Famílias ensinam democracia nas eleições 2026
Pais e avós levam crianças às seções eleitorais para apresentar o direito ao voto e discutir o futuro do país, com atenção à educação, segurança e cidadania
- Publicado: 25/10/2026 19:30
- Alterado: 25/10/2026 19:32
- Autor: Edvaldo Barone
Aos quatro anos, Iyaz ainda não compreende o significado de escolher um presidente da República, mas já acompanha a avó ao local de votação. Em outra seção eleitoral, duas irmãs de 9 e 10 anos observam a mãe exercer um direito conquistado pelas brasileiras há menos de um século. As cenas foram registradas neste domingo (25), durante o segundo turno das eleições 2026, em Brasília, onde famílias transformaram a ida às urnas em uma oportunidade de apresentar às crianças o funcionamento da democracia.
Embora a participação eleitoral só seja permitida a partir dos 16 anos, quando o voto é facultativo, crianças de diferentes idades acompanharam pais, mães e avós nas escolas utilizadas pela Justiça Eleitoral. Para essas famílias, a experiência está relacionada à formação de futuros eleitores e à expectativa de que as decisões tomadas agora produzam resultados nas próximas gerações. A presença dos pequenos também abriu espaço para conversas sobre direitos, responsabilidades e o papel de cada cidadão na democracia brasileira.
No Centro de Ensino Médio Paulo Freire, na Asa Norte, a publicitária Polyana Carla Alves Ázara e a internacionalista Luísa Malagoli levaram o filho para acompanhar a votação. A família, que também estava acompanhada de seu cachorro, participou do segundo turno que definiria o presidente responsável por governar o Brasil entre 2027 e 2030.
Educação política começa antes da idade de votar
Moradora de Brasília há quatro anos, depois de deixar Goiânia, Polyana Carla participou pela primeira vez de uma eleição na capital federal. Ela decidiu compartilhar a experiência com o filho por considerar importante que ele cresça reconhecendo sua participação na vida democrática, mesmo antes de ter idade para votar.
Para a publicitária, as escolhas políticas precisam considerar necessidades que não se encerram ao fim de um mandato. Sua preocupação está nas condições que serão deixadas às crianças que hoje acompanham os adultos às seções eleitorais e que, no futuro, poderão exercer o próprio direito de voto. A experiência, segundo ela, permite que o filho comece a compreender que a democracia também envolve decisões com consequências para quem ainda não participa diretamente das eleições.
Luísa Malagoli também relaciona a presença do filho à educação recebida de seus pais. Ela considera que a formação cidadã não deve se limitar à participação nas eleições, mas incluir o acompanhamento das decisões de representantes políticos e a cobrança por políticas públicas.
Na avaliação da internacionalista, vereadores, deputados estaduais, distritais e demais autoridades precisam ser acompanhados pela população ao longo dos mandatos. O compromisso com a vida política envolve tanto a escolha dos representantes quanto a fiscalização de suas ações.
Mãe destaca voto feminino ao levar filhas às urnas
Na região administrativa do Varjão, a cerca de 13 quilômetros do centro de Brasília, a analista de departamento pessoal Elizabete Queiroz Gomes chegou ao local de votação com o título eleitoral digital no celular e acompanhada das filhas Emanuelle, de 10 anos, e Luna, de 9.
Elizabete explicou que procura ensinar às meninas a importância do voto e o funcionamento do processo eleitoral. A experiência também representa uma oportunidade de conversar sobre os direitos políticos das mulheres, que passaram a ter reconhecimento legal no Brasil com o Código Eleitoral de 1932. Ao apresentar essa conquista às filhas, a mãe procura demonstrar que a participação feminina na democracia brasileira é resultado de uma trajetória histórica de ampliação de direitos.
Para Elizabete, participar da eleição significa exercer um direito conquistado e considerar as condições de vida que deseja para as filhas. Ao relacionar a própria experiência à história do voto feminino, ela mostra às crianças que a presença das mulheres na política passou por transformações sociais e institucionais.
A presença das meninas na escola eleitoral também permite que conheçam, desde cedo, uma das principais formas de participação política previstas na legislação brasileira. O voto é facultativo para jovens de 16 e 17 anos, obrigatório dos 18 aos 70 anos e volta a ser facultativo para pessoas com mais de 70 anos.
Avós associam participação eleitoral ao futuro da família

Na mesma escola pública do Varjão, Siomara Chao, de 59 anos, levou o neto Iyaz, de 4, para acompanhar a votação. Embora reconheça que o menino ainda não compreende as consequências das decisões políticas, a avó considera importante aproximá-lo de práticas relacionadas à cidadania.
Siomara contou que o neto já aprende a cantar o Hino Nacional na escola e relacionou a experiência eleitoral à formação que recebe. Acompanhada do marido, o mecânico Plínio de La Pena, de 72 anos, ela afirmou que suas escolhas nas urnas foram orientadas pela preocupação com o futuro dos quatro filhos e dos 12 netos.
A expectativa do casal é que os representantes eleitos contribuam para melhorar as condições de vida das próximas gerações. Para a família, comparecer à seção eleitoral representa tanto o exercício de um direito quanto a possibilidade de participar das decisões que influenciam a sociedade. Nesse contexto, a democracia aparece como parte da formação das crianças e das responsabilidades compartilhadas entre diferentes gerações.
Segurança e educação aparecem entre as prioridades
A preocupação com o futuro também motivou Nilsemar Ferreira da Silva a levar o filho Arcanjo Miguel Mota da Silva, de 7 anos, ao local de votação. O menino ainda não sabia explicar por que acompanhava o pai, mas Nilsemar considera que a experiência pode ajudá-lo a compreender gradualmente o significado da política.
Entre as prioridades mencionadas pelo pai estão a segurança pública e a educação infantil. Ele afirmou desejar um país em que seja possível sair de casa sem medo e em que as crianças tenham melhores oportunidades de aprendizagem.
Os relatos das famílias mostram diferentes formas de apresentar a participação política às crianças. Enquanto algumas destacam direitos conquistados historicamente, outras relacionam o voto à qualidade dos serviços públicos e às condições de vida que esperam encontrar nos próximos anos.
Nas seções eleitorais de Brasília, a presença de filhos e netos acompanhando os adultos marcou um domingo em que o exercício do voto também abriu espaço para conversas sobre cidadania, representação política e o futuro das famílias brasileiras. Para esses responsáveis, ensinar o significado da democracia começa antes da primeira votação e continua na maneira como as novas gerações aprendem a participar da sociedade.