E agora, o que vamos fazer com o Brasil?
Depois da eleição, o Brasil seguirá com seus desafios, e a responsabilidade por construir uma sociedade mais justa continuará com governos e seus cidadãos
- Publicado: 23/10/2026 17:00
- Alterado: 23/10/2026 18:04
- Autor: Dom Veiga
Depois de semanas acompanhando candidatos, partidos, propostas, debates, promessas, acusações e respostas, finalmente chegará o momento em que cada eleitor fará sua escolha. O resultado das urnas definirá quem assumirá a Presidência da República e conduzirá o governo nos próximos anos, encerrando uma disputa que mobilizou o país e dividiu opiniões. Mas, quando a campanha terminar e os vencedores forem conhecidos, uma pergunta continuará exigindo nossa atenção: e agora, o que vamos fazer com o Brasil?
A pergunta pode parecer estranha em um país acostumado a concentrar suas expectativas naquele que assume o poder. Durante as eleições, discutimos intensamente o que cada candidato pretende fazer, quais problemas promete resolver e de que maneira suas decisões poderão transformar a vida da população. É natural que seja assim, porque o presidente, o governo e as instituições públicas possuem responsabilidades enormes, que precisam ser cumpridas e permanentemente cobradas. O equívoco começa quando imaginamos que, depois de escolher nossos representantes, todas as demais responsabilidades deixam de nos pertencer.
O Brasil não muda de natureza simplesmente porque muda de governo. No dia seguinte à eleição, continuará existindo a criança que precisa de educação, a família que procura oportunidades, a pessoa com deficiência que enfrenta barreiras para exercer seus direitos e participar plenamente da sociedade, o trabalhador em busca de emprego, o empresário que precisa produzir e o jovem que tenta encontrar seu primeiro caminho profissional. Continuarão existindo milhões de brasileiros que desejam condições dignas de vida, segurança, respeito e oportunidades para construir seu futuro. Nenhuma eleição, por mais importante que seja, consegue resolver sozinha todas essas necessidades.
O Brasil que continuará depois das urnas

Uma eleição escolhe governantes, mas uma sociedade também se define, todos os dias, por aquilo que está disposta a aceitar, questionar ou transformar. É nesse ponto que precisamos olhar com atenção para comportamentos que muitas vezes parecem pequenos, mas que ajudam a determinar a maneira como convivemos. Quando toleramos uma prática de corrupção porque acreditamos que ela não faz diferença, naturalizamos uma desigualdade porque sempre foi assim ou ignoramos uma situação de exclusão porque ela não nos atinge diretamente, também estamos fazendo escolhas sobre o país em que vivemos.
Essas escolhas não possuem o mesmo peso das decisões tomadas por quem administra recursos públicos, formula políticas ou exerce autoridade institucional. As responsabilidades são diferentes e não podem ser confundidas. Ainda assim, existe uma dimensão da vida coletiva que depende da disposição de cada pessoa para reconhecer o outro, respeitar direitos e não permanecer indiferente diante de problemas que ultrapassam seus interesses individuais. O verdadeiro desafio brasileiro não está apenas em escolher representantes, mas também em construir uma sociedade capaz de cobrar, participar, fiscalizar e assumir a responsabilidade que lhe cabe.
O governo pode criar políticas públicas para ampliar oportunidades, combater desigualdades e garantir direitos. Pode estabelecer leis, organizar serviços e administrar os recursos necessários para enfrentar problemas históricos. Tudo isso é indispensável e constitui obrigação do poder público. Entretanto, nenhuma lei consegue produzir, por si só, solidariedade genuína, assim como nenhum decreto é suficiente para fazer com que as pessoas se importem verdadeiramente com a realidade de quem vive ao seu lado. A atuação do Estado é fundamental, mas uma sociedade também precisa desenvolver relações baseadas em respeito, participação e compromisso coletivo.
É por isso que a discussão sobre o futuro do Brasil não deveria desaparecer quando a campanha eleitoral chegar ao fim. A democracia oferece aos cidadãos a possibilidade de escolher seus representantes, mas também exige atenção permanente à maneira como o poder é exercido. Acompanhar decisões, fiscalizar a aplicação dos recursos públicos, cobrar o cumprimento de compromissos e participar das discussões que afetam a comunidade são atitudes que precisam continuar independentemente do candidato escolhido ou do resultado das urnas.
A responsabilidade que não pode ser transferida
Quando a eleição terminar, continuaremos trabalhando, educando nossos filhos, abrindo empresas, frequentando escolas, desenvolvendo projetos, apoiando iniciativas sociais e tomando decisões que interferem na vida de outras pessoas. Continuaremos escolhendo onde investir nosso dinheiro, como utilizar nosso tempo, de que maneira compartilhar conhecimento e quais causas merecem nossa atenção. São decisões cotidianas que raramente ocupam o centro dos debates eleitorais, mas que também influenciam a sociedade que estamos construindo.
Uma empresa, por exemplo, participa dessa construção quando compreende que sua responsabilidade não se limita aos resultados financeiros e considera as condições de trabalho, o respeito aos funcionários e os impactos de suas atividades. Uma escola contribui quando oferece conhecimento e também estimula a convivência, o respeito e a participação. Organizações sociais podem transformar demandas coletivas em iniciativas concretas, enquanto cidadãos encontram diferentes maneiras de colaborar com suas comunidades. Nenhuma dessas ações substitui as obrigações do Estado, mas todas demonstram que o desenvolvimento de um país envolve responsabilidades distribuídas por diferentes setores da sociedade.
Talvez uma das maiores dificuldades esteja justamente na facilidade com que transferimos aos outros a expectativa de mudança. Esperamos que o governo resolva os problemas, que as instituições encontrem soluções e que alguém tome a iniciativa diante daquilo que precisa melhorar. Muitas vezes, essa cobrança é absolutamente legítima. O problema surge quando ela se transforma em justificativa para a nossa própria ausência, como se participar da vida pública fosse uma obrigação exclusiva de quem ocupa um cargo ou recebe um mandato.
O Brasil precisa de governantes responsáveis, instituições eficientes e políticas públicas capazes de enfrentar suas desigualdades. Mas também precisa de cidadãos que compreendam a importância de sua participação e estejam dispostos a contribuir dentro de suas possibilidades. Não se trata de exigir que cada pessoa resolva problemas estruturais individualmente, mas de reconhecer que um país é muito maior que seu governo, assim como uma sociedade é muito maior que uma eleição.
O compromisso que permanece depois da eleição

