"Falta patrocínio ao teatro no Brasil", diz Luisa Bresser

Luisa Bresser detalha os bastidores de grandes espetáculos e celebra o desafio de viver a personagem Fiona

Crédito: Divulgação

Com apenas 19 anos e uma trajetória que começou na infância, a atriz Luisa Bresser consolida seu espaço como um dos nomes promissores do teatro musical brasileiro. Em entrevista ao ABC do ABC, a artista, que atualmente vive a personagem Fiona nos palcos e traz no currículo produções de peso como Wicked e a novela Poliana Moça, analisou o amadurecimento do mercado nacional e a crescente adesão do público ao gênero. 

Entre reflexões sobre os desafios de se produzir arte no país e a importância da formação técnica completa que une canto, dança e interpretação, Luisa Bresser detalhou a rotina intensa dos bastidores, o frio na barriga das apresentações ao vivo e a complexidade de atuar no ecossistema cultural de São Paulo, hoje considerado uma das maiores potências globais do setor.

Luisa Bresser
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ABC do ABC – Você acredita que o público brasileiro passou a valorizar mais o teatro musical nos últimos anos?

Luisa: Com certeza! Eu trabalho no mercado do teatro musical desde os meus 11 anos de idade e, por isso, estou vendo com os meus próprios olhos essa mudança. Embora já existisse um público muito específico fã de teatro musical, com a chegada do filme “Wicked” e com todo o sucesso que o musical conquistou, eu percebi mais pessoas indo aos teatros.

Agora, quando falamos de valorização, acho que essa é uma palavra um pouco forte. Porque o que é valorizar a arte?

Eu acredito que, por um lado, mais pessoas passaram a sair de casa para ir ao teatro. Então, acho que isso é uma maneira de valorizarmos a nossa arte. Mas, por outro lado, o teatro ainda sofre com a falta de patrocinadores.

ABC do ABC – Então, mesmo com o público ficando mais empolgado em consumir peças teatrais, esse segmento ainda sofre com a falta de investimentos públicos e privados?

Luisa: Acredito que sim. O Brasil e São Paulo, em específico, são uma grande potência no teatro. Se não me engano, estamos entre os maiores produtores de teatro musical do mundo. Por isso, acredito que deveria haver mais investimentos e mais atenção voltados para esse mercado.

ABC do ABC – O que mais te encanta nos bastidores do teatro que o público normalmente não imagina?

Luisa: O que mais me encanta no teatro é o ao vivo. É algo muito louco… Só entende quem realmente já teve a experiência de estar em um teatro, atuando com aquela pressão indireta de acertar ou errar. É realmente uma sensação muito única. Eu brinco que é até meio transcendental.

Mas acredito que o público não saiba quantas pessoas estão envolvidas em um grande musical como os de São Paulo. São muitas pessoas trabalhando direta e indiretamente para que o projeto aconteça.

Ao longo dos meus anos de experiência, tive muitas oportunidades de trocar ideias com todas as equipes do teatro e entender como funcionam as dinâmicas para que um espetáculo aconteça.

São realmente muitas pessoas envolvidas, desde quem transporta os maquinários e os grandes cenários até a pessoa que limpa o teatro.

ABC do ABC – Você é uma atriz que já atuou tanto no teatro quanto na TV. Como é para você trabalhar nesses dois formatos e do que você gosta mais em cada um?

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Luisa: É muito diferente trabalhar nesses dois formatos. Inclusive, recentemente, ainda não posso contar muito sobre isso, gravei uma série vertical e tive a oportunidade de revisitar, mais uma vez, um set de gravação, porque a minha única outra experiência tinha sido com a novela “Poliana Moça”.

O teatro e uma produção gravada têm dinâmicas muito diferentes. No teatro, existe uma repetição de sessões que me permite chegar a uma intimidade muito grande com a personagem.

Além disso, consigo descobrir nuances que, pelas minhas experiências, no audiovisual eu não tive tanta oportunidade de explorar. Até porque a gravação de um filme acontece em três meses. Nós não passamos tanto tempo convivendo com aquela história.

ABC do ABC – No teatro você consegue se aprofundar mais nos personagens e dar uma nova perspectiva a eles?

Luisa: Como artista, eu escolho um caminho e me mantenho nele. Não tenho o hábito de me reinventar a cada sessão. Muitas pessoas me perguntam, até chocadas, se eu não enjoo ou se não me canso das músicas — diz Luísa, rindo.

Mas ainda assim, cada apresentação é diferente. No teatro, você precisa estar muito aberto ao improviso. Você nunca sabe exatamente o que te espera.

