Enquanto o Brasil briga e se distrai, as bets vencem

A polarização política afasta o debate de problemas reais e urgentes, como o avanço das apostas esportivas e seus impactos sociais e econômicos no Brasil.

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Há um efeito da polarização política que raramente é discutido, mas que, talvez, seja um dos mais perversos que existe quando é o futuro que está em jogo. Este resultado, afinal, nos impede de discutir os problemas que realmente estão interferindo na vida das pessoas – e, na maioria das vezes, com consequências catastróficas. Estou falando das apostas esportivas.

O tema ganhou força nos últimos meses, e, especialmente durante a Copa do Mundo, quando as transmissões dos jogos passaram a ser tomadas por propagandas de bets. Não se trata, tão somente, de uma discussão sobre publicidade, mas de um debate necessário e urgente.

Hoje, especialistas já alertam para o crescimento da dependência em plataformas de azar, especialmente entre jovens, idosos e pessoas de baixa renda. Levantamentos sinalizam que uma parcela significativa do endividamento dos brasileiros está relacionada às apostas. Estima-se que cerca de 57% das famílias que convivem com este tipo de débito tenham algum vínculo com aporte em apostas. Mais do que um problema econômico, estamos, portanto, diante de um novo vício.

O sonho do dinheiro fácil, alimentado por marketing agressivo e com a presença constante de influenciadores e de atletas promovendo bets, cria uma ilusão perigosa. Para milhares de brasileiros, jogar deixa de ser entretenimento e passa a ser uma (falsa) esperança de resolver percalços financeiros, e que, ao fim, quase sempre termina em frustração e em mais endividamento.

Os jogos de azar agem no sistema de recompensa do cérebro. Por isso que, aquilo que começa como uma simples aposta, como passa-tempo, pode, rapidamente, evoluir para uma patologia, fazendo com que o indivíduo perca a capacidade de controlar o tempo e o dinheiro investidos, mesmo diante de perdas devastadoras.

O desespero financeiro e o adoecimento mental fazem com que muitos indivíduos desenvolvam níveis insuportáveis de ansiedade e de depressão, o que leva, não raramente, à morte e ao suicídio. Casos recentes, como o do policial militar que morreu vítima de transtorno depressivo severo, após acumular uma dívida de quase R$ 1 milhão, têm servido de alerta para o impacto devastador das bets.

Isso não significa demonizar o setor, nem defender proibições simplistas. No meu entendimento, o caminho responsável passa por séria regulamentação. O Brasil precisa discutir limites para a propaganda deste tipo de produto; mecanismos eficientes de fiscalização; controle rigoroso da atuação das plataformas; transparência nas operações; campanhas permanentes de conscientização; e ações para a prevenção e o tratamento da ludopatia (dependência em jogos).

Outros países já avançaram nesta seara. No Brasil, estamos atrasados. Isso porque a energia política do País está sendo consumida por conflitos permanentes que rendem curtidas, mas que não produzem resultados concretos e soluções.

O sujeito que perdeu o controle financeiro por causa de apostas on-line não quer saber quem venceu a última discussão nas redes sociais. A família que testemunhou um filho se afundar em vício em bets não está preocupada com hashtags. Ela quer proteção, informação e políticas públicas que lhe atenda em suas necessidades e urgências.

É exatamente para isso que existe a Política. Governar não é alimentar conflitos – é enfrentar e discutir com propósito e compromisso a regulamentação das apostas no Brasil. Porque, enquanto o debate público permanece preso à guerra permanente entre os extremos, problemas silenciosos continuam se espraiando, fazendo vítimas e deixando rastros de destruição.

De tudo, este, ao meu ver, é o maior prejuízo da polarização. Ela não apenas divide o País – ela distrai toda uma nação. E um Brasil desatento demora muito mais para enfrentar aquilo que ameaça a saúde mental e a segurança econômica de sua gente.

Paulo Serra é especialista em Gestão Governamental e em Políticas Públicas, pela Escola Paulista de Direito; e em Financiamento de Infraestrutura, Regulação e Gestão de Parcerias Público-Privadas (PPPs), pela Universidade de Harvard (Estados Unidos); cursou Economia, na Universidade de São Paulo (USP); é graduado em Direito, pela Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo-SP; professor universitário no curso de Direito, também é 1º vice-presidente da Executiva Nacional do PSDB e presidente do Diretório Estadual do PSDB de São Paulo; foi prefeito de Santo André-SP, de 2017 a 2024.

  • Publicado: 02/07/2026 10:29
  • Alterado: 02/07/2026 10:29
  • Autor: Paulo Serra
  • Fonte: Paulo Serra