Quando as urnas forem encerradas, a disputa eleitoral terá chegado ao fim, mas o Brasil continuará com seus desafios, suas oportunidades e suas necessidades. A partir daquele momento, o compromisso dos eleitos precisará ser acompanhado por uma sociedade que não pode se limitar a observar os acontecimentos até a próxima campanha. O exercício da cidadania exige continuidade, inclusive para reconhecer decisões corretas, questionar escolhas equivocadas e defender direitos sem transformar diferenças políticas em motivo para abandonar o diálogo.
Talvez esse seja o compromisso que deveria permanecer depois que toda a propaganda eleitoral desaparecer das ruas, das telas e das redes sociais. Em vez de concentrarmos nossa atenção exclusivamente em quem ganhou a eleição, poderíamos incorporar à nossa rotina uma pergunta igualmente importante: o que estou fazendo para que o Brasil dê certo? Não como uma cobrança que desconsidera as dificuldades individuais ou as obrigações dos governantes, mas como um convite para examinar nossa participação na sociedade que desejamos construir.
Essa pergunta não pertence a um partido, a uma ideologia ou a um governo específico. Ela diz respeito à maneira como compreendemos a cidadania e ao compromisso que assumimos com as pessoas que compartilham o mesmo país. Afinal, os representantes eleitos terão a responsabilidade de administrar o Estado e responder pelas decisões que tomarem, mas não poderão substituir a participação de toda uma sociedade na construção de seu próprio futuro.
O país que entregaremos às próximas gerações será resultado das políticas públicas adotadas, das instituições que conseguirmos fortalecer e também das atitudes que decidirmos assumir enquanto cidadãos. Talvez esteja justamente nessa compreensão uma das expressões mais importantes da verdadeira independência: reconhecer que temos o direito de escolher nossos governantes, mas também a responsabilidade de participar da construção de uma sociedade mais justa e igualitária. E esse compromisso não termina quando conhecemos o resultado da eleição. É quando precisamos demonstrar, na prática, o que estamos dispostos a fazer com o Brasil.
Dom Veiga

Dom Veiga é empreendedor social, peregrino e fundador do projeto Adote um Cidadão, organização da sociedade civil que há 27 anos promove a inclusão de pessoas com deficiência e o acolhimento de cidadãos em situação de vulnerabilidade social. À frente da iniciativa, desenvolve ações socioeducativas, esportivas e culturais que impactam comunidades em diferentes regiões do Brasil, unindo propósito, solidariedade e transformação social.