ABC do ABC – Quando vocês estão construindo a peça, vocês pensam em como ser mais cativantes para prender o público e fazer com que ele foque apenas em vocês?

Luisa: Eu acho que cada pessoa que assiste vai se conectar, de uma forma muito particular, com a história que estamos contando, e elas já se cativam a partir daí.

Além disso, quando falamos das produções das quais participei, estamos falando de espetáculos em nível Broadway. Vemos cenários grandiosos, atores muito bons, artistas que cantam, dançam e atuam. Tudo isso é muito mágico de assistir.

Também existe sempre uma pequena adaptação no roteiro para deixá-lo mais abrasileirado possível e trazer um pouco da nossa essência, das nossas piadas, dos nossos memes e da nossa linguagem, que é muito específica e singular. Então, acredito que isso também acaba cativando bastante o público.

ABC do ABC – Como os seus estudos no Teatro Escola Célia Helena ajudaram a construir a atriz que hoje encara musicais tão grandiosos no teatro nacional?

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Luisa: A Escola Célia Helena foi o meu santuário.

Foi o primeiro lugar em que estudei teatro e, embora eu não tenha me formado lá, atualmente estou cursando cinema na FAAP e devo me formar daqui a alguns anos.

Eu vejo uma onda muito grande no teatro musical de pessoas que cantam muito bem, mas acabam esquecendo da atuação. E eu acho que o teatro musical é justamente o oposto disso. É uma atuação cantada.

ABC do ABC – Depois de tantas experiências importantes aos 19 anos, o que ainda faz a Luísa subir ao palco com frio na barriga?

Luisa: É difícil responder essa pergunta… porque o meu frio na barriga também tem momentos.

Quando estamos fazendo uma peça ao vivo, nem sempre estamos em um bom dia. Nem sempre nos olhamos no espelho e pensamos: “Nossa, vamos apresentar para 1.540 pessoas”.

Então, existem dias em que estou com a voz mais cansada ou com o corpo mais cansado, e isso me deixa mais vulnerável. E é aí que o frio na barriga aparece.

Mas, tirando essas infinitas possibilidades de coisas que podem acontecer e que me dão frio na barriga, sinto que, na maioria das vezes, esse sentimento vem porque eu amo muito o que faço.

Sabe quando você ama tanto uma coisa que quer cuidar dela com muito carinho? É um frio na barriga de: “Meu Deus, vamos começar mais uma sessão e eu quero dar o meu melhor”.

É um frio na barriga muito gostoso.

ABC do ABC – Como tem sido sua experiência vivendo a Fiona, substituindo artistas tão importantes como Fabi Bang e Mira Ruiz?

Luisa: A minha experiência como Fiona tem sido maravilhosa. Foi a primeira vez em que fui cover de uma personagem e é muito interessante se ver nesse lugar de precisar aprender as coisas praticamente sem ensaio.

A personagem não é sua, e você precisa estar pronta para entrar em cena no momento em que precisarem de você. Precisei ter muita disciplina durante todo esse processo de aprender observando.

Além disso, estou substituindo dois nomes gigantescos, duas mulheres que admiro muito e que são artistas maravilhosas. A Luísa de 11 anos estaria surtando neste momento.

ABC do ABC – Existe algum papel que marcou uma virada na sua maturidade artística?

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Luisa: Eu diria Nessa, em “Wicked”.

Foi o meu primeiro trabalho como maior de idade e também a primeira vez em que me vi fazendo oito sessões por semana.

Antes, eu fazia mais ou menos duas ou três sessões, porque crianças não podem trabalhar mais de seis horas.

“Nessa” realmente foi uma virada brusca para mim. Foi nesse momento que comecei a conviver com um elenco mais adulto, com profissionais que estão no mercado há muitos anos.

“Wicked” representou uma grande transformação para mim. Tive muita abertura da direção, eles confiaram muito no meu trabalho, e foi um processo no qual mergulhei de cabeça.

ABC do ABC – Qual conselho você daria para meninas que sonham em entrar no teatro musical, mas ainda enxergam esse universo como distante?

Luisa: O meu conselho é bem clichê, mas primordial para quem quer trabalhar com teatro musical: estudar.

Porque, quando você chega preparada para uma audição e preparada, para mim, significa saber dançar, cantar e atuar, você consegue entregar à banca a sua melhor versão.

Por isso, digo para todas as meninas que vêm conversar comigo: estudem. Criem um repertório de músicas de teatro musical que vocês gostem, desenvolvam repertório de dança, trabalhem monólogos e estejam sempre praticando.

  • Publicado: 09/06/2026 15:27
  • Alterado: 09/06/2026 16:36
  • Autor: Daniela Ferreira
  • Fonte: ABC do ABC