Entrevista: biografia inédita revela bastidores de Djavan

Jornalista Tiago Ramos fala sobre o livro que celebra 50 anos da carreira do músico, revelando composições, infância e histórias de bastidores

Entrevista: biografia inédita revela bastidores de Djavan

Crédito: divulgação

A infância em Alagoas, os bastidores das composições e episódios pouco conhecidos da carreira de Djavan estão reunidos na biografia-reportagem “Djavan – Dizem que o amor atrai”

Escrita pelo jornalista e escritor Tiago Ramos e Mattos para marcar os 50 anos de carreira do artista, a obra recupera histórias por trás de clássicos como “Flor de Lis”, aborda canções censuradas durante a ditadura militar e acompanha a trajetória do garoto de Maceió que se tornou um dos grandes nomes da música popular brasileira. 

Em entrevista ao ABC do ABC, o autor fala sobre o processo de pesquisa, as histórias encontradas durante a produção do livro e os aspectos menos conhecidos da vida e da obra do cantor e compositor.

ABC do ABC – Como foi o processo de reunir relatos, documentos, entrevistas e informações sobre diferentes períodos da vida do cantor? E quanto tempo durou o processo de pesquisa e escrita da biografia?

Tiago: O processo de reunir relatos, documentos, entrevistas e informações se deu até o último dia da construção da narrativa biográfica por meio da escrita do livro. No momento em que finaliza o livro com o oitavo capítulo ainda estava angariando reportagens sobre o disco Improviso, por exemplo.

Os diferentes períodos de tempo das entrevistas e documentos (reportagens e discursos diretos de 1980 a 2026) aconteceu por meio de visita e revisita a arquivos de diversos jornais, revistas e meios de comunicação, assim como artigos científicos e vídeos históricos de entrevistas cedidas por Djavan transcritos para o formato da escrita por mim, com total fidedignidade aos registros originais. 

A pesquisa de campo apresentou excertos de entrevistas com a família e conhecidos de Djavan, em Maceió. Perdurando ativamente durante aproximadamente 2 anos e 6 meses, período de escrita do livro.

Djavan
divulgação

ABC do ABC – A obra é apresentada como uma “biografia-reportagem”. O que essa escolha representa para você e como ela influenciou a maneira de escrever o livro?

Tiago:  O termo biografia-reportagem foi cunhado por nossa tese de doutorado defendida no ano de 2020 pela PUC-SP.  Na ocasião defendemos um novo gênero do discurso: um híbrido de biografia e reportagem. 

Essa teoria influenciou decisivamente a forma e o formato do livro que é escrito em duas secções: a narrativa biográfica e o discurso direto de Djavan, seus enunciados.  Parte da narrativa biográfica nasce da intertextualidade com o próprio discurso do Djavan.

Por tanto, é correto dizer que o livro advém de uma dupla autoria. A autoria de Tiago Ramos e Mattos e a autoria do próprio Djavan.

ABC do ABC – Existe algum escritor ou alguma obra que tenha influenciado a maneira como você construiu esta biografia?

Tiago: Sim. Posso citar três obras. A primeira é uma biografia chamada: “Silvio Santos – A trajetória do mito, de Fernando Morgado que foi objeto de análise da nossa tese de doutorado.

O segundo é um livro de Ruy Castro chamado: A vida por escrito. E um terceiro se chama Estética da criação verbal de Mikhail Bakhtin.

Djavan
Priscila Prade

ABC do ABC –  Se você tivesse que escolher um episódio do livro para explicar quem é Djavan além dos palcos, qual seria? 

Tiago: Um episódio do livro que explica Djavan além dos palcos são os momentos vividos com sua mãe, Dona Virgínia, na infância.  

Um momento específico foi quando Djavan passava horas deitado numa esteira, sobre o colo da mãe, aprendendo sobre as estrelas, as plantas e a natureza.

Djavan se tornou um exímio conhecedor de orquídeas, por exemplo. Retendo inclusive os nomes científicos dessa espécie. Já na vida adulta projetou um orquidário em seu sítio de Araras. Compôs também a música orquídea do disco Vesúvio. 

Por isso, além dos palcos, Djavan é um pouco botânico e um talentoso arquiteto. Capaz de arquitetar um orquidário, além de discursos sofisticados e complexos e também composições aristotélicas, cuja a maior paixão seja, de fato, o amor.

ABC do ABC –  O que diferencia Djavan de outros grandes compositores brasileiros de sua geração?

Tiago: O que diferencia Djavan de outros grandes compositores brasileiros é a capacidade de associar suas composições com outros tipos de arte, como as artes plásticas. As cores primárias são muito presentes nas composições do Djavan, em especial, o azul e o amarelo. Não se pode esquecer também da cor secundária que dá nome ao disco Lilás, de 1984.

Quando afirma que o “amor é exato e fim”, nos remete às figuras geométricas e ao vermelho de Piet Mondrian.

Ademais, o trabalho de Djavan goza de influências da poesia de Adélia Prado e de criações por meio de neologismos, por exemplo, a música “Sevilhando” que nos remete ao verbo “Sevilhar”, assim como Manuel Bandeira criou o verbo “Teadorar”, por meio do neologismo. 

Por fim, a pluralidade musical, os diversos estilos musicais que contempla as composições de Djavan, mantém seu trabalho sempre atual, sucesso, inclusive, entre a geração Z.

Djavan
divulgação

ABC do ABC – O que mais surpreendeu você durante o processo de entrevistas e pesquisa para a biografia?

Tiago: O que mais me surpreendeu, ao levarmos em consideração a estreita relação de Djavan com sua progenitora, Dona Virgínia, foi a revelação de que a mãe a que ele se refere na música ‘Farinha’, na verdade não é dona Virgínia, mas a Dona Djanira, sua irmã. 

Dona Djanira cuidou de Djavan inúmeras vezes quando Dona Virgínia saia para trabalhar. Foi homenageada inclusive na música ‘Minha irmã ‘ do álbum Luz. Dona Djanira levava Farinha para Djavan de Alagoas para o Rio de Janeiro.

ABC do ABC – O que a trajetória de Djavan revela sobre a música brasileira das décadas de 1970 e 1980?

Tiago: O que a trajetória de Djavan revela sobre a música brasileira das décadas de 70 a 80 é uma possível predileção para o samba.

Djavan teve pouca abertura para explorar outros tipos de estilos e composições no seu primeiro álbum de 1976.

ABC do ABC – Você define o retrato de Djavan como “sereno e instigante”. Como foi encontrar esse equilíbrio entre a serenidade do personagem e os conflitos presentes em sua trajetória?

Tiago: Essa definição de que a biografia é um retrato sereno e instigante de Djavan é uma reflexão da pós-doutora pela Escola de Comunicação e Artes da USP, Araceli Barros, sobre o livro. Barros é a autora da quarta capa.

Concordo com ela. No entanto, considero o livro mais instigante do que sereno.

  • Publicado: 18/08/2026 14:41
  • Alterado: 18/08/2026 14:41
  • Autor: Daniela Ferreira
  • Fonte: ABC do ABC