgador da organização, embora sua ligação com o projeto atravesse praticamente toda a sua história.
Para Eduardo, a continuidade do Adote está diretamente relacionada à disposição de pessoas que escolheram contribuir espontaneamente com suas ações. “Todo mundo me pergunta o que é ser voluntário. Voluntário, para mim, é aquele que faz de coração. Ele não faz nada coagido, ele faz de coração”, afirmou.
Ele também destaca o caráter aberto que identifica na organização. “Esse é um projeto feito por amigos e não temos nada com política, com religião. Nós aceitamos todas as pessoas, todos os tipos. E é isso, são pessoas que constroem o Adote um Cidadão”, completou.
A dimensão emocional da edição de aniversário já aparecia antes mesmo de a Feijuca do Adote começar. No sábado, enquanto o salão era preparado, Dom Veiga declarou: “A emoção é muito grande em saber que amanhã aqui teremos 350 pessoas assistidas pelo Adote um Cidadão, mais alguns amigos, mais pessoas que nos ajudaram nesses 27 anos e que acreditam que o amor ao próximo é o que importa”, disse.
No domingo, a expectativa ganhou rostos. Os lugares foram ocupados por pessoas que mantêm relações muito diferentes com o projeto. Algumas chegaram recentemente. Outras frequentam suas atividades há mais de uma década. Há ainda apoiadores que acompanharam praticamente toda a história da organização.
É justamente essa mistura que dá aos 27 anos do Adote um Cidadão um significado que não pode ser medido somente pelo número de edições realizadas. Uma organização social constrói sua história também pela capacidade de permanecer presente na vida de quem passou por ela e de continuar mobilizando pessoas dispostas a sustentar suas ações.
27 anos transformados em presença

Quando a Feijuca do Adote terminou, o saldo daquele domingo estava espalhado por diferentes lugares. Havia cerca de 480 pessoas que haviam compartilhado a celebração, famílias reencontrando amigos, voluntários encerrando mais uma edição e 350 refeições que chegaram a pessoas fora do salão.
Dom Veiga resumiu o encerramento relacionando a festa ao propósito que atribui à organização. “A Feijuca do Adote termina em um dia, mas os sorrisos que ela multiplica permanecem eternamente. Porque uma sociedade verdadeiramente justa é aquela onde todos têm o mesmo lugar, o mesmo respeito e a mesma oportunidade de ser feliz”, declarou.
A longevidade do Adote um Cidadão também chama atenção para a importância de iniciativas capazes de transformar solidariedade em continuidade. Uma ação isolada pode atender uma necessidade imediata. Uma rede que atravessa décadas consegue acompanhar pessoas em diferentes momentos da vida, criar vínculos e abrir espaços de participação que ajudam a enfrentar exclusões ainda presentes na sociedade.
Fátima chegou ao Adote quando precisava encontrar novos caminhos para o filho que havia perdido a visão. Gabriel encontrou ferramentas para ampliar sua autonomia. Eduardo permaneceu por 26 anos ajudando a divulgar uma causa na qual acredita. Centenas de outras trajetórias se encontraram novamente neste domingo.
É nessa soma que a Feijuca encontra sua dimensão. Os 27 anos celebrados em 2026 não contam apenas quanto tempo o Adote um Cidadão existe. Contam há quanto tempo há pessoas escolhendo permanecer, ajudar e fazer da inclusão uma experiência concreta.