Efeito Agosto: sobrecarga eleva busca por apoio em saúde
Com pico a partir de agosto, levantamento aponta alta de 64% na busca por suporte psicológico no 2º semestre
- Publicado: 06/08/2026 16:42
- Alterado: 06/08/2026 16:42
- Autor: Daniela Ferreira
Com uma alta de 64% na procura por atendimento psicológico no segundo semestre e o recorde histórico de mais de 546 mil afastamentos do trabalho por transtornos mentais, o afunilamento de metas corporativas e o desgaste acumulado do ano acentuam o esgotamento dos trabalhadores brasileiros. O fenômeno, identificado no meio médico e ocupacional como “Efeito Agosto”, reflete o momento em que a sobrecarga biológica, psíquica e financeira atinge níveis críticos nas empresas.
A elevação do desgaste não ocorre de forma linear ao longo dos meses, concentrando-se fortemente a partir do mês de agosto e estendendo-se pela segunda metade do ano.
Pico de Atendimentos e Afastamentos pelo INSS
Dados da plataforma de saúde Unolife indicam que o mês de agosto registrou um volume de consultas 25% superior à média mensal do ano, consolidando a tendência observada no período anterior, quando ficou 22% acima da média. O avanço de 64% na busca por suporte psicológico entre o primeiro e o segundo semestre evidencia a forte pressão pelo cumprimento de metas no fechamento do ano.

O indicador privado acompanha o cenário de saúde pública e previdenciária. Registros do Ministério da Previdência Social apontam a marca de 546 mil licenças médicas geradas por transtornos mentais e comportamentais, representando um crescimento de 15%. No caso específico dos afastamentos gerados por Síndrome de Burnout, a alta ultrapassou 800% em um intervalo de quatro anos.
Sintomas Físicos e Desigualdade de Gênero
A sobrecarga psicológica manifesta-se de forma direta na saúde física dos trabalhadores. Um levantamento do Instituto QualiBest aponta que mais de 70% dos profissionais relatam sintomas físicos decorrentes do estresse contínuo, com prevalência de insônia crônica em 40% dos entrevistados, cansaço extremo em 34% e irritabilidade em 32%.
Pesquisas do Instituto Datafolha mostram que mais de 60 milhões de brasileiros sentem esgotamento frequente. O impacto atinge desproporcionalmente o público feminino, uma vez que as mulheres representam 60% do total de pessoas esgotadas, pressionadas pela jornada dupla que combina trabalho formal e afazeres domésticos. A exposição prolongada ao estresse mantém elevados os níveis de cortisol, provocando a chamada névoa mental (brain fog), que afeta a memória recente e a capacidade de foco.
Pressão Financeira e Endividamento
O desgaste emocional e físico é amplificado pelas dificuldades orçamentárias das famílias. Dados da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic/CNC) indicam que o endividamento das famílias atingiu a marca de 80,9% no primeiro semestre, com o cartão de crédito figurando como a principal modalidade de dívida em 73% dos casos.
Paralelamente, o Mapa da Inadimplência da Serasa contabiliza 83,3 milhões de brasileiros negativados, o que corresponde a 50,81% da população adulta, com ticket médio de dívida fixado em R$ 6.814,39 por consumidor. O comprometimento da renda atinge diretamente despesas básicas de subsistência, como alimentação, moradia e contas de consumo.
Análise Clínica e Gestão Preventiva

A psicóloga clínica Caroline Macarini explica que a sobrecarga observada a partir de agosto resulta do acúmulo de exigências sem o devido tempo de recuperação biológica ou estabilidade financeira.
“Mente, corpo e orçamento funcionam de forma integrada. Quando o trabalhador recorre ao crédito para cobrir despesas básicas ou quando não dorme direito preocupado com as contas, o nível de cortisol permanece elevado e o rendimento despenca. Para as organizações, o caminho exige a migração de um modelo reativo, que apenas lida com o afastamento pelo INSS, para uma gestão preventiva, capaz de identificar os sinais de esgotamento antes do colapso”, analisa a especialista.
Estratégias de Mitigação no Ambiente de Trabalho
Diante do cenário de sobrecarga, especialistas em saúde ocupacional apontam estratégias para mitigar os impactos no ambiente de trabalho e na rotina individual. Entre as medidas recomendadas estão a identificação precoce de lapsos de memória como respostas biológicas ao estresse, evitando a estigmatização do trabalhador, e a inserção de pequenos intervalos de descanso ao longo da jornada para reduzir o estado de alerta constante do sistema nervoso.
Outras recomendações incluem a prática da higiene do sono, reduzindo a exposição a telas antes de dormir e limitando o consumo de estimulantes no período da tarde e o monitoramento preventivo por equipes de Recursos Humanos e gestores, que devem acompanhar variações atípicas de comportamento e taxas de absenteísmo para oferecer suporte antes que o quadro evolua para incapacidade laboral.